Séries

Análise | Big Little Lies

Apresentando uma temática atual e um arco completo com apenas sete episódios, Big Little Lies é uma das melhores obras televisivas de 2017. 

Baseada no livro de Liane Moriarty e vencedora de cinco Emmy Awards, a minissérie é ambientada na cidade de Monterrey, e gira em torno de uma investigação criminal. O principal objetivo de seus roteiristas é desenvolver a linha temporal do crime de forma minuciosa, aglomerando os detalhes cuidadosamente, de maneira que o telespectador se envolva com a trama sem revelar o grande desfecho até o último episódio.

A história ronda as vidas idealizadas de três mães, que se unem após um incidente no primeiro dia de aula de seus filhos, onde uma das crianças é acusada de agredir fisicamente uma de suas colegas.

Ao decorrer da série, as imperfeições e conflitos do cotidiano dessas mulheres vão sendo dissecadas pouco a pouco, de um modo tão sútil que nos aproxima da realidade violenta que decorre do machismo. De um lado, temos Madeline (Reese Witherspoon, Legalmente Loira), uma mulher explosiva e direta que, de certa maneira, está sempre provocando caos ao seu redor. Possui problemas com seu atual marido por ainda não ter superado totalmente o pai de sua primeira criança e carrega o fardo de já tê-lo traído. A personagem se encontra em crise entre cuidar das filhas e o papel restrito à maternidade que possui, especialmente com as constantes brigas com sua filha mais velha, Abigail.

Jane (Shailene Woodley, A Culpa é das Estrelas), é uma mãe jovem e problemática, que acabou de se mudar com o seu filho, Ziggy, para Monterrey em busca de reconstruir sua vida e deixar uma tragédia de seu passado para trás. Em meio a tentativa de interiorizar essa mudança, Jane se vê encurralada pelas acusações contra o filho que tem enfrentado no colégio, levando-a a temer que o garoto tenha herdado o comportamento agressivo de seu pai.

Por último, temos a história de Celeste (Nicole Kidman, Os Outros), a protagonista que possui o arco mais dramático e bem desenvolvido de todo o enredo. Celeste vive um relacionamento abusivo com seu marido Perry (Alexander Skarsgård), ele a violenta física e psicologicamente, fazendo-a largar o emprego para viver sob sua vigília e a agredindo constantemente.

Com a crescente do feminismo nas redes sociais e no mundo, Big Little Lies veio para representar a violência contra a mulher em suas diversas faces. O desenvolvimento humanístico e o crescimento essencialmente natural da crueldade, surgindo de dentro e se exteriorizando em um misto de ódio e opressão, é delicadamente amargurante e, em muitas cenas, claustrofóbico.

A partir do momento em que começa a visualizar o cenário agressivo sob o qual está vivendo, Celeste entra no doloroso questionamento entre abandonar o marido para reconstruir sua integridade mental e física, e acabar com a fantasia de família perfeita que a cidade possui sobre ela. Durante a terapia, Celeste diz que se sente envergonhada pelos abusos que sofre em casa e que pensa em deixar Perry, mas lembra de todos os momentos bons que tiveram juntos – o que, de fato, acontece com milhares de mulheres que são abusadas pelos maridos de alguma forma em todo o mundo.

Além disso, a série traz diversas outras pautas feministas a serem encaradas, como assédio sexual, tocando no ponto do que se configura como estupro, isto é, o momento em que uma mulher não consente ou pede para um homem parar a maneira como a está tocando. Há também a guerrilha entre a maternidade e a carreira, mostrando um enorme preconceito da cidade com as mulheres bem-sucedidas que trabalham períodos longos e sustentam a casa, o que revela essa sustância do pensamento de que a maternidade equivale a uma dedicação de 24 horas diárias para as crianças.

Apesar do ritmo violento e dramático de seu enredo, a minissérie possui momentos reconfortantes e animadores em seu desenvolvimento, em especial as dinâmicas entre o grupo de crianças. Os tons azulados do céu mesclam perfeitamente o mar na cidade costeira, apresentando uma atmosfera aparentemente pacífica mas que carrega uma carga de tristeza e melancolia tão subjetiva quanto a vida de suas personagens.

A trilha sonora é apresentada de um jeito doce e infantil, com a pequena Chloe, filha de Madeline, sendo responsável pela maior parte dos momentos musicais. As melodias antigas dos anos 60 e 70, uma mistura do antigo blues, jazz rock são inseridas o tempo inteiro, com letras significativas e que possuem a mobilidade perfeita para cada cena em que se encontram.

Com uma abordagem afável e sensata, protagonistas competentes e dedicadas e um equilíbrio vívido de trabalho elementar cinematográfico, temos em Big Little Lies uma das melhores produções do ano e, provavelmente, a mais importante trama da televisão dos últimos meses.

 

 

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