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Crítica | Stranger Things 2

Stranger Things 2 transformou-se num grande e imbatível demogorgon do audiovisual

Falar que a primeira temporada de Stranger Things foi ruim seria quase um pecado. No entanto, um pecado maior ainda seria colocá-la no mesmo nível que a segunda temporada. Não porque a história tornou-se mais divertida, ou mais excêntrica, ou cheia de apelo visual. Não é isso. A segunda temporada de Stranger Things tornou-se, simplesmente,  um grande, voluptuoso e imbatível demogorgon do audiovisual. Um monstro, com certeza.  E pelo que podemos ver, a tendência é crescer até o limite do limite.

Ao contrário do que acontece com a maioria das produções que se tornam “monstros”, Stranger Things não tomou tamanha dimensão por ter sido bem dirigida. E ela foi, sem sombra de dúvidas. Mas o principal e maior responsável por esse crescimento (e arrisco dizer, amadurecimento) foi o roteiro.

Na primeira temporada, os irmãos Duffer nos apresentaram os personagens de maneira bem rasa, colocando-os em uma única grande trama, em que o foco seria dificilmente desviado. Para uma primeira temporada, a estratégia foi a ideal, pois, assim,  eles puderam arrumar o terreno para nós. Mas agora, depois de mostrados em situações diferentes, já podemos enxergá-los através de suas máscaras e personas; Steve, por exemplo, deixou de ser o playboyzinho fútil para tornar-se o bom amigo e bom baby-sitter; Joyce deixou de ser a mãe aparentemente esquizofrênica, para tornar-se a mãe preocupada e a mulher carinhosa; ou seja, além desses, diversos outros personagens apareceram diferentes da temporada anterior. Não por terem fugido da proposta, mas por se mostrarem em sua tridimensionalidade complexa.

A existência de várias grandes tramas foi essencial para que Stranger Things crescesse. De repente, não estamos mais assistindo a uma história sobre um garoto desaparecido e seus amigos que o resgatam de um mundo invertido; agora, assistimos a uma história sobre a descoberta e investigação real dos diversos casos de desaparecimento em Hawkings; sobre a fuga de Eleven em busca da verdade; sobre lutos, dores de primeiro amor, aceitação, redenção e sobre, acima de tudo, causa e efeito: todos os atos e ações do passado foram relembrados através das consequências a longo prazo. E isso foi bom também para trazer unidade e uma atmosfera cíclica, como foi evidenciado numa fala do médico sobre o aniversário dos eventos traumáticos.

No entanto, os irmãos Duffer ainda se balançaram um pouquinho no quesito “direção das cenas”. Embora a direção de fotografia tenha amadurecido também, explorando planos melhores e mais dinâmicos, eles deixaram uma impressão de que tiveram certa dificuldade em lidar com tantos personagens importantes em tantas tramas importantes. Não podemos deixar de exaltar que a ordem dos acontecimentos foi razoavelmente boa. Melhor, inclusive, que muitas outras séries; mas em determinados núcleos, sobretudo os menos importantes, a passagem de tempo apresentou-se um pouco demorada. Entre um “bloco” e outro do mesmo núcleo aconteceram vários eventos importantes para a trama principal, e quando o bloco retornava, ele já não importava mais; era uma espécie de delay. Ou seja, um atraso na hierarquia dos acontecimentos. Mas apesar disso, as cenas se desenvolveram naturalmente, sem cortes abruptos, nem perda de sentido.

A iluminação também foi um recurso pouco utilizado na primeira temporada, mas que agora chegou com tudo! Antes, Stranger Things tinha a atmosfera sombria convencional, submersa à escuridão. Na segunda temporada, contudo, o sombrio é visto através da combinação de luzes quentes em situações e ambientes estratégicos. Essa escolha reforçou o tom “oitentista” dos videogames e do rock and roll característicos da época.

E as referências, por falar nisso, continuaram de maneira natural e nostálgica: Atari, fliperama, GhostBusters, Thriller, os telefones, o visual punk… E a música, que já virou ícone, numa das cenas mais importantes da temporada, mais uma vez reforçando a estrutura cíclica da série. Por ser uma cena de clímax, em que o espectador já está emocionalmente frágil, colocar a trilha de Should I Stay or Should I go foi uma estratégia bem bolada, para que a emoção se superdimensionasse.

A promessa dos irmãos Duffer é de, mais ou menos, quatro temporadas. A próxima está prevista para 2019. Então, até lá, há tempo para muitas teorias, muitas maratonas e muitas análises no Sessão das Três. Fiquem ligados para novos conteúdos.

Abaixo, o trailer da temporada:

 

 

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