Análises

Análise | Alias Grace

A nova minissérie da Netflix é baseada em uma história real e aborda psicologia e violência contra a mulher na Era Vitoriana.

Grace Marks (Sarah Gadon) é uma jovem imigrante irlandesa acusada de assassinar seus patrões.

Após o falecimento da sua mãe durante a viagem que levaria sua família da Irlanda até o Canadá, a jovem precisa equilibrar seu cotidiano entre cuidar de seus irmãos mais novos e se defender dos ataques de seu pai – que a agride e assedia constantemente.

Ao conseguir um trabalho como empregada, Grace corta relações completamente com a família por não querer dar dinheiro ao seu pai, sabendo que este não o usaria para alimentar seus irmãos e sim para sustentar seu vício alcoólico. É então que conhece Mary Whitney (Rebecca Liddiard), que se torna sua melhor amiga e ensina Grace sobre a grande rebelião e sobre as ações dos homens perante as mulheres na sociedade.

Em decorrência de uma tragédia e à oferta de um salário melhor, a protagonista se muda para uma casa mais afastada da cidade, onde conhece seus novos patrões: Thomas Kinnear (Paul Gross) e Nancy Montgomery (Anna Paquin).

A história inteira é narrada em formato dicotômico. A primeira forma é conduzida pelas perguntas do psiquiatra, Dr. Jordan (Edward Holcroft), que desenvolvem a história de Grace desde sua partida da Irlanda até sua condenação. Esse, por sua vez, nos introduz a uma perspectiva violenta tendo em vista os abusos e injustiças, além das perdas que a garota presenciou ao longo de sua vida.

Porém, a confiança nos relatos de Grace ao seu psiquiatra são abaladas por uma segunda abordagem narrativa; um aparente relato que está sempre presente, contando sobre como a mesma manipula suas palavras para caberem exatamente no que seu médico gostaria de ouvir, causando um tom de desconfiança em relação à veracidade dos ocorridos. O tempo inteiro presenciamos falas de Grace que estão à parte das ditas a Dr. Jordan. Afinal, estaria ela mentindo, omitindo ou contando apenas o necessário sobre a verdade?

Há ainda uma aparente dualidade de personalidade presente na garota. Em vários momentos da série, a jovem acredita ser a própria Mary Whitney, o que revelaria um TDI (Transtorno Dissociativo de Identidade), que nunca é verdadeiramente estabelecido, questionando novamente se Grace possui algum problema psicológico ou se está apenas atuando a seu próprio favor.

O arco da série é circulado de maneira extraordinária. A edição contribui para a estabilização de seu roteiro; Os cortes estão sempre brincando com a linha temporal, o que torna o primeiro contato com a obra tão interessante, instigando o telespectador a juntar as cenas embaralhadas para encontrar a grande solução.

Sua diretora, Marry Harron, também conhecida por dirigir o clássico Psicopata Americano, possui uma extraordinária abordagem sistêmica, a qual é focada em cada detalhe de suas cenas. A respiração, a delicadeza de uma agulha sobre o tecido, o olhar profundo de sua protagonista, o caminhar introspectivo: Tudo isso se faz necessário para a construção da atmosfera misteriosa e da junção não apenas do cenário criminoso, mas também do funcionamento da mente de Grace.

A adaptação do roteiro é de Sarah Polley e possui ainda a participação de David Cronenberg em sua produção.

O trabalho cenográfico é outro forte acerto dentro da obra. A caracterização dos personagens desde as vestimentas até a maquiagem – destaque para esse último no episódio final –, o paisagismo e a escolha de móveis e decorações típicos do século XIX são indescritivelmente impecáveis para datar a época de seus acontecimentos.

Além disso, o trabalho da fotografia, em especial, da iluminação, se faz presente a todo momento. O foco da luz e o estabelecimento de sombras são importantes para climatizar cada um dos cenários. A escolha de cores é rústica e adequada, optando por cores escuras e azuladas apenas em momentos de caos e tragédia.

Todos esses elementos cinematográficos são o que torna a ambientação de Alias Grace tão bem trabalhada e realística.

A violência psicológica presente é tida de um viés social. A construção patriarcal e a relação entre patrão e empregado são as pautas mais discutidas dentro do roteiro.

Desde o abuso do próprio pai, passando pelo assédio de homens ao longo de seu caminho e ainda encarando os maus tratos dentro do manicômio, Grace está sempre ressaltando a falta de sua confiança em homens. A jovem chega a declarar que na época em que foi internada no hospício, os médicos a tocavam de maneira sexual e a submetiam a diversas torturas psicológicas.

Baseada em um livro – que, por sua vez, tem como base acontecimentos reais – da mesma escritora de The Handmaids Tale e tratando de assuntos como aborto, relações de poder entre gênero e classe, assédio, violência doméstica e da psique, Alias Grace é uma obra que se passa no século XIX mas se estabelece em paradigmas sociopolíticos da atualidade.

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