Filmes

Crítica | Invisível

Invisível é um filme intimista que passeia pelas incertezas e pela solidão da adolescência, intensificadas através do desafio de uma gravidez indesejada.

Uma aluna visivelmente entediada, melancólica e distraída. É assim que somos apresentados a Ely, numa sala de aula, mas absolutamente em outro lugar.

Ely (Mora Arenillas) é uma garota de 17 anos, prestes a terminar a escola e empregada numa clínica veterinária, onde se envolve com o filho do dono, Raul (Diego Cremosini); e engravida. Esse é o plano de fundo que acompanha toda a trama, movendo a personagem através de um turbilhão emocional acompanhado de perto pela câmera, que se mantém em planos médios e fechados durante todo o filme para explorar a angústia e uma aparente apatia desde a primeira cena.

Como o foco do filme é a luta emocional pela qual a personagem passa, Arenillas leva o filme nas costas – na verdade, no rosto. Muitas vezes a atriz contracena com pessoas que sequer aparecem, participando como vozes distantes: professores, profissionais, médicos. Ademais, é reconhecida a existência da figura materna, mas ela não aparece por um bom tempo, funcionando como mais uma sombra no cotidiano de Ely. Esse distanciamento ajuda a construir o senso de solitude que vai acompanhar a descoberta da gravidez e as fortes decisões sobre seu corpo.

Outro elemento que adiciona a essa noção de reclusão é o fato de que Ely tem relacionamentos na sua vida, mas não há um trabalho de aprofundamento nos laços emocionais e não é possível entender qual a natureza deles – seja com Raul, um cirurgião veterinário casado, com sua mãe (Mara Bestelli), ou com a melhor amiga a quem ela confidencia a gravidez, Lorena (Agustina Fernández).

A relação com a mãe, que demonstra fortes indícios de agorafobia, é um terreno delicado e força adolescente a se portar como uma adulta, o que é reforçado pela repetição de uma sequência (até mesmo monótona) de atitudes em cenas distintas. Se tornam interessantes os elementos de maternidade e responsabilidade que estão constantemente presentes nos detalhes das cenas, como um lembrete.

O roteiro é enxuto, trazendo nada mais que os diálogos necessários e algumas vezes pecando pela falta de desenvolvimento. Ainda assim, há um trabalho interessante em acompanhar longas leituras na internet, feitas pela amiga de Ely, Lorena; isso transpira inocência e imaturidade, bem como determinação em resolver a situação elas mesmas.

Não menos importante, a ambientação, o figurino e a trilha sonora trabalham em conjunto para dar à vida da personagem sua característica mais periférica e, portanto, mais invisibilizada num país em crise.

Invisível, uma obra com importantes pautas atuais, foi coproduzida por Argentina, Brasil, Uruguai, França e Alemanha e dirigida por Pablo Giorgelli, também responsável pelo roteiro junto a María Laura Gargarella; o filme estreou na mostra competitiva Orizzonti do 74º Festival de Cinema de Veneza.

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