Críticas

Crítica | Assassinato no Expresso do Oriente

Um professor, um médico, uma babá, uma princesa, um mordomo, uma missionária, um assistente, um vendedor, uma viúva, um conde, um comissário e uma condessa. Quem você acha mais provável de ter cometido um assassinato?

Pois é assim que somos introduzidos ao Expresso do Oriente, após uma curta e objetiva cena de apresentação, por onde conhecemos Poirot: “o melhor detetive do mundo”, como ele mesmo faz questão de exaltar.

As cenas introdutórias tiveram um dinamismo excelente, pondo-nos já direto ao ponto, no meio de uma ação; algo estava acontecendo e já nos trazia curiosidade e nervosismo em saber quem eram aquelas pessoas e por que elas corriam em agonia por todo canto, e qual seria o cargo tão respeitoso daquela figura de bigodes, que depois nos foi dito se chamar Hercule Poirot.

Os planos-sequência foram essenciais para retratar o dia a dia e as multidões daquele povo do oriente. E tocando neste assunto, é importante reforçar o papel da câmera neste filme, que ajudou não somente às caracterizações de cenários, mas, essencialmente, tornou O Assassinato no Expresso do Oriente uma experiência dinâmica e ágil, mesmo em sua escassez de cenários, já que grande parte da história se passa dentro de um trem.

A cena em que Poirot entra numa das cabines com o diretor do Expresso, por exemplo, é toda filmada de cima para baixo (contra-plongée), como se ambos fossem peças de um jogo de xadrez; em outras palavras, meros joguetes, que não deveriam ter pretensão de serem agentes do destino. E esta é apenas uma das inúmeras cenas onde a câmera tem o papel principal.

Outro fator importante é perceber que, diferente do que é visto em filmes de investigação, não existe somente a trilha musical no design de som. Ao contrário, nós temos uma riqueza sonora ilustrada por burburinhos naquela cidade lotada, principalmente nas estações de transbordo; o chacoalhar dos vagões de trem; e sons de praticamente tudo dentro do Expresso, nunca deixando que apenas a música preencha o silêncio incômodo.

O desenrolar da história em si fluiu com naturalidade, e aqui, um parabéns ao diretor Kenneth Branagh, que tem nos encantado desde Cinderela (2015), e seu recente trabalho em Dunkirk (2017). Branagh de fato transformou uma história que, no cinema, poderia tornar-se monótona, tornando-a interessante e curiosa. No entanto, o problema veio com o protagonista, Poirot, que vendeu-se a muito mais do que ele era; a grande verdade é que Poirot se contradiz em ser o melhor detetive do mundo, demorando muito para solucionar o caso, deixando evidências passar por seus dedos, e sem trazer tanta imponência (ou mesmo credibilidade) quanto seu concorrente literário, Sherlock Holmes (personagem de Arthur Conan Doyle).

A trama em si seguiu uma trajetória crescente, mas não soube como chegar ao momento final; faltou um clímax com cara de clímax, e tudo se resolveu muito apressadamente, sem aquele ápice característico de resolução de clímax. Não houve medo, agonia, nervosismo, excitação. Absolutamente nada. Foi esse o sentimento.

O Assassinato no Expresso do Oriente contou com um excelente elenco, uma excelente direção de cena e fotografia, mas, infelizmente, quem deveria ser o protagonista terminou pondo-se de escanteio, enquanto os demais personagens conduziam a trama, a curiosidade, as evidências, através de suas maneiras, olhares, e, principalmente, depoimentos.

Então, verdade seja dita: se dependêssemos de Poirot para desvendar os fatos discutidos, nós nunca mais sairíamos daquele Expresso do Oriente.

Abaixo, o trailer do filme:

 

 

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