Críticas

Crítica | Dark

A primeira produção alemã da Netflix definitivamente vai te dar algo em que pensar.

Criada por Baran Bo Odar e Jantje Friese, Dark é uma série composta por diversos eixos familiares, centrados no município de Winden, na Alemanha. Logo nos primeiros minutos, somos levados a testemunhar o suicídio de Michael Kahnwald (Rudolph Sebastian) e, a partir de então, convidados a uma trama que envolverá 4 famílias em busca de respostas.

Os comentários comparativos a Stranger Things (2016) não são um exagero. No primeiro episódio, temos o rapaz andando de bicicleta sozinho, à noite e na floresta, um chocolate encontrado na floresta que era “o favorito” de alguém (waffles?), a Grande Companhia Suspeita – que nesse caso é uma usina nuclear -, desaparecimentos e uma criança desconhecida. O desejo é que as analogias parem por aí; e em grande parte ele é atendido. Os próprios criadores falaram sobre a comparação de forma bem humorada: Friese alegou que se todas as pessoas que viram Stranger Things considerarem ver Dark, será uma grande oportunidade para a série.

Apesar do excesso de comparações no primeiro episódio, a série é bem sucedida em fazer referências a outras obras, como Matrix (1999) e De Volta Para o Futuro (1985). Essa é uma grande diferença em relação a Stranger Things – o foco aqui não é a nostalgia, mesmo que parte da trama aconteça nos anos 1980, e sim a sensação de segredos e obscuridade.

O primeiro núcleo familiar é composto pelo filho de Michael, Jonas (Louis Hofmann) e a mãe de Jonas, Hannah (Maja Schöne). A apresentação dos outros personagens é gradativa e só é possível ter noção de todos os laços ao fim do primeiro episódio. A família Nielsen é composta pelos pais, Ulrich (Oliver Masucci) e Katharina (Jördis Triebel), e três filhos, Martha (Lisa Vicari), Magnus (Moritz Jahn) e Mikkel (Daan Lennard Liebrenz). A delegada Charlotte Doppler (Karoline Eichhorn) é casada com Peter (Stephan Kampwirth) e tem duas filhas, Franzisca (Gina Alice Stiebitz) e Elisabeth (Carlotta von Falkenhayn). Por fim, o melhor amigo de Jonas, Bartosz Tiedemann (Paul Lux), é filho de Regina (Deborah Kaufmann) e Aleksander (Peter Benedict). Ufa! Confuso? Não fica muito melhor assistindo.

Acompanhar a quantidade de personagens e seus relacionamentos é um dos maiores desafios da série – e olha que ainda nem chegamos na parte complicada. A apresentação de mais de uma linha do tempo ainda acrescenta o problema de associar os novos atores com aqueles que você acabou de conhecer, um verdadeiro jogo de quem é quem.

Jonas volta à escola depois de dois meses se recuperando do trauma que a morte do pai lhe causou e descobre que Erik Obendorf (Paul Radom) está desaparecido – não que os alunos pareçam sentir muito sua falta. Na verdade, eles se preocupam em roubar as drogas que Erik esconde na floresta e por isso fazem a típica excursão para a floresta à noite, durante a qual Mikkel, de 11 anos, vai desaparecer misteriosamente; é então que o drama começa a se desenvolver.

Hofmann está impecável em sua representação de conflito e dor; a jornada de autoconhecimento pela qual Jonas passa é uma das mais intrigantes da série e apresenta uma constância impressionante. Ulrich, por sua vez, traz uma dor excruciante na busca pelo seu filho e nos desafia o tempo todo – até onde ele é capaz de ir para trazer seu filho para casa?

Os personagens de Dark são complexos e palpáveis, cheios de conflitos, segredos e dúvidas. Vale a pena ressaltar que temos muitas presenças femininas fortes e com oportunidade de ocupar posições de poder: Katharina é diretora da escola, Charlotte é a delegada destemida que luta para desvendar os desaparecimentos e Claudia Tiedemann (Julika Jenkins) se torna diretora da usina, o que é descrito pela própria série como “muito moderno até para 1986”.

Para compensar a confusão de nomes e parentescos, Dark consegue passar mensagens com gestos sutis, feições e pequenas interações entre as personagens. O roteiro, de Friese e Martin Behnke, é louvável por surpreender o espectador em todos os episódios. Grandes mistérios que poderíamos julgar como elementos de fim de temporada são revelados já no meio da série, que tem 10 episódios, o que demonstra que os criadores realmente têm muito a dizer. Além disso, mesmo que você já tenha descoberto o segredo – o que não é difícil em Dark – a maneira como a personagem entra em contato com a realidade é entregue com maestria pelos atores e pela direção de Baran Bo Odar.

A trilha sonora é essencial para criar a tensão e o suspense, mas trabalha na série como um todo para estabelecer seu tom sombrio. Ben Frost está por traz da música original, elemento que é impossível não notar e é bem sucedido em criar a sensação de perigo eminente. Para as outras músicas da série, teria sido interessante ouvir um pouco da cultura alemã nos anos 1980 e na atualidade, mas tivemos um toque mais anglófono.

A ambientação em diferentes décadas é muito bem feita, do figurino aos objetos de cena. A fotografia, dirigida por Nikolaus Summerer, é de cair o queixo; três exemplos bastam.

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Dark instiga e confunde, mas sempre de uma forma deliciosa. A série não se limita a discutir a hipocrisia, drogas, traição e conflitos amorosos. Ela esmiuça a física, religião, filosofia e psicologia. É uma fonte de reflexões e provocações – que não vão terminar mesmo depois do fim da temporada.

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