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Laranja Mecânica na perspectiva de Skinner

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Skinner foi o criador da abordagem psicológica chamada de Análise do Comportamento e da filosofia do comportamento, nomeada de Behaviorismo Radical. E Laranja Mecânica é um dos maiores clássicos do cinema relacionados a estas temáticas.

Laranja Mecânica (1971) foi um filme produzido, adaptado e dirigido por Stanley Kubrick, responsável pela direção de Dr. Fantástico (1964). A produção retrata temas de análise social, política e econômica, e, além disso, faz referências, através de cenas violentas e perturbadoras, à delinquência juvenil. A produção de Kubrick é um ótimo instrumento para compreender a abordagem psicológica fundamentada por Skinner. Para entender a relação da obra com a Psicologia, é necessário dividi-la em duas partes: a primeira parte mostra a vida de Alex DeLarge (Malcolm McDowell) antes de ser pego e preso pela polícia; a segunda parte aborda a vida dele na cadeia – Tratamento Ludovico, uma terapia para a reabilitação de criminosos, realizado dentro de duas semanas – e a vida de Alex após a saída da prisão.

Ao elaborar os princípios básicos da sua teoria, Skinner alega que o ambiente para a Análise do Comportamento não faz referência apenas ao valor agregado pelo senso comum; então, o ambiente faz referência à parte física (material), ao fator social (interações interpessoais), à nossa história de vida e à interação com nós mesmos. A partir daí, compreende-se o ser humano através da sua relação com o ambiente.

Logo nas primeiras cenas de Laranja Mecânica  imagens violentas, quando Alex ataca um velho morador de rua e estupra  a mulher de um escritor. Nessas duas devidas cenas, enquanto Alex comete os atos violentos, seus parceiros de gangue começam a rir. Entra aqui um termo elaborado por Skinner conhecido como reforço, que é um tipo de consequência do comportamento que aumenta a probabilidade dele voltar a ocorrer. Esse reforço pode ser apresentado de duas maneiras: reforço positivo, quando a modificação no ambiente é feita pela adição de um estímulo (uma parte ou uma mudança em parte do ambiente), tornando assim o comportamento mais provável de acontecer novamente; reforço negativo, quando um comportamento é reforçado para parar ou evitar um estímulo aversivo, que tendem a envolver um desconforto físico ou psicológico. Quando a gangue começa a rir, o comportamento violento de Alex foi reforçado positivamente, causando, assim, a continuação da agressão.

Na introdução para a segunda parte da história, Alex invade a casa de uma senhora rica e a violenta, e, assim, acaba a matando. Com isso, ele é pego e preso pela polícia, que, ao interrogá-lo, bate nele. Quando ele é preso, o termo da Análise do Comportamento presente na cena é o que Skinner chama de punição negativa, onde a probabilidade do comportamento ocorrer diminui através da retirada de um estímulo reforçador, no caso de Alex, a perda da liberdade. Quando os policiais o espancam, é mostrado em cena a punição positiva, quando a probabilidade de um comportamento ocorrer diminui pela adição de estímulo punitivo no ambiente.

A partir desse fato, alguns comportamentos de Alex começam a sofrer alterações. Ainda na prisão, antes de ser direcionado ao Tratamento Ludovico, ele passa a usar a fuga como estratégia. A fuga na Psicologia Comportamental acontece quando um estímulo aversivo, os policiais o espancando, está presente no ambiente e o comportamento de fuga retira-o do ambiente. Ou seja, como o espancamento já estava presente desde o primeiro momento dele na cadeia, ele começa a fugir deste ato, usando de palavras educadas ao falar com os policiais e obedecendo ordens impostas.

O Tratamento Ludovico, para onde ele é direcionado, acontece da seguinte maneira: ele é drogado com uma substância e é forçado a assistir cenas violentas. Essa substância inserida em seu corpo terá o mesmo papel que o ato de espancar, quando ele ainda estava na prisão, ou seja, irá funcionar como punição positiva. Ao ser apresentado a qualquer cena de violência ou ter pensamentos violentos, a droga injetada o faz ficar doente, fazendo com que o pensamento do ato violento não se concretize no plano real.

Logo, ao final das duas semanas do tratamento, Alex passa por um processo de demonstração, no qual ele não consegue lutar contra um ator que o insulta e há, também, a aparição de sintomas fortes ao ver a uma mulher de topless. Nas palavras do ministro do interior, ele está curado; no entanto, os comportamentos violentos de Alex continuam lá, eles apenas foram punidos: no momento em que o indivíduo entra em contato com estímulos aversivos são geradas várias respostas emocionais, como tremores e taquicardia. Ou seja, quando o agente punidor está presente, o comportamento sai de campo pelo medo ou aversão de ser punido.

Entretanto, a partir do momento em que o agente punidor perde a sua força – em Laranja Mecânica isso acontece no momento em que o governo perde a sua popularidade através da crítica de um jornal, feita ao tratamento desumano dado a Alex – os comportamentos punidos têm uma maior probabilidade de retornar. Por isso, nas cenas finais da obra, Alex percebe que não tem mais aversão a atos violentos.

Laranja Mecânica, além da sua grande magnitude e competência dentro da história do audiovisual, garante uma compreensão com excelência dos teóricos da Análise do Comportamento. A obra cinematográfica de Stanley Kubrick já foi utilizada para embasar teses de mestrado e doutorado na Psicologia, fortalecendo, assim, ainda mais a sua importância para a área de estudo do comportamento humano.

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