Séries

Crítica | The Crown – 2ª temporada

A segunda temporada de The Crown possui um ritmo próprio e uma riqueza singular.

The Crown é, definitivamente, uma das séries mais bem produzidas da atualidade.

Assim como a segunda temporada faz, desde o começo já entregamos o resultado. A primeira cena acontece 3 meses à frente; temos Elizabeth II (Caire Foy) e Philip (Matt Smith) num momento de tensão e confronto e então somos levados de volta, para um momento no qual ambos estão imersos numa alegria e conforto quase juvenis um com o outro. Algo um tanto ingênuo, é dada a sensação. E vamos descobrir que é verdade.

A primeira parte da temporada trabalha na evolução do casamento Real. Uma relação que se torna cada vez mais difícil desde que ela é coroada Rainha, como é possível acompanhar desde a primeira temporada da série. Aqui, o roteiro mistura com habilidade as sensações de humilhação pessoal e nacional, visto as crises pelas quais o Reino Unido passa desde o fim da Guerra. O casamento é sentido como uma verdadeira instituição da qual depende a integridade da monarquia inglesa.

Peter Morgan não decepciona. Seu roteiro não é cansativo e, ao passar para a segunda parte, ele nos dá uma visão profunda dos mais diferentes aspectos com os quais A Coroa precisa lidar no fim dos anos 1950. É possível se sentir imerso e devidamente chocado com as revelações e curso dos acontecimentos. Além disso, muitas vezes o contraste entre o que é dito e o que é mostrado consegue passar a mensagem por si só.

O debate é amplo em questões de modernidade, como a ascensão das Repúblicas e o papel crescentemente questionado da monarquia, e os novos personagens acrescentam a esse processo. Nessa segunda parte, o foco muda e os episódios passam a ser mais pessoais, mais introspectivos. A mudança abrupta dá uma sensação de descontinuidade no começo, mas a narrativa consegue encontrar seu caminho de volta à soberana representada por Foy.

A aparição de figuras histórias certamente cria um ambiente interessante, a exemplo de Lord Altrincham (John Heffernan), J.F.Kennedy (Michael C. Hall) e Jackie Kennedy (Jodi Balfour). Hall está transformado e se você achou que depois de Dexter (2006) não conseguiria vê-lo de uma forma diferente, sua aparição vai te fazer mudar de ideia.

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Caire Foy está sensacional, assumindo a complexidade de uma chefe de Estado que ao mesmo tempo é mulher, esposa, mãe, irmã e uma infinidade de outras Elizabeths. Sua expressão consegue nos passar muito além da alegria e da tristeza; ela sente decepção, abandono, horror, desafio, medo, saudade, e sempre de uma forma sutil; ela é a Rainha e não lhe é permitido passar por explosões. Todas as emoções estão ali, devidamente contidas mas devidamente passadas para a audiência. Além disso, há o seu desejo de ser algo mais para a política de seus país e conflito sempre existente dos limites do soberano. Ela precisa se fortalecer e tomar decisões difíceis enquanto é criticada pelo seu povo. Seu papel é central e a confluência dos eventos, de alguma forma, volta para ela de forma a acrescentar desafios ao seu reinado ou ao seu casamento.

Smith não fica para trás (ok, talvez um pouco). Essa temporada traz uma carga emocional muito mais pesada para o seu personagem, que nós finalmente iremos conhecer mais profundamente. A mesma arrogância e ego estão presente, com as constantes críticas e a insatisfação com a vida que ele precisa viver. A adição da sua história pode criar uma simpatia pela dificuldade e pela dor, mas mostra que essas características já pertenciam a ele antes disso.

O figurino e a ambientação são impressionantes. Desde os “vestidos de batalha” até os uniformes da Marinha, tudo reflete não apenas a época como também a essência da sua personagem. Os cenários são montados aos mínimos detalhes e vão chover comparações com cenas e fotos reais, porque The Crown procura e consegue capturar a atmosfera do passado com fidelidade. A harmonia é reconfortante nessa série, que é visualmente linda.

A edição de som também merece aplausos. O momento histórico no qual a temporada se passa é início de uma longa transição nos meios de comunicação, com as evoluções da tecnologia durante a Guerra Fria, e muitos deles são explorados. Assim, em várias cenas as personagens assistem à televisão ou escutam ao rádio, por exemplo, que ainda tinha papel de destaque à época; não meramente como um barulho de fundo, mas como parte integrante da cena e construtor da trama. As comunicações são um dos fios condutores e precisam ser bem elaboradas, no que a série sucede.

The Crown é uma série para ser deliciada, seja pela sua beleza, pela sua sonoridade, pela sua importância histórica ou simplesmente porque você gosta de saber dos podres da Família Real. Ela traz uma riqueza de detalhes impressionante através do entrelaçamento dos seus elementos de narrativa, imergindo o telespectador.

 

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