Análise

Análise | The End of F***ing World

Se a gente misturar Bates Motel e Atypical ao som de R.E.M, certamente teremos uma pequena prévia da loucura instigante que é The End Of The F***ing World.

First things first!

Primeiramente, é preciso reforçar o fato de que The End of The F***ing World não romantiza a psicopatia, pelo simples fato de que James, o protagonista, não se enquadra no perfil psiquiátrico de psicopatia.

A todo momento, James está em conflito, questionando-se enquanto indivíduo; em nenhuma cena é explicitado o diagnóstico dele, deixando que o espectador entre em sua angustiante paranoia em tentar se descobrir. Existe certa moral em sua personalidade, julgando o certo e o errado, calculando atitudes e ações, incluindo consequências. E esse senso de moralidade está presente a cada situação de tensão, demonstrando, mais uma vez, que James se distancia um pouco dessa tal psicopatia que ele julgava ter.

Um segundo argumento para isso é analisarmos a série como uma espécie de paródia, uma produção que critica, ou ironiza, os filmes americanos sobre psicopatas foragidos da polícia. Isso é evidenciado em alguns diálogos, e implícito no sotaque britânico e nos carros com volante no lado direito. Em outras palavras, o que podemos entender disso é que Jonathan Entwistle (criador da série) exagera e ironiza de propósito.

A série começa já no meio do chamado incidente incitante¹, fisgando o espectador logo de primeira. Quem são esses adolescentes? Por que eles são tão frios? O que eles pensam que vão fazer?! Essas e muitas outras perguntas já são respondidas logo no primeiro episódio. Ótima estratégia. Bingo!

Ao longo dos demais episódios, descobrimos que a dupla de protagonistas têm famílias conturbadas, passados terríveis, e, embora não se justifique, sabemos que evidentemente se explica. Para cada ação há uma reação. Portanto, dessa maneira, é possível que James tenha chegado a um estágio grave de depressão beirando ao surto psicótico (não confundir com psicopatia, que é outra coisa); no entanto, com a chegada de Alyssa, o emocional de James deu uma chacoalhada.

[ALERTA DE SPOILER]

Desde os primeiros episódios, temos acesso ao passado dos personagens através de rápidos flashbacks. Com relação a James, vemos uma mulher loira fazendo cafuné em sua cabeça quando ele era criança. Mais tarde, sabemos que esta mulher é mãe dele, e que ela se matou na frente dele ainda nessa época da lembrança.

É bem provável que essa nova presença feminina tenha destravado suas emoções, anteriormente bloqueadas pelo trauma, já que podemos claramente vê-lo se soltar aos poucos. E isto é mais uma vez comprovado quando James pensa: “Eu achava que eu era o protetor dela (Alyssa). Mas acontece… que é exatamente o contrário”. Ou seja, a presença de Alyssa foi essencial para que James a associasse com sua falecida mãe.

Nos primeiros episódios, James nunca sorri. Nunca demonstra possuir nenhum tipo de sensação. Já do meio para o fim da temporada, assistimos a um novo James surgir: um James que ri, dança, defende, e que toma atitudes baseadas em ética e moral, pensando sempre na trajetória do sistema em que está inserido, e como suas ações irão repercutir na vida daqueles que o circundam.

O andamento de The End Of The F***ing World lembra um pouco uma outra série Original Netflix, muito aclamada, que chama-se Atypical (2017). Nesta série, temos a premissa um pouco parecida: é o cotidiano de um garoto do espectro autista, que tenta vencer as barreiras de seu estado mental para se enturmar, fazer amigos e até mesmo namorar. Sam, o protagonista, também se mete em enrascadas envolvendo crimes e também está em constante conflito interno em seus julgamentos morais.

Seguindo o mesmo modelo, The End Of The F***ing World traz temas extremamente sérios de maneira leve e “assistível”. Embora às vezes lembre o gênero trash, ainda assim é feito para que o espectador mais sensível possa assistir. Diferente desta tão falada romantização, a série simplesmente joga pro alto as boas maneiras e regras do gênero de suspense e thriller, fazendo-o de seu próprio jeito, demorando poucos segundos em cenas tensas, e muitos segundos em diálogos profundos.

Em alguns aspectos, James se parece com o garoto que estrela o clipe It’s The End Of The World As We Know It, da banda norte-americana R.E.M. Mais uma vez, uma pista: se o tempo inteiro foi evidenciado uma crítica aos filmes trash americanos sobre psicopatas foragidos, aqui podemos fazer mais outra ligação. R.E.M é uma banda norte-americana, que tem uma música com um título muito parecido, e esse clipe com uma premissa também parecida. E, principalmente, um garoto com a estrutura física e o mesmo rosto inexpressivo que vemos em James.

E já que estamos falando sobre música, não podemos deixar de comentar da trilha cuidadosamente criada para a série. Silêncios nos momentos certos; músicas leves beirando às trilhas de filmes do circuito alternativo (como, por exemplo, Fraçoise Hardy)… E mais do que isso: The End Of The F***ing World utiliza-se desta trilha leve e com o mínimo de tensão para nos lembrar de mais outro filme, o famosíssimo Psicopata Americano (2000).

Se pararmos pra pensar, esta série possui muitas referências, e todas elas culminando sempre nesta mesma explicação, de que Jonathan Entwistle criou uma série irônica, expondo um outro lado da história, a partir de vários pontos de vista, e, principalmente, matando a todos nós de tanta curiosidade e ânsia para devorar os oito episódios, todos de uma vez só!

Abaixo, o trailer da série

Nota de Rodapé
¹Incidente incitante: é quando, na história, algo acontece para tirar os protagonistas de sua rotina
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