Filmes

Crítica | Com amor, Van Gogh

O primeiro filme pintado a óleo da história do cinema foi feito por uma equipe de mais de 200 artistas e é uma imersão psicológica e visual na realidade de Vincent Van Gogh.

Os eventos do filme se passam em 1891, um ano após o suicídio do pintor. Armand Roulin (Douglas Booth) é o filho de um carteiro que era próximo a Vincent e responsável por enviar as cartas do artista ao irmão, Theo. Após encontrar a última carta de Van Gogh direcionada a Theo, Armand se vê determinado a entregá-la, começando não apenas uma busca pelo irmão de Vincent, como também uma investigação sobre a sua morte.

A obra possui uma delicadeza cultural ao interpelar cada uma de suas cenas com base nas pinturas originais do autor. Em diversos momentos, o telespectador é surpreendido por cenas que tanto iniciam-se ou terminam em referências às obras-primas de Van Gogh. Dessa forma, temos uma constituição do cenário que é familiar e uma submersão no universo artístico com o qual estamos lidando.

A construção do roteiro é feita em flashbacks, o que possibilita ao seu público ter uma visão extensa das diversas opiniões acerca do pintor; A montagem é incrivelmente retratada entre os variados relatos de lembranças dos personagens, alternando suas cenas entre passado e o momento atual – mostrando que a arte é ora vista com insanidade e, outrora, como uma forma de expressão.

A realidade retratada simboliza perfeitamente o movimento Impressionista, o qual possuiu como um de seus maiores autores o próprio Vicent Van Gogh. A paleta cromática utilizada no filme é ainda mais viva do que a das obras originais, pelo fato da possibilidade de cores ter se expandido desde a época em que o artista estava vivo. Ainda assim, a fidelidade é encantadoramente escrupulosa.

Os atores, que também serviram como modelos para a criação das 60 mil camadas, fazem um excelente trabalho conjunto. O trabalho de escolha de elenco foi minuciosamente feito para que cada personagem transpassasse dor, amargura e empatia das devidas formas, além de se assemelharem fisicamente com as figuras clássicas.

Douglas Bouth, que interpreta Armand, traz uma carga curiosa à sua personagem. O mensageiro flutua entre o ceticismo e a esperança; Ao mesmo tempo em que faz comentários ácidos acerca de seu pai e do suicídio do artista, Armand busca uma outra explicação para a morte do pintor. O ator traz uma bagagem taciturna e um vislumbre abatido de um realismo forçado à sua juventude esperançosa.

Há ainda uma forte abordagem psicológica, questionando o viés de época sobre depressão, ansiedade e melancolia, além da visão social geral de terapias psiquiátricas em uma era em que o tratamento era visto restritamente como um sinal de loucura e psicose.

Sendo assim, o longa-metragem possui um ritmo dolorosamente suave e de tirar o fôlego. A edição de som e a trilha sonora fazem parte da composição de uma ambientação rústica que se adapta ao cinema como um drama histórico. Uma obra não apenas para os amantes da sétima arte, mas também para os admiradores de artes visuais e para estudiosos da área de psicologia.

Van Gogh, assim como seu filme, são o retrato da expressão artística e dos mistérios não enfatizados sobre a mente humana. Um relato poderoso e que deixa espaço para questionamentos que flutuam entre a pessoalidade e um retrato histórico da depressão, maleabilizando através da suavidade dos movimentos da pintura a óleo, a violência externa e intrapessoal, que torna-se autodestrutiva para aqueles com doenças psicológicas que vivem em um meio socialmente abusivo.

Com mais de sessenta mil pinturas produzidas para rodar cada enquadramento dessa animação, Com amor, Van Gogh é, certamente, um filme que apresenta sensibilidade e razão em sua fidelidade à obra do pintor.

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