Análise

Análise | Mindhunter

Talvez Holden Ford tenha confundido os serial killers com a sua namorada.

Mindhunter é habilidosamente ambientada nos anos 70, à margem das investigações acerca dos perfis psicológicos criminais e da adoção do termo serial killer pelo FBI (Federal Bureau of Investigation).

Holden Ford (Jonathan Groff) acaba de ser transferido para lecionar sobre negociação de reféns, se associando também a Bill Tench (Holt McCallany) na Escola Móvel do FBI. Nessa época, a psicologia criminal não era bem vista pela instituição e sequer era considerada útil. A Escola Móvel ensina Ciência Comportamental em delegacias ao redor dos Estados Unidos e, durante uma dessas viagens, Ford se sente atraído pela ideia de conversar com Charles Manson e entender mais a fundo suas motivações. Como, na época, esse era ainda um assunto muito sensível, ele é convencido a entrevistar Edmund Kemper (Cameron Britton), um assassino famoso pela sua crueldade.

Mais à frente, eles decidem se unir a uma especialista em psicologia criminal, Wendy Carr (Anna Torv). A partir de então as entrevistas e a construção não apenas dos perfis, mas também de uma teoria que consiga fazer o processo inverso, ou seja, encontrar o assassino a partir do crime, encontra uma metodologia, espaço, financiamento e seriedade.

[ALERTA DE SPOILERS]

O fato de que o agente Ford conduz sozinho a primeira entrevista do projeto, com “Ed” Kemper, é definitivamente problemático. A sensação que causa ao telespectador quando Bill começa a acompanhá-lo nas entrevistas é que já existe uma relação estabelecida entre Ford e o criminoso. Por ser novo e inexperiente, o agente não consegue separar o vínculo típico entre entrevistador e entrevistado de um vínculo pessoal, chegando até mesmo a oferecer detalhes pessoais de sua vida a Kemper.

A progressão das entrevistas revelam um lado de Ford que é extremamente calculista e que oferece empatia aos assassinos; Esse aspecto do roteiro deixa a entender que a personagem tem uma certa afinidade com os perfis que estuda. Tememos até mesmo pela vida de sua namorada, Debbie Mitford (Hannah Gross). Estamos prontos para que a qualquer momento ele se torne um de seus objetos de estudo.

A compreensão do subconsciente dos criminosos parece ser uma tarefa fácil e imersiva. Ao entrevistar Jerry Brudos (Happy Anderson), ele tem a sensibilidade de levar um objeto que instiga a excitação do entrevistado e, com isso, a abertura de sua história. Durante essa entrevista, Brudos ridiculariza os agentes ao mencionar um comentário de Edmund Kemper, que os chamou de idiotas. Nesse momento temos uma noção do quanto Holden Ford se afeiçoou ao seu primeiro caso: “Isso não soa como Ed para mim”1, ele comenta com o parceiro Tench.

Suas tentativas de entrar na atmosfera dos entrevistados mexem com o linguajar, com a atitude e, certamente, com a sua carreira. Richard Speck (Jack Erdie), que invadiu um apartamento e assassinou oito enfermeiras, arrancou a declaração de Ford: “Quem lhe deu o direito de apagar oito putinhas? Algumas eram bem bonitas. Não pensou que estava nos privando também? Oito garotas gostosas. Acha isso justo?”. Ao que ele responde ao agente: “Você é louco. Existe uma linha tênue que nos separa”. De fato, a linha parece tão tênue em alguns momentos que quase desaparece.

Desde o primeiro momento, Ford se apresenta como uma persona prepotente, cheia de si e condescendente. Isso se agrava quando o sucesso de suas pesquisa começa a ser notado pela mídia; ele chega mesmo a perguntar a Tench se ele não estaria com inveja por não ser citado numa matéria.

Entretanto, essa atitude não se sustenta. Na cena final, Kemper cria uma situação sobre a qual tem completo domínio, o que faz Ford se sentir ameaçado e entrar em pânico ao perceber o risco que está correndo ao confiar nessa proximidade.

Sendo assim, a série apresenta um roteiro que, ao longo de cenas fortes e episódios bem construídos, acaba por se revelar inconsistente e frustrante, com diversos arcos deixados em aberto. A trilha sonora se encaixa em harmonia com as escolhas de direção e sequências policiais clássicas dão o ar de uma forte equipe se desenvolvendo (créditos para a cena dos dois saindo juntos do elevador, ao som de Psycho Killer). Ainda assim, não nos perdemos no conjunto; a construção individual das personagens é complexa e cada integrante do trio possui seu momento de aprofundamento pessoal, o que permite que haja uma compreensão de suas performances sociais e de seus traços de personalidade.

Mindhunter tem uma primeira temporada com dois momentos distintos; a empolgante abertura de arcos na primeira metade e uma desaceleração na segunda parte que deixa muito a desejar. Esperamos que a segunda temporada resolva as questões deixadas em aberto, que têm potencial para adicionar maior adrenalina ao futuro da série.

 

Por Malu Gouvêa Izzie Arruda.

Nota de rodapé:  1No original: “That doesn’t sound like Ed to me”.

 

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