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Análise | Roda Gigante

Roda Gigante faz todos os outros filmes de Woody Allen parecerem rascunhos do que seria esta grande (ou gigante) obra.

É de conhecimento geral que Woody Allen repete arquétipos de personagem, repete tramas e enredos. No entanto, a impressão que se toma ao fim de Roda Gigante é a de que o diretor tinha há anos uma história na cabeça, mas nunca conseguia realmente contá-la. Em Roda Gigante, entretanto, ela foi finalmente terminada.

A influência do teatro grego nos filmes de Allen chegou, inclusive, a ser comentada em alguns diálogos em que Mickey (Justin Timberlake) disserta sobre sua vida de escritor. E é interessante perceber que a figura do escritor fracassado também está sempre presente; e desta vez, é este escritor (aparentemente) fracassado que conta sua própria história. Ou melhor, que conta a história da qual participou de intruso e terminou sendo a faísca que faltava para a trama pegar fogo.

No início do filme, Mickey, enquanto narrador, deixa bem claro que ele gosta de símbolos e metáforas. E que, portanto, nós devíamos entender Roda Gigante desta mesma maneira, senão deixaríamos passar a verdadeira mensagem destinada ao público.

Logo após a declaração do narrador, somos apresentados ao pirralho da família protagonista, que é piromaníaco. É bem óbvio que o fogo já é a grande metáfora. Afinal de contas, o garoto foi o princípio ativo desta tragédia grega (neste caso, americana).

[ALERTA DE SPOILER]

Desta vez, o adultério tão presente nos filmes de Allen passou de um mero fetiche literário, para ser, então, parte de uma trama bem bolada e estruturada. Onde, ao invés de uma fuga fora de contexto, encontramos a figura de Ginny, uma mulher ambiciosa, egocêntrica e inconsequente, que descobre detestar o papel de dona de casa-mãe-esposa-garçonete que a vida lhe obrigou a seguir, recebendo sempre em déficit, mês após mês.

Ao contrário dos demais filmes, em Roda Gigante, o “amor proibido” é entre uma mulher mais velha e um homem mais novo; a relação edipiana finalmente foi retratada em sua maneira original, deixando claro, agora, as intenções do diretor em se aproximar das tragédias da Antiguidade. Desta vez, há conflitos anteriores ao adultério, há ciúmes, há inveja. E todos esses sentimentos levam Ginny (Kate Winslet) a fazer-se de omissa – ou, se me permite dizer: cúmplice – diante da morte tão previsível desde o começo do filme.

Todos os conflitos envolvidos na trama fazem clara referência ao filme Só A Mulher Peca (1952), lançado na mesma época em que Roda Gigante acontece. Nesse exemplo, temos arquétipos parecidos, como a figura do marido doce e ingênio; a jovem e exuberante da família (Marylin Monroe); e a forte e inconsequente mulher (Barbara Stanwick). De parecido, ainda temos o porto, o pier, a pesca. E, é claro, o pecado. A peça chave para que a história passe de drama para tragédia.

A verdade é que Woody Allen faz filmes como se ainda estivesse nos anos 50. Os planos fechados em close, o jogo das luzes, e até mesmo o número de quadros por segundo, tornando as cenas levemente mais lentas. Tudo isso mais o fato de Roda Gigante se passar num parque de diversões (ó, que ironia!) nos faz entender o filme como uma grande alegoria, quase circense, e o papel de palhaços que cada personagem possui nessa trama sádica e em giro infinito.

Ao fim da tragédia, os personagens fracassados permanecem fracassados, e os bem-sucedidos somem, são apagados. Ou melhor, mortos. O que resta são os problemáticos e incuráveis. Chega um momento, inclusive, que Ginny dá-se conta de que de nada adiantou seu ato de rebeldia, porque, no fim do dia, ela voltaria a por seu figurino e maquiagem, para então voltar a prestar o papel pelo qual pensou que não precisaria nunca mais prestar. Porque, independente de sua vontade, a Terra nunca pararia de girar, seguindo seu curso. E ela, portanto, deveria aceitar e acompanhar.

E é desta maneira que a última cena de Roda Gigante acontece, dando jus ao título, e, principalmente, oferecendo-nos uma cartada final, fugindo completamente das nossas expectativas segundos após o plano fechado de Ginny com uma faca de cozinha em mãos; como se dissesse “Ora, você esperava uma tragédia verdadeira aqui, não? Pois sinto muito”.

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