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Análise | Star Wars – Os Últimos Jedi 

Como Kylo Ren consegue ir além de Darth Vader e de Ben Solo, criando uma personagem complexa e nova dentro de um universo de nostalgias.

Star Wars – Os Últimos Jedi chegou aos cinemas em dezembro de 2017 e foi louvado pelos fãs. Com um novo ritmo e diversos arcos acontecendo ao mesmo tempo, o filme mostra a luta da Resistência contra as forças do Líder Supremo Snoke (Andy Serkis), a Primeira Ordem.

[ALERTA DE SPOILERS]

Numa das sequências iniciais, Snoke demonstra sua decepção a Kylo Ren (Adam Driver) por esse ter sido derrotado “por uma garota que nunca tinha segurado um sabre de luz na vida” (momento final de Star Wars – O Despertar da Força, de 2015, quando Kylo Ren recebe sua cicatriz); a questão, para ele, é que a esperança de um novo Darth Vader era ilusória. Ao fim da reunião na qual é chamado de “criança com uma máscara”, Kylo destrói a citada máscara, demonstrando que entraremos numa nova fase de modelagem das suas atitudes.

Esse é um primeiro ponto importante: no primeiro filme da nova trilogia, a relação de Kylo Ren com o legado do avô é muito forte, o que é evidenciado até mesmo pelo figurino da personagem; entretanto, suas trajetórias são muito diferentes. Anakin Skywalker esteve em luta sempre relacionado ao seu amor por Padmé e à sua esperança de formar uma família, o que nunca tivera antes. Ben Solo, por sua vez, teve a experiência de família e decidiu rompê-la sozinho, ao matar o pai. Ainda que Snoke acredite que isso o quebrou, foi uma atitude irreversível de desapego à sua vida antiga – só não aconteceu em prol do que o Líder Supremo esperava. Na verdade, ainda não sabemos exatamente em prol de quê ele pretende lutar.

Em Os Últimos Jedi, Kylo está dividido em níveis muito mais profundos do que o que o seu avô experimentou. Ele lida com a rejeição de dois mestres, a necessidade de dominar a Força além das capacidades de Rey (Daisy Ridley), a escolha das suas alianças e o vínculo que ainda possui com sua mãe, Leia (Carrie Fisher). Assim, o filme é capaz de romper com a cachoeira de nostalgias e apresentar um personagem que sob diversos aspectos é completamente novo. Suas dúvidas ficam claras na cena do primeiro ataque à nave da Resistência, na qual a edição intercalou os rostos de mãe e filho, enquanto ele luta pela Primeira Ordem, dando a entender que eles conseguem sentir a presença um do outro através da Força; ao se deparar com a oportunidade de matá-la, ele recua.

Mais adiante, existe uma progressão de roteiro para tratá-lo como Ben, ao invés do nome pelo qual era conhecido. Isso desconstrói mais uma vez sua personalidade, demonstrando que essa é uma persona ainda em vias de amadurecer. Principalmente a partir da conexão que persiste entre ele e Rey, podemos enxergar uma figura mais perspicaz e humana. Ela sente o mesmo, motivo pelo qual passará a chamá-lo de Ben e compreender Kylo Ren como uma aberração criada pela rejeição.

A relação entre Kylo Ren e Rey é outro ponto de destaque no filme. A todo momento, ela acredita que será capaz de convertê-lo; e ele acredita no mesmo. Apesar desse contato ter sido, de certa forma, romantizado, sua principal performance está em mostrar a dualidade que permeia a Guerra e, se possível, desfazê-la. Isso contribui para que Ben passe a entender a realidade de outra forma. A Resistência e o Império, os Sith e os Jedi, Vader e Snoke, todas as instituições; Ben Solo está pronto para deixar tudo morrer. Não existe harmonia nessa realidade, e não existe liberdade.

Existe uma certa prepotência nesse comportamento – que obviamente nós já sabíamos que existia. Isso vem de um jovem que possui um domínio da Força que assusta o próprio Luke Skywalker (Mark Hamill) e que foi instigado a se comparar com um dos grandes exemplos de seu passado. Alguém que se sente na posição de julgar o outro como insignificante para a história, olhando de sua posição privilegiada na qual ele seria lembrado sem ter o mínimo feito. Alguém que acredita ser digno da realeza.

Talvez por isso sejam as traições de seus mestres tão difíceis de aceitar. Snoke claramente o está usando e Luke lhe deixou uma cicatriz profunda quando não acreditou que ele fosse capaz de resistir ao Lado Negro. Esse ódio rasgante está em todos os traços da sua fisionomia na cena final, quando enfrenta o seu antigo Mestre Jedi; tudo pesa: a respiração, o corpo, a voz. Ele sabe que luta bem; muito, muito bem. A sequência prévia de luta, contra os guardas de Snoke, é uma descarga de eletricidade no espectador e a melhor do filme. Não obstante, ele não luta com a mesma concentração, pois a traição o cega. Além disso, ele foi traído pela ideia que tinha de uma parceria com Rey. Ben Solo está quebrado.

É possível perceber que o General Hux (Domhnall Gleeson) não o leva a sério. Assim como Vader, Kylo Ren é a personagem Sith que precisa constantemente provar que a Força é um elemento sério e poderoso. Ao fim do filme, isso se transforma numa ameaça silenciosa e não podemos deixar de imaginar se ele terá que recorrer à figura mítica de Kylo Ren para manter sua posição.

Ou se ele está pronto para usar o próprio nome e deixar que Kylo Ren morra também.

 

 

 

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