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Análise | Voldemort – Origens do Herdeiro

Para quem anda sedento por mais informação do mundo bruxo, pode até funcionar.

O trailer de Voldemort – Origins of the Heir, um suposto fan-film, chamou a atenção da Warner de tal forma que a produção em si foi autorizada e, esse sábado (13), lançada no YouTube pela Tryangle Films. A produção italiana foi escrita e dirigida por Gianmaria Pezzato e se propõe a esmiuçar o passado da personagem Lorde Voldemort – parte do universo de Harry Potter, criado pela autora J.K. Rowling -, principalmente o fim de sua vida escolar em Hogwarts e como ele executou seu primeiro plano, de criação das Horcruxes.

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[ALERTA DE SPOILERS. MUITOS SPOILERS.]

A cena inicial mostra o medalhão de Salazar Sonserina, já amaldiçoado, visto que treme como se o pedaço de alma que guarda em seu interior estivesse inquieto. Vemos então uma mão que o apanha; a figura de sobretudo está fazendo as malas e podemos ver outras conhecidas Horcruxes serem guardadas: a taça de Helga Hufflepuff, o diário de Tom Marvolo Riddle e o anel dos Gaunt, que está em seu dedo. Para deixar ainda mais claro que se trata da personagem Riddle (Stefano Rossi), é a sua característica varinha de teixo, com aspecto de “osso”, que conjura o feitiço para fechar a mala. Apenas um fragmento do seu rosto é mostrado num fechar de olhos; e quando os abre, já estamos vendo outra pessoa.

Uma bruxa luta com homens fardados, que descobriremos serem soldados russos, perguntando freneticamente pela localização de algum objeto. A edição de som e os efeitos para os feitiços são satisfatórios, e temos um momento de transição de câmera de primeira para terceira pessoa que pode te dar a sensação de estar vivendo uma realidade virtual por alguns segundos. Maddalena Orcali dá uma intensidade a Grisha McLaggen que em alguns momentos chega a ser exagerada, mas talvez esse tenha sido um artifício utilizado para deixar dicas da grande revelação final. De qualquer forma, como introdução não funciona muito bem.

Enquanto isso, vemos uma versão mais nova de McLaggen (Aurora Moroni) andando pelas ruas da Travessa do Tranco, até a Borgin e Burkes, onde Tom Riddle morava à época. Ela se senta nos degraus da frente e observa uma fotografia onde ambos aparecem, junto a outros dois bruxos, nos uniformes de Hogwarts; essa mesma foto aparecera de relance quando Riddle fazia as malas. Temos, então, o estabelecimento de uma relação que existiu entre os dois e que tentará ser melhor desenvolvida ao longo dos 53 minutos de filme.

No presente Grisha é atingida e capturada, momento no qual vemos mais um flashback, dessa vez em Hogwarts. Ela conversa com Tom sobre quadribol e, quando ele demonstra seu desinteresse pelo esporte, ela comenta que poderia ser o “lado trouxa” dele falando mais alto. Esse é um momento interessante do roteiro, porque vemos com clareza a megalomania do bruxo falar mais alto, como pudemos notar nos livros oficiais, em diversas memórias de Dumbledore. O que se torna um tanto desconcertante é a falta de sincronia na dublagem, além de que o som parece vir de uma conversa a portas fechadas quando na verdade o diálogo está acontecendo em uma das pontes do castelo, junto a diversos alunos que também conversam.

A cena desmorona quando a resposta de Grisha aos delírios de grandeza do colega é uma bajulação mal encaixada. Na verdade, a personagem é tratada como uma adoradora das habilidades de Riddle e uma apaixonada incorrigível, do começo ao fim do filme. A figura feminina é utilizada para enaltecer um lado masculino e romântico que não existe em Tom Riddle que conhecemos; ele nunca se importou com tais trivialidades. Ele mal é humano no fim da sua vida.

Capturada pelos soviéticos, ela é submetida ao Veritaserum, a poção da verdade; o início do efeito sobre a mente dela é acompanhado de efeitos visuais que tiram a clareza e a estabilidade da câmera, além de adicionar tons de verde no que pode ser uma outra dica do desfecho do filme. O interrogatório irá conectar o passado de Riddle, a busca frenética de Grisha pelo diário de Tom Riddle e a investigação da misteriosa morte de Hepzibah Smith (Gelsomina Bassetti), antiga dona da taça de Hufflepuff.

A intimidade com Riddle é revelada ao General Makarov (Alessio Dalla Costa) quando ela o chama pelo primeiro nome, apenas “Tom”, logo antes da passagem para a segunda cena em Hogwarts. Aqui a dublagem se complica mais um pouco. Até então, as vozes emprestadas estavam críveis apesar da falta de sincronia na cena mencionada; nessa cena, é óbvio que os atores não estão falando em inglês. Provavelmente o italiano foi usado para gravar com os atores, enquanto os dubladores continuaram sua tarefa em inglês, o que dá uma sensação de descontinuidade muito desconfortante para o espectador. Não há uma consistência com o que está sendo usado, estamos apenas navegando aleatoriamente pelas escolhas da direção.

Somos apresentados aos herdeiros dos fundadores de Hogwarts, as pessoas da foto, no meio de um treino na Sala Precisa. Outro momento de prepotência vai acontecer, e esse terá consequências apresentadas com tom grave: Riddle quebra o braço de Lazarus Smith (Andrea Bonfanti), herdeiro de Hufflepuff, num duelo; não obstante, ele já está usando o anel dos Gaunt, então sabemos que isso não é nada perto do assassinato do próprio pai.

As cenas do interrogatório são usadas habilidosamente para transitar entre os anos da juventude de Tom Riddle e a próxima escolhida é o motivo da investigação, o assassinato de Hepzibah.

Esse momento começa como um verdadeiro tributo à saga de livros. A cena lembra os aspectos da escrita de Rowling, desde o falso interesse galante de Riddle até o exibicionismo de Hepzibah, que leva ao melhor momento da cena: a revelação do Medalhão de Salazar Sonserina. A câmera lenta, a maneira como ele deixa a Taça de lado e a edição de som hipnotizante, sensação que é completada pelo pêndulo que é feito com o Medalhão bem na frente de Riddle, tudo isso faz você prender a respiração aguardando o ápice: a posse.

Bassetti está frívola e tola como uma colecionadora deve parecer, mas não acerta o tom de desespero que essa mesma mulher teria ao chegar perto de sua morte. Hepzibah faz um comentário levemente maldoso sobre a mãe de Tom, Mérope Gaunt, e isso desencadeia uma transformação física nele. Leves traços problemáticos surgem aqui, visto que ele nunca teve apego algum com a sua família, a não ser com o distante fundador de Hogwarts. Talvez pelo poder de ter achado sua relíquia e por não precisar mais da bruxa seu instinto assassino pode voltar ao comando, mas não por causa de sua família, como o roteiro deixa a entender.

Uma explanação sem sentido para se gabar de seus feitos começa, e em muito percebemos que é um pretexto para inserir a história de Lazarus no contexto que já conhecemos e, com isso, legitimar e dar credibilidade a essa estória. A partir de então a cena se alonga muito além do necessário e a revelação para Hepzibah acontece de forma tardia e somente após uma pequena demonstração de ofidioglossia (Tom conseguia falar a língua das cobras) – que por sinal pode ser o único momento de dublagem aceitável aqui.

A célebre frase “inimigos do herdeiro, cuidado” foi bem encaixada e trouxe uma dose de nostalgia, mas cria um buraco na trama; se Dumbledore consegue as memórias da elfa ainda antes de sua morte, em 1955, ele já saberia que se trata de Tom Riddle e nunca teríamos tido a suspeita sobre Harry em A Câmara Secreta. Tudo bem.

A cena da despedida de Tom e Grisha no último dia em Hogwarts tem o mesmo problema de dublagem, com o agravante de que Moroni não dá metade da intensidade que está presente na voz ao seu corpo, o que dá a entender que foi um trabalho feito com pouca comunicação entre os atores e seus dubladores. De uma forma geral, o que vemos entre Riddle e os herdeiros não é uma amizade. Não parece natural e não se encaixa com a motivação da bruxa em salvá-lo, mesmo com o plot twist no final.

Há ainda uma aparição digna de nota, nos últimos minutos, de um soldado russo chamado Igor, possivelmente o jovem Karkaroff antes de se tornar um Comensal da Morte. Assim, Origens do Herdeiro tem as suas falhas, mas pode representar o início de um bom projeto para explorar o passado de diversas personagens interessantes do universo de Harry Potter – dado o devido cuidado.

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