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Semana Black Mirror | USS Callister

Black Mirror tenta desvendar as fronteiras do universo: mas quando Star Trek está perto de um drama, realmente parece exagerado.

USS Callister é o primeiro episódio da quarta temporada de Black Mirror e agora tem rumores de ser um possível spin-off. A trama possui diversas referências à série clássica Star Trek, cujo nome nessa realidade é Space Fleet.

[ALERTA DE SPOILER]

Robert Daly (Jesse Plemons), um gênio da programação que é fã da série, cria um jogo multiplayer on-line e decide se inspirar em Space Fleet, chamando-o de Infinity como referência a um dos arcos da mesma. O que descobrimos é que, em sua versão de desenvolvedor off-line, ele navega com a nave principal – que aqui não é a USS Enterprise, mas sim a USS Callister – repleta de clones digitais de todas as pessoas que o irritam no trabalho.

Como todos os episódios dessa nova temporada, temos aqui uma figura feminina forte como protagonista. Nanette Cole (Cristin Milioti), que é nova na empresa e uma grande fã da programação de Daly, se nega veementemente a aceitar que está presa sob o comando de um tirânico – palavra que ela usa para descrever o seu ex-chefe numa conversa de escritório (e o provável motivo pelo qual ela saiu do trabalho anterior). Milioti está cheia de vida e representa a todos nós diante da atuação exagerada e nostálgica que Daly exige de sua tripulação da USS Callister. Ela é o fio condutor da trama, visto que todos os demais acabaram por se conformar com o poder do programador sobre a realidade virtual. É interessante como a sua “versão digital” acaba sendo muito mais palpável e relacionável do que o seu eu real, contribuindo para a consequente discussão do que é uma vida – “Stealing my pussy is a red fucking line”.

Os outros membros da tripulação são Elena Tulaska (Milanka Brooks), Nate Packer (Osy Ikhile), Kabir Dudani (Paul G. Raymond), Shana (Michaela Coel) e Walton (Jimmi Simpson). Todos eles atuam em 3 níveis: o real, o Infinity sem Daly e com Daly; e o fazem bem, como momentos diferentes e como desenvolvimentos diferentes de uma mesma pessoa, que aconteceram em separado pela força das circunstâncias.

Coel trabalha bem na sua personagem engraçada e decidida, e mesmo como coadjuvante é marcante para o espectador. Ela tem trejeitos engraçados, usando uma ironia latente; quando ela não está presente, o elenco não parece completo.

Walton tem uma dualidade nítida; o clone já não é a mesma pessoa que vemos na vida real, que usa Daly para sustentar a companhia da qual é CEO. Simpson tem de tudo: flerte, autoridade, tristeza, bajulação, pessimismo, além de ser o melhor alívio cômico do episódio.

Jesse Plemons tem uma maneira interessante de conduzir a sua personagem; podemos ter uma primeira impressão de timidez e insegurança, mas quando ele é o Comandante até mesmo a sua voz muda. Ele é cruel, implacável e autoritário. E não há dúvidas de que é a mesma pessoa, pois o roteiro nos mostra o crescimento do seu comportamento obsessivo com a “nova garota” no trabalho. Ainda assim, o que o roteiro parece entregar como motivação não é convincente nem sensato. A sensação que permanece é a de uma psicopatia, não importa o quanto Walton seja um babaca.

As transições entre realidades são diretas, com o figurino e, principalmente, as cores. A ideia futurista de tecnologia com ambientes clean – uma marca constante em Black Mirror – contrasta diretamente com o design futurista espacial colorido e expansivo. Até mesmo a edição de som traz uma sensação nostálgica, junto aos cenários desérticos, comuns em Star Trek, e à introdução de uma espécie alienígena à estória. Apesar de todas as referências, o episódio consegue manter uma atmosfera original ao nos mostrar a todo o tempo que esse set espacial é uma ilusão, com interrupções dessas sequências para manter a trama principal.

O roteiro nos guia delicadamente pelas partes técnicas, para que não fique excessivamente complicado para leigos da tecnologia. Apesar disso, existe uma ponta solta no final que não é esclarecida. Todos os momentos parecem minuciosamente calculados e um único flashback estabelece de vez a natureza de Robert Daly. É possível desenvolver as personagens mais ligadas com a trama, mas as demais acabam sendo pouco relacionáveis.

Não é por acaso que está sendo cogitada a expansão do universo de USS Callister. O primeiro episódio da temporada pode parecer apenas uma sátira, mas entrega uma tensão psicológica palpável.

Arte: Butcher Billy.
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