Séries

Semana Black Mirror | Arkangel

Arkangel é o fruto asfixiante da especulação do poder digital nas mãos de pais superprotetores.

O segundo episódio da quarta temporada de Black Mirror se constrói ao redor da insegurança familiar. Nesse, Rosemarie DeWitt interpreta Marie Sambrell, a mãe de Sara. Depois de um incidente no parque, Marie acaba obcecada pela segurança da filha, aderindo a um novo sistema, chamado Arkangel, que permite que o responsável pela criança tenha um controle total das imagens e sons reproduzidos pelo organismo da mesma.

Através do aplicativo, Marie vigia constantemente todos os passos da filha e chega até mesmo a “borrar” as imagens que ativam a adrenalina da garota. Após algum tempo, Sara começa a mostrar-se prejudicada pela censura e, com isso, sua mãe decide desativar o sistema.

Ainda mirando na representação de pais abusivos, Black Mirror continua a desenhar a linha de sua personagem com um traçado de desconfiança que se torna evidente para o telespectador. Apesar de Marie ter desligado o dispositivo, a mesma continua impulsionada a utilizá-lo, o que é afirmado durante a adolescência de Sara (Brenna Harding), quando sua mãe ativa o controle parental novamente.

A direção de Jodie Foster fortalece a conexão do roteiro com a história projetada em tela através de elementos narrativos que, ao longo do episódio, demonstram-se importantes para a desenvoltura de suas personagens. A primeira cena estabelece a base para Arkangel; logo nos primeiros minutos, Marie entra em pânico após algumas complicações em seu parto, solidificando a maternidade superprotetora que conduz o episódio até o seu final.

Além disso, a cenografia apresenta uma ambientação rascunhada entre modernidade e adolescência. Os centros tecnológicos possuem cores mais frias e esbranquiçadas, enquanto o cotidiano de Sara, ainda que, na maior parte do tempo, possua certa opacidade, também é constituído com alguns elementos vibrantes e uma atmosfera colegial.

Podemos dizer que o episódio é uma representação dicotômica dos maiores medos na relação entre pais e filhos, especialmente as que possuem insuficiência de confiança. Há uma certa trivialização no roteiro em questão, visto que os problemas abordados são típicos estereótipos acerca de adolescentes e, em algumas cenas, são responsáveis por banalizar os fatos, chegando até mesmo a reforçar o motivo de preocupações parentais. Com isso, o roteiro acaba se perdendo durante diversos momentos em generalizações construídas e se resumindo à superficialidade.

Mesmo que tente apontar o ponto da toxicidade em relacionamentos protetores entre pais e filhos, o episódio termina por se contradizer quando procura sempre razões para as preocupações de Marie, o que deixa subtendido que, talvez, os temores dessa seriam justificáveis pelos atos de sua filha.

Sendo assim, Arkangel possui uma diretora memorável e cuidadosa mas que, ainda que suceda em arcar com as falhas narrativas, não é capaz de preencher todos os deslizes do roteiro. É um episódio sufocante e realístico com uma inclinação para o óbvio.

 

 

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