Séries

Semana Black Mirror | Hang The DJ

E se aquele crush do tinder só ficasse com você o tempo que o dispositivo mandasse?

Em algum lugar do futuro, numa galáxia não tão distante, nós temos o universo criado para Black Mirror.

Baseado em vivências, experiências e suposições de como estaremos daqui a alguns anos, Black Mirror traz críticas sociais incômodas. Que dão aquela coceirinha atrás da orelha, aquela vergonha alheia em saber que os roteiristas estão completamente certos em tudo que estão dizendo. E a grande verdade é que Black Mirror nos expõe enquanto seres humanos.

O episódio Hang The DJ segue a mesma linha anteriormente vista em San Junipero e Nosedive. É um episódio sobre conexões humanas, sobre a liquidez dessas relações, e, essencialmente, sobre artificialidade.

O tal do aplicativo de namoro funciona da seguinte maneira: pessoas em idade socialmente esperadas para namorar são induzidas a usarem este aplicativo várias e várias vezes, para que tenham experiências diversas e o sistema operacional possa construir e armazenar dados sobre cada indivíduo. Por exemplo: ele armazena as reações diante de frustrações, alegrias e comportamentos em geral.

A questão toda de Hang The DJ é mostrar os relacionamentos vazios que existem apenas por aparência, ou ainda, por necessidades estritamente sexuais. Dessa maneira, somos conduzidos à história amorosa de Frank (Joe Cole) e Amy (Georgina Campbell), em seus encontros casuais em lacunas entre seus casamentos frustrados e casos de uma noite só.

É interessante observar que o primeiro contato entre os pombinhos ocorreu exatamente nesse esquema de uma noite romântica apenas. O aplicativo é quem manda; eles só obedecem. Acontece, entretanto, que rolou um sentimento desde o primeiro momento. No entanto, assim como ocorre na vida real, quando uma das partes tem medo, o relacionamento entrou em hiatus, para que pudessem experimentar o amor com outras pessoas, afinal de contas, aquela havia sido a primeira experiência amorosa dos dois envolvidos.

Infelizmente, o match deste aplicativo acontece bem aleatoriamente no início, justamente para a produção de dados. Apenas ao longo dos anos é que os gostos e comportamentos são delineados e combinados com aqueles usuários digitalmente compatíveis. Mais uma vez, como ocorre na vida real: no início de nossas vidas, nos relacionamos com pessoas totalmente diferentes (por conta do tão falado ditado “os opostos se atraem”); depois, na fase adulta, já se muda isso: procuramos os compatíveis, aqueles que mais se parecem com a gente.

Quando Frank sentiu-se forçado a se casar com uma garota de quem não gostava, também houve crítica social: muitas vezes, casamentos surgem como uma obrigação, para aparentar uma felicidade inexistente. É engraçado quando vemos que Frank em seu primeiro contato com sua futura esposa já resmungava; ele viu o tempo em seu dispositivo e logo disse não querer casar-se com a garota. Por incrível que pareça (ou não), a garota também não tinha o menor desejo de se casar com ele.

Nesse meio tempo, o casal proibido (Frank e Amy) se reencontrou na cerimônia matrimonial de amigos em comum. Houve aqueles olhares, aqueles sorrisos. Típicos de quando ainda existe amor. Na vida real, é o momento para o famoso adultério. No entanto, o então marido de Amy corre para marcar seu território, deixando claro que sua esposa não estaria “disponível”. Já a esposa de Frank não dava a mínima. Afinal de contas, era o que podemos chamar de casamento problemático, que já está “nas últimas”, se é que um dia já tenha realmente existido. Principalmente se partimos do fator óbvio de que na hora do sexo, Frank pensa e chega a chamar sua esposa pelo nome de seu verdadeiro amor. O mesmo acontece com Amy, e, pasmem!, com o marido de Amy; no caso, ele se lembra da ex-esposa, por quem ainda é apaixonado.

Tempos depois, o casal vinte se reencontra (ora, mas que surpresa do destino, não?). Dessa vez, o dispositivo havia escolhido um tempo de cinco anos. No entanto, o combinado era que nenhum dos dois olhasse. Para deixar acontecer espontaneamente. A metáfora aqui é a de deixar a coisa toda rolar sem fazer planos. Entretanto, a ansiedade em saber se ficaria apenas algumas horas ou pela eternidade com seu grande amor fez Frank quebrar o combinado, resultando no quê? Traição. Este simples ato fez o dispositivo diminuir drasticamente o tempo de cinco anos para algumas horas.

Podemos entender aqui que o grande vilão naquele momento foi a quebra da confiança que Amy tinha por Frank. Qualidades que ela abomina, e, portanto, ao fazê-lo, o cruzamento de dados dos dois terminou afastando-se muito mais do que havia sido anteriormente programado.

O término foi muito mais difícil para Frank do que para Amy. Mas não é como se ela não houvesse se aborrecido. Na verdade, depois de alguns dias, quando o dispositivo revelou a ambos que já estava para acontecer o dia destinado à união definitiva, Amy então tomou uma atitude decisiva: foi atrás de Frank e sugeriu que fugissem daquele sistema maluco, e então, só agora, nós telespectadores entendemos que aquilo tudo era uma espécie de laboratório de simulações.

Não fica claro se Amy sempre soube, mas naquele momento ela simplesmente sabia. Dessa maneira, burlando o sistema, Amy pausa a simulação e foge com Frank para fora dele. E é justamente nesse clímax que temos aquele plot twist tão gostoso que Black Mirror já está expert em fazer.

[ALERTA DE SPOILERS]

Após essa fuga, somos introduzidos a um novo universo, em que as figuras de Frank e Amy são replicadas, como hologramas, até travar, e então, blackout total. Depois disso, encontramos Frank e Amy em cantos separados de um bar, olhando um para o outro, por cima de seus smartphones. A aparência deles já é outra, e o jogo de luzes e as lentes das câmeras usadas nessa cena são completamente diferentes das utilizadas no decorrer do episódio. A impressão é de que antes havia algum filtro, algo super comum no cinema; depois, as cores ficam mais saturadas, mais parecido com o utilizado para programas de TV.

O trecho da música que deu nome ao episódio chama-se Panic, do grupo inglês The Smiths, e é neste momento que ela surge, quando Frank e Amy se entreolham. O trecho diz: “Incendeiem a discoteca. Enforquem o bendito DJ (Hang the DJ). Porque a música que eles tocam constantemente não diz nada sobre minha vida”. Dissecando o sentido metafórico, podemos entender que o DJ seria o aplicativo, ou talvez quem estivesse por trás dessa simulação. A música constante que não diz nada sobre a vida de Frank e Amy seria, na verdade, uma analogia à expressão “dançar conforme à música”. Nesse caso, o aplicativo os conduz e dita as regras de uma vida que não os pertence, que nada tem a ver com a verdadeira essência e vontade deles.

Ao fim do episódio, a conclusão óbvia é a de que havia uma simulação no aplicativo do celular daquele casal potencial, antes mesmo que eles se conhecessem; como se o encontro se iniciasse primeiramente de forma virtual, para só então partir para um contato físico, e por que não dizer “real”?

Dessa maneira, entendemos a genialidade de Charlie Brooker (criador do episódio) e Tim Van Patten (diretor); fica em aberto a possibilidade, inclusive, de nada ter acontecido ainda, ou, quem sabe, de que o mundo que pensávamos ser o virtual ser, na verdade, o real, e vice-versa. São essas teorias que fazem Hang The DJ ser tão curiosamente empolgante de assistir.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s