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Maratona OSCAR | Call Me By Your Name

Esta não é simplesmente uma história de amor. É uma história sobre descobertas e sobre como Elio e Oliver conseguem fisgar o espectador, obrigando-nos a se apaixonar por eles.

Call Me By Your Name (Me Chame Pelo Seu Nome) é um filme dirigido por Luca Guadagnino e ele assina também o roteiro junto ao italiano Walter Fasano e o norte-americano James Ivory.

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Baseado no livro de mesmo título, Call Me By Your Name foi indicado ao OSCAR nas categorias de “Melhor Roteiro Adaptado”, “Melhor Ator” (pela atuação de Timothée Chalamet), “Melhor Canção Original” e “Melhor Filme”.

Infelizmente, a indicação para Direção não foi dessa vez. O que é estranho, porque a direção é o ponto alto do filme. Não fosse por ela, Call Me By Your Name teria se tornado um drama comum, despertando a suspeita de que “já vimos isso antes”, de alguma maneira. E, na realidade, nós já vimos vários outros filmes de romance sobre jovens que se envolvem com alguém mais velho e vice-versa. Mas o que faz Call Me By Your Name se tornar diferente e tão apaixonante é a maneira como somos conduzidos quadro a quadro, as luzes, sombras, e, principalmente, a dança que os atores fazem quando interagem entre si ou entre os elementos em cena.

Um exemplo desta movimentação é a cena em que uma dança literalmente acontece. Elio (Timothée Chalamet) entra em quadro pela lateral, onde já existe algo na tela , que é, neste caso, a festa e Oliver (Armie Hammer) dançando. Então, percebemos a maneira que Elio se desloca naquele mesmo quadro até chegar ao seu objetivo, que é Marzia (Esther Garrel), e ele, inclusive, se exibe para a câmera em sua – quem sabe – dança do acasalamento.

[SPOILER]

E já que estamos falando desta cena, é interessante comentar o seguinte: embora a música indicada pela categoria “Melhor Canção Original” seja Mistery Of Love, de Sufjan Stevens, em comparação à música desta cena da dança ela termina sendo um pouco ofuscada; acontece que a cena colocada acima tornou-se emblemática, talvez pelas cores, talvez pela direção de fotografia e dos atores, ou talvez por tudo isso em conjunto.

Uma curiosidade interessante é sabermos que esta cena foi gravada no silêncio. Desta maneira, entendemos que Love My Way, do Psychodelic Furs, foi apenas a cereja deste bolo colorido que foi não somente a cena da festa, mas Call Me By Your Name por inteiro. Principalmente porque Love My Way aparece uma segunda vez, no segundo nível de aproximação que Oliver e Elio haviam se envolvido. E embora eles já estivessem próximos o bastante, eles não dançam juntos. Fica o questionamento no ar.

Ainda sobre roteiro e filmagem, há um elemento curioso: uma mosca. Ela foi um elemento aparentemente criado para o filme. Em momentos chaves, a bendita mosca aparece. Não dá pra ter certeza, pois a subjetividade de um diretor é sempre uma incógnita. Mas é bem interessante enxergar a mosca como personagem metafórico, presente nas cenas de erotismo envolvendo Elio. Talvez por ser algo visto com maus olhos, principalmente se pensarmos na mosca como a descoberta bissexual do protagonista.

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Diferente das demais histórias, em Call Me By Your Name nós temos um garoto apaixonado por um homem mais velho e fazendo o movimento de cortejá-lo; não o contrário. Na maioria das vezes, é o adulto que faz isso, quase como um assédio fetichizado pelo cinema. No entanto, Chalamet deixa bem claro em sua atuação, desde o começo, que é Elio quem toma a iniciativa. É claro que depois entendemos que Oliver havia dado sinais também, mas bem sutis. Nada que parecesse desrespeitoso ou inapropriado.

A estatueta seria muito bem-vinda à Chamalet justamente por isso; ele consegue passar muitas mensagens através de seus olhos expressivos, ou melhor, de seu semblante inteiramente expressivo. Colocá-lo para viver o personagem Elio foi uma boa escolha. Primeiro por sua aparência de adolescente, mesmo tendo 22 anos; segundo por sua capacidade de falar três línguas como se fosse nativo das três; e terceiro pela maneira como Chamalet consegue fisgar o espectador da mesma maneira que Elio fez com Oliver, obrigando-nos a se apaixonar por ele.

Um exemplo peculiar seria esta cena de um plano só, em que Elio fica a quatro minutos parado, mas nesses quatros minutos sua expressão muda várias e várias vezes. E lá pelo minuto 1:13 começamos a descobrir a presença da tão falada mosca-personagem.

Infelizmente, Call Me By Your Name tem uma concorrência acirrada na categoria “Melhor Filme”. De um lado, nós temos Dunkirk, com sua megaprodução hollywoodiana, tão estimada pela Academia de Cinema. Do outro, temos Get Out! e Shape of Water; duas produções relativamente audaciosas em questão de roteiro, direção e enredo.

É muito difícil um filme fora do circuito comercial ganhar a categoria “Melhor Filme”; e embora Call My By Your Name tenha se utilizado de uma coautoria plural para conquistar ao menos a indicação, a luta permanece difícil diante da concorrência. No ano passado, Moonlight (2017) venceu esta categoria, estando exatamente na mesma situação; trata-se de um filme sem apelo comercial, com temática inovadora, direção de cena e de fotografia impecáveis. Ainda assim, fica o questionamento do critério desta vitória: teria Moonlight ganhado pela sua excelente produção ou por sua temática social? É o mesmo caso de Call Me By Your Name.

Resultado de imagem para call me by your name OLIVER

No entanto, ainda é difícil para alguns entenderem a sutileza de uma direção para filmes slice of life¹. Aqui, o exagero não é bem-vindo. Pelo contrário! É preciso dosar cores, luzes, quadros e figurinos para que sejam inesquecíveis, mas essencialmente críveis e verossímeis. O personagem Oliver foi muito bem construído em seu visual de “garotão”, por exemplo. Com suas bermudas divertidas e meias longas, numa mistura de gringo engraçadinho e esquisito, mas, acima de tudo, inesquecível.

De um modo geral, o que podemos extrair de Call Me By Your Name é um sumo doce, suculento e com gostinho de quero mais. Existe poesia até no erotismo do filme, transformando-o num relato simples sobre o dia a dia de um menino qualquer, numa cidade qualquer, que se aventura através de um sorrateiro romance de verão.

¹Slice of Life: histórias do cotidiano
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14 respostas »

  1. Que crítica cativante! Assistir ao filme foi realmente um prazer inenarrável, em diferentes camadas. Essa modalidade, “slice of life”, como você bem ressaltou, nos convida a sentar à beira daquela piscina ou à mesa pra tomar o tão chamativo suco de “apricot”, conhecido por nós como damasco, e que parece tão refrescante e conversar animadamente com os personagens! Os detalhes da caracterização de Oliver, como você destacou, são maravilhosos, bem como a evolução dele para um potencializador libertário para as descobertas de Elliot. Interessante, como poucos associaram a mosca a um jogo da direção; fiquei pensando “será que essa mosca não é aquele pensamento persistente, abusado, que continua a zumbir em nosso juízo mesmo quando queremos espantá-la?”; talvez, até porque, parece que ela sempre aparece quando Elliot pensa em Oliver. Impressionante como você captou, em minha opinião, a essência por trás de tantos detalhes: não é uma história de amor; é uma história de descobertas, de vários tipos de descobertas, mas que invariavelmente me lembrou de nosso querido Vinícius de Moraes, no seu “Canto de Xangô”, quando ele diz: “Hoje é tempo de amor/Hoje é tempo de dor, em mim”; e isso fica tão claro quando Elliot fica ali, olhando e encarando o fogo e as cinzas da lareira, do fogo que arde no frio da estação (do amor que arde no frio da dor e da tristeza?), nessa última cena que você postou, quando aparece a mosca, a zumbir e lembrá-lo, relembrá-lo. Parabéns pela sensibilidade, pela ternura, pela complexidade de sua análise crítica dessa bela película.

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    • Oi, João, tudo bem?
      Peço desculpas pela demora em responder, mas ontem me bateu uma crise de tendinite com essa história de escrever trezentos mil críticas pra #MaratonaOSCAR (inclusive, nem consegui terminar a de hoje), e acabei respondendo os comentários de uma ou duas linhas, só. O seu merecia uma resposta mais aprofundada… Adorei a sua análise também! Sua aposta com relação à mosca é ainda melhor do que a minha hahahaha é bem por isso mesmo, o pensamento abusado, que fica enchendo nossa mente de paranoias… Com relação à cena final, do ardor e tal… É bem isso mesmo, nem tinha pensado por esse ângulo. Estou quase te chamando pra escrever comigo aqui, o que acha? 😉 Obrigada pelo carinho!
      Bjs

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      • Olá Clari! Nossa, tem que escrever as críticas com boas doses de descanso e pomada de arnica, para alívio dessa tendinite! Obrigado pelo carinho do convite, mas não conseguiria. Me faltam tantas ferramentas! Como suas análises e conhecimentos sobre a direção, a execução, o roteiro, a trilha sonora; parece-me que você estava lá no set de filmagem! E eu me propus a sempre assistir filmes do circuito de arte sem pensar, só sentindo. Todo meu pensamento foi incitado pela sua escrita, que trata do filme com leveza, coisa tão rara na análises e críticas de cinema. Mais uma vez, parabéns e obrigado por sua bela crítica. Um beijo.

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      • Verdade, eu já faço isso mesmo hahahaha Mas é que por ser maratona a gente termina exagerando… Eu adoro analisar tudo, eu já fico dando uma de sherlock holmes prestando atenção em tudo! Obg também por dar uma chance ao texto! Bjs!

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