Filmes

Maratona OSCAR | Viva – A Vida é Uma Festa

A Disney Pixar decidiu se aventurar em novos territórios e conseguiu nos encantar por completo no processo.

Viva – A Vida é Uma Festa se passa numa pequena cidade do México, sendo o segundo filme da Pixar a focar num grupo étnico específico – depois de Valente (2012), que se desenvolve entre escoceses. A família Rivera baniu a música da sua vida há gerações, o que se torna inaceitável para o jovem aspirante a músico Miguel. Ele não quer ser um fabricante de sapatos, ele quer ser um cantor profissional; tentando ao máximo participar do show de talentos no Dia dos Mortos, ele vai se meter numa confusão que o levará à própria Terra dos Mortos.

Miguel é a personagem obstinada e rebelde, que diz desaforos e quer ser levada a sério; um bom retrato de uma criança, em especial quando vemos a inocência e a sinceridade que permeiam as suas ações. Ele é sempre guiado pelo seu sonho, o que dá consistência à estória.

Dante, o cachorro de rua que o garoto praticamente adota, é um alívio cômico que foi muito bem encaixado. Ele vai além de estabelecer a boa natureza do coração de Miguel, tendo um papel ativo e único na história.

Quando conhecemos Héctor, temos uma sensação de flashback: é o companheiro de caráter duvidável e intenções egoístas que vimos em Zootopia (2016); entretanto, o desenvolvimento nos mostra que se trata de uma persona muito mais complexa do que apenas esse formato dado – seus momentos podem ser engraçados, mas também profundamente tristes. A suposta intenção egoísta é na verdade uma luta comovente para ser lembrado, e o roteiro se desenrola de uma forma que descobrimos Héctor junto a Miguel.

Abuelita é uma parte da família que merece destaque; ela tem uma traço forte de resistência à mudança, e a depender do enfoque isso pode ser engraçado ou revoltante. Isso faz com que ela não se torne repetitiva, ainda que esteja tentando passar a mesma mensagem. É uma mulher dura e marcada pela vida, mas também uma avó protetora e afetuosa. O filme tem um viés geracional muito forte, seja através do relacionamento com os mais velhos – a exemplo da bela relação desenvolvida entre a bisavó Lupita (Mamá Coco, no original) e Miguel -, seja por meio da valorização da tradição.

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Essas noções permeiam não apenas a ambientação, como também toda a trama; a cultura é muito importante, muito bem desenvolvida e encantadora, dando a Viva uma atmosfera irresistível; é notável que uma pesquisa profunda aconteceu antes da produção do filme e a apresentação é executada com minuciosidade – as memórias e a tradição são palpáveis neste universo.

A obra é também um espetáculo visual. As cores são intensas e aparecem numa pluralidade impossível – e ainda assim conseguem ser harmônicas. Os cenários passeiam pela grandiosidade, pela humildade e pela pobreza sempre com riqueza de detalhes. Diversas referências a artistas mexicanos são feitas, a mais marcante sendo Frida Kahlo e sua simbologia visual no espetáculo “Sunrise Spectacular”.

Chegamos, assim, a outro assunto central em Viva: a música. Dentre as canções escritas para o filme, Remember Me está concorrendo ao OSCAR como “Melhor Canção Original”; Un Poco Loco certamente te diverte mais, porém não tem a mesma conexão com a história que a anterior. O duo entre Miguel e Natalia Lafourcade tem a intencionalidade de demonstrar um forte vínculo emocional entre pai e filha, e por isso tem um tom nostálgico e amoroso.1

 

Há quem veja o problema na forma através da qual as figuras paternas têm sido tratadas no cinema, com destaque para o que aconteceu em Guardiões da Galáxia 2 (2017). Aqui, a gravidade do assunto é colocada na mesa, mas abandonada ao fim da jornada no melhor estilo final feliz.

Viva – A Vida é Uma Festa concorre ao prêmio de “Melhor Animação” no OSCAR 2018 , contra filmes poderosos como Com Amor, Van Gogh (veja a crítica aqui) e O Touro Ferdinando. É um forte candidato pois aborda temas novos e instigantes, ao mesmo tempo em que reforça valores familiares e dá suporte aos sonhos e à imaginação. A importância que existe em promover a valorização de valores culturais diversos, em especial nesse momento histórico, não pode ser ressaltada o suficiente.

Viva é para dar risada, torcer, se divertir, se emocionar e, sim, chorar um pequeno riacho.

1Vale muito a pena, também, ouvir as versões em espanhol e em português (“Recúerdame” e “Lembre de Mim”).
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