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Maratona OSCAR | O Touro Ferdinando

Preparem-se para chorar nesta singela fábula sobre amizade, respeito às diferenças e desconstruções de gênero.

O Touro Ferdinando é um filme dirigido pelo brasileiro Carlos Saldanha, já conhecido por sua estreia na franquia em A Era do Gelo (2002 – 2016) e Rio (2011 – 2014). Baseado no livro Ferdinando, o Touro (1938), Saldanha traz uma abordagem ainda mais doce, destacando o pacifismo tão necessário nos dias de hoje quanto na época em que o livro foi lançado, através do ambiente colorido e iluminado em cada cena.

Antes de tudo, é mais do que necessário ressaltar a injustiça da Academia em colocar uma categoria de “Melhor Animação”, desconsiderando o filme de Animação sendo um filme como outro qualquer. Nesse gênero também existe um trabalho sério e compromissado de figurino, direção de arte, direção de fotografia, roteiro, etc e tal.

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Se pensarmos dessa maneira, filmes como O Touro Ferdinando poderiam concorrer com live actions e inclusive ganhar! Mas, por outro lado, permanecendo em sua insignificante e única categoria de “Melhor Animação”, chega a ser uma covardia compará-lo com Loving Vincent (2017), por exemplo, que foi um longa-metragem de stop motion pintado a óleo.

Dessa maneira, podemos perceber que uma animação pode ter seu ponto alto na abordagem gráfica, mas isso não significa que ele seja “o melhor filme”, já que podem existir diversas falhas nos demais setores de produção.

O Touro Ferdinando, pelo contrário, apesar de utilizar uma abordagem gráfica já clichê, utilizada por quase todas as animações recentes – incluindo seus concorrentes, Coco (2017) e O Poderoso Chefinho (2017) – , tenta investir num roteiro bem conduzido, tornando-se um filme instigante e contagiante. É claro que o mérito do enredo é de Munro Leaf, autor do livro que inspirou o filme, mas é imprescindível comentar o dinamismo entre as cenas, seguindo um ritmo que foge à monotonia e traz aquela sensação de roer as unhas de tanto nervoso e ansiedade.

O fator mais destacável em O Touro Ferdinando é a empatia pelo protagonista. Seja talvez por seu semblante sereno e carinhoso, ou algo além disso: a percepção de que Ferdinando é tudo o que mais precisamos no momento; ele personifica a paz, a gentileza, a pureza, o amor. E, mais do que isso: Ferdinando mostra, sem esforço algum, a necessidade que nós temos de respeitar as diferenças e, principalmente, perdoar.

Da mesma maneira que tanto se discute os monstros metafóricos de Guillermo Del Touro – como o também indicado ao OSCAR, A Forma Da Água – , temos aqui a mesma situação com Ferdinando. Por causa dele, e de sua história, podemos enxergar os humanos como os verdadeiros predadores, que ferem e matam por prazer, não por sobrevivência.

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A figura do El Primero, por exemplo, já diz tudo: ele mostra o quão mesquinho o ser humano pode se tornar, transformando uma luta com um animal em espetáculo quase circense. E, já que estamos nesse assunto, é essencial comentar a militância vegetariana bem discreta, mas ainda presente em O Touro Ferdinando.

Podemos ter esta confirmação quando um dos touros diz: “Nós temos duas opções. Ou vamos para as Touradas, ou vamos para o abatedouro”. Então, Ferdinando traz suas sábias palavras: “As Touradas são outros tipos de abatedouro”.

Logo após, temos uma sequência de cenas envolvendo o resgate de dois touros que haviam sido preparados para o abatedouro. Esta sequência de cenas mostra a qualquer leigo do assunto como é torturante e sofrido todo o processo de tratamento da carne vermelha, desde o abate até o envio para os compradores.

Sendo um filme infantil, entretanto, a mensagem é deixada bem nas entrelinhas, para não assustar muito.

As cores e a trilha sonora ajudaram consideravelmente nesta construção de um ambiente sereno e, na medida do possível, seguro. Mesmo nos momentos de tensão, havia uma espécie de segurança e conforto, como se soubéssemos que, no fim das contas, tudo ficaria bem. Que as flores de Ferdinando encheriam o cinema com a fragrância inocente dos discursos de Saldanha em cada quadro, transformando, quem sabe, os tantos El’s Primeros que nós temos no mundo.

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