Filmes

Crítica | A Livraria

Um tesouro de delicadezas e encanto, A Livraria te conduz por temas de uma variedade tal, que só poderia se ver nesse lugar.

O filme espanhol, em coprodução com Reino Unido e Alemanha, é uma adaptação do livro homônimo de Penelope Fitzgerald, que acompanha a luta de uma mulher no fim dos anos 1950 para abrir uma livraria numa pequena cidade do Reino Unido.

Florence Green (Emily Mortimer) está em processo de luto pelo seu marido quando acaba morando no distrito de Harborough, onde aluga uma velha casa, a Old House, e decide transformá-la na primeira livraria da cidade. Seus planos despertam a cobiça de uma socialite local, Violet Gamart (Patricia Clarkson), que fará de tudo para desmoralizar sua loja nessa cidade estacionada no medíocre e repleta de fofoqueiros. Ainda assim, ela encontra apoio em dois aliados improváveis.

Apesar da aparente semelhança com o filme Chocolate (2000), também baseado num romance, o cerne do problema que tais estabelecimentos representam é fundamentalmente diferente. O filme de Lasse Hallström trabalha com a inquietação da mudança no estilo de vida de um grupo, que é o que gera uma reação de embate ao novo senso de liberdade que Vianne (Juliette Binoche) propõe. Aqui, a livraria de Florence não é vista em momento algum como uma afronta ao que é comum; são as relações de poder que governam a luta contra seu empreendimento. É impensável que ela decida o que será feito com a velha Old House – mesmo que ninguém se interessasse nele antes dela aparecer – agora que a poderosa Violet Gamart decidiu transformá-lo num Centro de Artes.

Emily Mortimer é perfeita para a sua personagem. Sua atuação funciona até espasmos musculares, o que é suficiente para dizer que é expressiva e única.  Ela é forte, cheia de coragem e completamente alheia às expectativas sociais do que é ser uma mulher. Nesse sentido, o filme traz uma militância feminista honesta. Florence é uma viúva buscando se tornar empresária e gerir seu próprio negócio, além de não ter ou desejar ter filhos, o que não a impede de gostar de crianças, como vemos sua relação com Christine (Honor Kneafsey), que é uma garota esperta e tão decidida para sua idade que nos arranca vários sorrisos.

O envolvimento mais cativante do filme se dá entre Florence e Edmund Brundish (Bill Nighy), um solitário latifundiário que não sai de sua casa há anos e mantém um hábito vicioso de leitura. Quando descobre a abertura de Old House Bookshop, ele pede a ela que o mande regularmente novos livros. As correspondências e a maneira como elas são inseridas na narrativa trazem o maior interesse, principalmente por colocar em primeiro plano os livros que formaram a escrita rebuscada de Brundish.

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Apesar do “quase romance” entre eles não ter sido desenvolvido a ponto de nos deixar com o coração acelerado, a relação é de tal forma simples e orgânica que acreditamos que existe, de fato, algo mais.

 

Adaptada e dirigida por Isabel Coixet, a obra é suave, encantadora e delicada. O comprometimento de Florence com seus livros é reforçado em diversas sequências de pura observação do processo imersivo que é ser um leitor. Além disso, a voz da narradora do livro não foi apagada, e ela aparece em momentos contados para nos permitir entrar na introspecção da personagem.

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A fotografia de Jean-Claude Larrieu é uma obra de arte à parte, com uma sensibilidade impressionante que te deixa suspirando na sala de cinema. O movimento e a mudança são presentes de forma fluida, e as cores estão sempre de maneira harmoniosa com o tom doce do filme.

A Livraria traz, de forma muito bonita, um retrato da relação entre o cinema e a literatura, que sempre foi profunda e instigante. Mais do que isso, ele atenta para o comportamento hipócrita da sociedade, que não vê obstáculos para cumprir suas agendas mesquinhas.

[ALERTA DE SPOILER]

Rodrigo Fonseca, Presidente da ACCRJ (Associação de Críticos de Cinema do Rio de Janeiro), presente na pré-estreia do Reserva Cultural de Niterói, atentou durante o debate para a importância de uma das sequências finais. A difamação de uma boa pessoa (“Um bom homem morreu”), que acaba de morrer, por uma sociedade hipócrita que nega sua militância política, não poderia ser mais real, ou mais conforme com a nossa realidade. É uma pena que possamos fazer esse paralelo, mas ele nos serve de aviso e de resistência. Marielle presente.

 

A Livraria estreia dia 22/03 nos cinemas de todo o Brasil.

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