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Coluna | Fobia e medo na perspectiva de It

A atuação de Bill Skarsgard em It (2017) teve uma magnitude de excelência; no entanto, a força motriz do terror dessa adaptação cinematográfica não foi o palhaço Pennywise, e sim os medos internos e paralisantes das próprias crianças.


It, a Coisa de Stephen King já contava com uma adaptação de 1990, mas o fracasso foi a definição daquela produção, fazendo com que obra literária, considerada por muitos como a bíblia do terror, virasse o segundo maior fiasco dentro das obras de King adaptadas para a sétima arte.
Em 2017, 27 anos depois, com direção de Andy Muschietti, responsável pela direção de Mama (2013), e com roteiro escrito por Chase Palmer, Cary Fukunaga e Gary Dauberman, It, a Coisa foi uma das melhores produções do ano, mostrando, com excelência, que dá sim para fazer obras cinematográficas assustadoras que vão além do excesso de recursos gráficos e sonoros utilizados para dar medo.
Apesar de Stephen King ter revelado que Pennywise foi inspirado em um serial killer – John Wayne Gacy¹, mais conhecido como “O Palhaço Assassino” – o palhaço da literatura e do cinema, diferente desse que serviu de inspiração para a sua criação, não era o real protagonista do medo causado nas crianças, e sim os próprios medos destas. O importante em It não é o Pennywise em si, e sim a dinâmica do medo e da fobia.
Fobias são vistas como estados mentais e físicos que aparecem quando a ansiedade sentida é excessiva em relação a determinada experiência ou exposição. Direcionando esse olhar para dentro do filme, quando as crianças são expostas à frente da Coisa, as fobias mais internas se externalizam, fazendo com que a ansiedade se torne excessiva ao ponto de paralisá-las dentro de seus próprios pesadelos. Ao ficarem cara a cara com o palhaço, a figura dele para de ser a do assassino de pequeninos e passa a ser a representação interna dos medos reais, ou seja, não é o Pennywise que causa pavor nas crianças, são as próprias crianças que causam medo nelas mesmas.
Utilizam-se medos reais, como, por exemplo, a violência doméstica sofrida por Bervely Mash (Sophia Lillis) e o racismo sofrido por Michael Hanlon (Chosen Jacobs); assim, fica evidente que os medos adquiridos na dinâmica de uma sociedade machista, patriarcal e racista são tão assustadores – ou até mais – quanto os espíritos, monstros e bruxas protagonistas de inúmeros filmes de terror.
O medo é considerado como uma resposta para situações de perigo, seja este físico ou emocional; se não sentíssemos medo, não conseguiríamos evitar ameaças, ou seja, é uma reação de proteção. Em It, conseguimos ver as representações do medo por duas vias cruciais: o palhaço Pennywise e a externalização dos medos das crianças. Aquele, por ser uma figura assassina, representa um dos perigos iminentes. No entanto, quando ele se materializa nas aversões internas mais paralisantes dos pequenos heróis, ele continua sendo o perigo em relação a vida destes, porém a sua força de perigo real é reduzida em favor dos estados mentais da fobia presentes naquele momento. Ele continua sendo a figura assassina, o perigo real capaz de atentar contra a vida dessas crianças; no entanto, os medos do Losers Club estão tão intensos e fortalecidos naquele devido momento que o perigo emocional se sobrepõe ao perigo físico.
It, a Coisa foi uma das melhores adaptações das obras de Stephen King, ficando atrás apenas de O Iluminado (1980). E, além de toda a sua força dentro das produções do ano passado, veio mostrar que, mesmo se preocupando com fatores estéticos, como a fotografia, isso não diminui o caráter assustador que banha o filme do início ao fim.

¹ John Wayne Gayce foi um serial killer da década de 70, dos Estados Unidos, responsável pela morte de 29 garotos.
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