Filmes

Crítica | 7 Dias em Entebbe

Parece que José Padilha não consegue evitar temas controversos.

7 Dias em Entebbe é baseado na história real do sequestro de um avião da Air France, que fazia o percurso de Tel Aviv a Paris, em 1976. Nessa época, tensões entre o recém criado Estado de Israel e a Frente Popular para Libertação da Palestina, que angariava simpatia de diversos movimentos de esquerda no cenário da Guerra Fria, fizeram com que diversos sequestros de aviões acontecessem como manobra política, especialmente para libertação de prisioneiros.

É assim que Brigitte Kuhlmann (Rosamund Pike) e Böse (Daniel Brühl), dois alemães vindos da porção oriental, administrada pela União Soviética, acabam em meio ao sequestro. O foco e a profundidade dados aos dois é maior do que aos palestinos envolvidos, mas o diretor José Padilha busca mostrar que o lado humano desses últimos envolvidos existe, e que situações extremas são necessárias para levar pessoas a se tornarem terroristas, o que é bem recebido.

Os alemães envolvidos, por outro lado, possuem motivações menos palpáveis; ideologia é o motor principal da sua filiação e isso se torna visível em seus discursos repletos de frases prontas de efeito. A sombra do passado nazista é intensa, principalmente com o enfoque que é dado aos passageiros judeus após o sequestro. Existe uma necessidade de reafirmação ideológica contrária ao nazismo (não, o nazismo não foi de esquerda) e uma culpa pungente que a partir de certo momento move suas ações.

Pike, conhecida pela sua atuação no fantástico Garota Exemplar, de 2014, encarna uma mulher profundamente perturbada, precisando reafirmar a todo momento sua posição de poder, que perante a sociedade não condiz com seu gênero. Ela consegue estabelecer essas bases, mas não torna Brigitte uma personagem relacionável, na medida em que ela aparece de forma muito unidimensional.

Böse tem mais profundidade, nesse sentido. Ele sofre a todo momento um conflito interno que não o permite enxergar o abismo que separa a sua teoria do mundo real, e do que acontece quando começa o jogo de poder na política internacional. Brühl protagoniza uma cena particularmente tocante com uma das reféns, que te deixa em silêncio absoluto no cinema.

Ao mesmo tempo em que acompanhamos o primeiro núcleo, outros 2 são desenvolvidos; primeiro, um soldado das forças especiais israelenses e sua relação com sua namorada, dançarina numa companhia que está prestes a apresentar um espetáculo; segundo, o Primeiro-Ministro israelense e seu embate político com o Ministro da Defesa pelo melhor desfecho para a situação.

Ben Schnetzer interpreta Zeev Hirsch, num arco mal desenvolvido, que não nos permite sequer identificar seus laços de parentesco – com o qual, especificamente, contracena do início ao fim. A ideia de um relacionamento complicado pelo serviço também é menos que original.

Dito isso, o encaixe da dança e da performance com o filme é quase orgânica, permitindo uma abertura e uma sequência final de tirar o fôlego, impressionantemente bem construídas. A trilha sonora funciona não somente nesses momentos, dando um ritmo próprio ao filme e reconhecendo os estilos musicais próprios do contexto.

Um último aspecto que merece destaque é a atuação fria de Eddie Marsan como o Ministro Shimon Peres, um homem de inegável realismo que acredita na efetividade da ação militar e recusa o idealismo do Primeiro Ministro Yitzhak Rabin (Lior Ashkenazi), figura histórica que prezava pela paz, pagando por isso com a vida em 1995.

José Padilha tenta construir uma obra de duplo viés, que mostre a face humana, além da cruel, que existe por trás de ações terroristas, e talvez por isso tenha ficado muito em cima do muro. Ele não critica nem exalta, nem chega a um meio termo. Boas sequências são feitas com o intuito citado, mas o filme não quebrou barreiras com a sua narrativa.

7 Dias em Entebbe é um drama político instigante e cheio de facetas históricas palpáveis, que inova com a abordagem artística e o paralelo entre a dança e a ação militar, além de discutir com força o papel dos idealismos nas tomadas de decisões em quaisquer instâncias de um mundo dividido, seja pelo conflito religioso-territorial ou pela bipolaridade da Guerra Fria. Abre uma discussão pertinente, que poderia ser ampliada, mas que serve o suficiente ao seu propósito.

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