Séries

13 Reasons Why e como as recomendações da OMS foram ignoradas

Além da banalização do suicídio presente na narrativa, a produção da Netflix ignorou completamente a cartilha da Organização Mundial da Saúde sobre como o tema proposto deve ser abordado pela mídia.

A questão do suicídio necessita ser discutida por todos os campos sociais, pois é uma patologia que assombra silenciosamente boa parte do mundo. A OMS, preocupada com o aumento no número de casos nos últimos anos, percebe a necessidade de dar um foco maior à questão e, em setembro de 2016, divulga o primeiro ‘Setembro Amarelo’ – a campanha em relação à prevenção do suicídio.

No ano de 2007, foi lançado o livro 13 Reasons Why?, do autor Jay Asher. A obra de ficção americana expõe os motivos que levaram Hannah Baker a cometer suicídio; a estudante narra, através de fitas gravadas, os 13 motivos que a levaram a isto. Esse livro de Asher foi adaptado pelo serviço de streaming Netflix, em 2017.

O roteiro de Brian Yorkey, Diana Son e Elizabeth Benjamin traça uma narrativa extremamente enraizada em abalo e afeto emocional, criando, assim, toda uma ambientação que caminha para a comoção e pena. Questões como essas ajudam no detrimento da importância de se falar sobre, porque, ao tratar-se de questões patológicas como a supracitada, é necessária a criação de consciência crítica, ou melhor dizendo, como o meio social poderia ajudar a combater as mazelas psicológicas e emocionais decorrentes. Já que grande parte da narrativa acontece na escola, o ideal seria se os roteiristas tivessem abordado questões como: o que a escola enquanto escola poderia fazer em casos de suicídio? O que os colegas de classe enquanto colegas de classe podem fazer? O que os professores enquanto professores podem fazer?

Há sim a necessidade de falar, explanar sobre; porém, quando o espaço de fala está totalizado na comoção extrema, como acontece na produção, uma reflexão crítica e consciente não é criada, tornando o discurso inválido e negativo.

A cena onde Hannah Baker (Katherine Langford) comete o suicídio foge totalmente das recomendações da Organização Mundial da Saúde; de acordo com a cartilha Prevenção ao Suicídio – Manual dirigido a profissionais das equipes de saúde mental, nunca deve-se mostrar como se realizar um suicídio eficaz. Além disso, a narrativa abordou a temática como sendo um fenômeno sem explicação; no entanto, a OMS aponta a patologia como sendo fruto da soma de fatores e que se diferem para cada indivíduo.

Assim que a série produzida por Selena Gomez apareceu no catálogo da empresa de streaming, foi comparada com uma produção britânica lançada há cinco anos. My Mad Fat Diary (2013) também tem como foco o suicídio; no entanto, diferente de Os 13 Porquês, a narrativa busca a criação de um ambiente reflexivo, com consciência participativa pela prevenção ao problema. O tema é retratado sem banalização, sem o uso da ferramenta da comoção como arma para ganhar dinheiro.

Por mais que as duas produções sejam diferentes e tenham sido produzidas com objetivos diferentes, principalmente ao analisar-se quem está por de trás de cada história, é necessário entender que, ao fazer essa comparação – ao menos na forma como a patologia foi retratada em cada uma -, são mostradas as formas negativas ou positivas de falar sobre o suicídio.

E em como 13 Reasons Why não ajuda a manter um debate positivo e reflexivo e, no final das contas, não há o espaço para a construção de diálogos e estratégias no combate a uma das mazelas do século XXI.

¹intitulado no Brasil como ‘Os 13 Porquês.

Anúncios

2 respostas »

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s