Séries

Crítica | Cara Gente Branca – 2ª Temporada

Cara Gente Cinéfila,

A segunda temporada do programa de rádio mais requisitado da Winchester nos trouxe um pouco mais do mesmo, com a significativa diferença de nos fazer enxergar tantas verdades ocultas por detrás de seus personagens secundários.

Desde o primeiro episódio, o que nós temos é um pouco mais do mesmo. Do mesmo padrão de capítulos focados em personagens, a mesma monotonia, a mesma paleta de cores mornas, a mesma (mesmíssima) história, apenas continuada; tanto foi assim que a Netflix disponibilizou um vídeo resumo, para que entendêssemos o que aconteceu anteriormente, já que se trata estritamente de uma continuação, correto?

Errado.

Embora Cara Gente Branca pareça, a princípio, resumir-se à uma continuação da temporada anterior, temos muito além disso; agora, adentramos mais fundo nos sentimentos de Sam, conhecendo sua família e anseios, de tal forma, que ela se deixa desmoronar em sua fortaleza que tanto lutou para que permanecesse erguida, poupando a si mesma de uma imagem de fraqueza.

Nesta temporada, a série explorou não somente a protagonista, mas alguns outros personagens que na temporada anterior tiveram uma aparição rasa; desta vez, conhecê-los se tornou essencial para o entendimento da trama desde o início, trazendo flashbacks, lembranças, alucinações e projeções. É interessante perceber o uso, nesses momentos, de uma nova paleta de cores. Se antes a série se limitava ao morno, agora ela já passeia pela sobriedade marrom ao mostrar o passado dos fundadores de Winchester,  pelos tons azuis para cenas irreais, deturpadas, provenientes do inconsciente; para as cenas do presente real, o já mencionado tom morno, café-com-leite. Talvez, uma nova versão do “preto-no-branco”, muito utilizado quando se quer falar em verdade, franqueza, e, principalmente, jornalismo.

E já que entramos nesse assunto, é importante comentar os planos inclinados, sempre presente em filmes sobre jornalismo; um exemplo recente deste uso é o filme The Post (2017), que explorou nitidamente o plano inclinado e os movimentos de câmera, partindo deste mesmo princípio.

Talvez toda essa abordagem monocromática seja para mostrar o anti-heroísmo dos personagens que buscam incessantemente pela verdade; para mostrar os dois lados da moeda; para deixar claro a maldade presente até mesmo nos que fazem parte de minorias. O hater de Sam, por exemplo, faz parte de duas minorias: ele é latino e gay, mas, ao mesmo tempo, racista. Como isso é possível? Bem, meus caros cinéfilos, isso é o que mais acontece no nosso mundo. Pessoas se limitando aos seus próprios grupos e ignorando os grupos alheios, ainda que tenham em comum o fato de serem minorias.

Outra abordagem interessante é trazer discussões sobre hoteps¹, uso de drogas, aborto, e sobre o papel social de brancos e negros nos Estados Unidos. Na série, temos uma crítica discreta na figura de Troy, o filho do reitor. Troy foi criado como “branco”, ou melhor, como um privilegiado. Rico, de boa família, boa educação, em local de poder. No entanto, justamente por este ser um lugar normalmente de “brancos”, sua experiência com pessoas de sua cor foi quase nula na faculdade. Por este motivo, desesperado por atenção, Troy tenta se sentir parte da Winchester, mas, da mesma maneira que a etnia de Sam é questionada (por ser mestiça), também o é a de Troy, por se comportar e ter sua vivência como “branco”.

[ALERTA DE SPOILER]

Mas se vamos falar de carga dramática, nada descreveria melhor isto do que os episódios 8 e 9, onde a verdadeira essência do conflito apareceu. Depois de longos episódios descritivos, finalmente temos aquele apelo emocional que gruda qualquer espectador na tela. É neste momento que assuntos inacabados – desde à primeira temporada – são resolvidos, em confronto, como o debate de Sam e Gabe, a morte do pai de Sam e uso do famoso deus ex machina², para a abertura do gancho para uma temporada seguinte.

Estes assuntos deixados para o final talvez sejam metáforas para os sentimentos conflituosos que Sam tem com sua parte “branca”; resolver-se com seu namorado branco significou a resolução de sua autoaceitação, e a morte de seu pai branco, quem sabe, um chamado para que sua parte “negra” volte a brilhar, que sua “voz” volte à luta, como diria Troy com relação à si mesmo.

O que podemos tirar de Cara Gente Branca é simples: trata-se de uma série aberta, sem segredos, que procura perseguir todos os personagens em seus anseios mais profundos, dissecá-los, estudá-los, para então nos mostrar, como se dissesse… “Ei, há sempre dois lados numa história”.

¹ Hoteps são grupos afrocentristas. Negros norte-americanos com discursos extremistas de pureza racial africana, especialmente egípcia. O termo significa “Estar em paz”, o que chega a ser irônico.
² Deus ex machina é uma estratégia narrativa para solucionar problemas inacabados no final da trama.
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