Críticas

Crítica | Atlanta – 2ª Temporada

Em uma fantástica segunda temporada, Atlanta se supera, chegando a níveis inacreditáveis de qualidade, seja pela sua criatividade, experimentalismo, equilíbrio, inteligência, relevância social ou pela união perfeita do humor e do drama.

1_N2zBJ4dKAarR1VM0gsK6yA

A segunda temporada de Atlanta (chamada também de Atlanta: Robbin’ Season) continua seguindo os passos de Earnest “Earn” Marks (Donald Glover) em sua jornada para tentar ser o agente do seu primo e rapper Paper Boi (Brian Tyree Henry), administrando o que ele acha melhor para a carreira de ambos. Enquanto isso, Earn tenta lidar com a mãe do seu filho e melhor amiga Vanessa (Zazie Beetz, ótima) e as loucuras do seu amigo e braço–direito Darius (Lakeith Stanfield, excelente).

Criada e estrelada por Donald Glover (que também dirige e escreve vários episódios da série, junto, principalmente, dos seus maiores parceiros: o habitual diretor Hiro Murai e o seu irmão mais novo e roteirista Stephen Glover), assim como os trabalhos musicais do mesmo – como o tão comentado e recente clipe This Is America (outra colaboração sua com o diretor Hiro Murai) – Atlanta usa o seu senso exato do equilíbrio entre o humor de vários estilos e o drama existencial pensado, o experimentalismo, referências, a música e toques visuais.

Esse elementos permitem discutir e fazer comentários sociais diretos, que muitas vezes parecem um soco no estômago e vão a diversas áreas. Comentários sobre não apenas os bastidores do cenário rapper, mas também de como é ser negro, o seu cotidiano, como se sente em uma sociedade racista e o que isso causa a essas pessoas. Atlanta faz isso de uma forma brilhante e única, aproveitando para falar também da fragilidade humana nos já citados dilemas do negro na sociedade, dilemas da mulher negra, traumas e medos históricos que todo negro enfrenta, o racismo, a busca pra ser bem–sucedido, cenários artísticos, a fama, fãs e o vazio desolador que está dentro de todos nós e do mundo, tudo de um jeito dramático, verdadeiro e engraçado.

O equilíbrio é a palavra. Equilíbrio que faz com que a segunda temporada abrace com ainda mais força e de vez todo o seu lado experimentalista, que já estava presente na primeira, em um nível muito maior, mais interessante e mais profundo. A série sucede também ao conseguir, mesmo com os seus toques de surrealismo, fazer com que, do começo ao fim da temporada, ela tenha uma trama narrativa central que se fecha e faz sentido durante ela toda: a parceria de Earn com Paper Boi.

É bom pensar em Atlanta como um filho negro de Seinfeld, pela estrutura da dinâmica dos personagens, incluindo o número de personagens principais, pela sua comédia e o jeito bem–humorado como as duas obras tratam o cotidiano; de Twin Peaks, pelo seu experimentalismo constante e surrealismo; e de The Wire, pela propriedade e verdade que a série faz nos seus comentários, apesar da abordagem não ter o naturalismo de The Wire e sim explorar com um tom propositadamente exagerado, que funciona muito bem.

Mesmo com todas essas referências, Atlanta é algo único. Por ser escrita com totalidade por roteiristas homens e mulheres negros e negras, é a série que talvez melhor retrate os negros e negras/pretos e pretas e os seus conflitos do dia, retratando com exatidão o que é ser negro/preto. Ela, de forma complexa e chocantemente real, mostra aspectos do cotidiano tão complexos que só quem tem propriedade para falar do assunto realmente escreveria. E o mais impressionante é que a série faz isso sem ser um retrato sem humor ou autoindulgente; pelo contrário: se, por um lado, ela choca pela verdade das suas críticas e pelos momentos mais dramáticos, por outro ela consegue arrancar risadas e fazer com que a sua mensagem seja evidente sem mastigar ela.

As mensagens são muito bem colocadas narrativamente, até mesmo por toda direção e técnica da série, que consegue exaltar o papel da pessoa negra, retratar os seus dilemas e denunciar uma sociedade racista, além de explorar outros temas dentro disso ou que passeiam por isso sem nunca parecer simplória ou óbvia. Se tem uma cosia que Atlanta não é, essa coisa é óbvia.

A complexidade na sua critica é impressionante. Muitas vezes, você se vê rindo com uma delas e o quão longe vai a criatividade da série, ao mesmo tempo em que está chocado com a mensagem que ela contém e, momentos depois, se vê emocionado com o drama pesado que atinge os personagens. É uma montanha russa mais do que prazerosa. Montanha russa, inclusive, é um bom jeito de descrever o estado emocional das personagens principais nessa segunda temporada, já que todas se encontram num momento em que são perseguidas pelo seus traumas enquanto tentam melhorar e seguir em frente.

Essa segunda temporada equilibra as suas personagens entre momentos em que as separa em tramas especificas ou então consegue juntar todas ou algumas delas durante alguns momentos. Assim, temos um Earn perdido em suas constantes jornadas de azar e desventuras, tentando se encontrar tanto profissionalmente, pra se provar, quanto como ser humano, e que muitas vezes é visto mais pela perspectiva de outras personagens e está ausente durante vários episódios da segunda parte da temporada; temos um Pepper Boi lidando com a sua depressão profunda, suas perdas e conflitos existenciais, como ser humano e artista; temos um Darius abraçando o absurdo vital do seu personagem em suas loucas jornadas; e temos Van lutando para ser vista como ela mesma, como pessoa e não “a mãe” ou “a namorada” de alguém, querendo saciar essa ambição e acabar com as suas frustrações, sem sucesso, ao ponto de se decepcionar com o mundo.

Aqui, a série se supera de forma impressionante, ao lidar com a nova narrativa. A temporada se dá a liberdade de se experimentar e ter criatividade, investindo em estilos e gêneros diferentes entre os episódios de uma forma arrebatadora, surpreendentemente versátil e criativa.

Podemos citar o – talvez – melhor episódio da temporada, “Teddy Peakins”, um terror simplesmente genial, assustador e magnífico no qual Darius tem um estranho encontro com o dono de uma mansão, o tal Teddy Peakins. Essa personagem é interpretada pelo próprio Donald Glover, no seu grande momento como ator na série, com uma maquiagem branca no rosto em uma clara alusão a Michael Jackson e como uma critica ao blackface. A completa aleatoriedade da loucura total de Darius se choca com o pavor e medo constante em um episódio que, assim como Corra! (2017), usa o terror para fazer uma série de comentários sociais e críticas em um clima assustador e surrealista, com toques de humor que remetem a David Lynch e Hitchcock, principalmente em Psicose (1960). O terror nesse episódio é tão bem construído que esquecemos que estamos assistindo a uma comédia, pela forma com que a direção certeira de Hiro Murai consegue criar um clima de tensão e medo constante, tendo risos envolvidos que chegam ao completo desconforto, por não saber até onde vão aquelas situações.

A construção de tensão também é vital na direção de Hiro no emocionante “Woods”, que já muda de gênero, para um desolador estudo de personagem que explora a fundo a depressão de Peper Boi e as suas causas. Ele enfrenta seus piores demônios, além de lidar com coisas como a fama a qualquer preço, o lado mais sombrio do ser fã ou como a fama faz as pessoas invisíveis, tornando esse episódio um exemplo do quanto Atlanta pode ser poderosa. Ajuda também a fotografia, que reflete na tela, em seu ambiente, o mesmo estado desolador em que Peper Boi se encontra, além da interpretação fantástica do sempre ótimo Brian Tree Henry.

Pepper Boi também é analisado a fundo em “Barbershop” um episódio que se refere de uma maneira muito inteligente ao papel do artista na atualidade, como ele é visto e seus conflitos internos – tudo isso temas totalmente centrais da série e da temporada -, em um subtexto que inicialmente lembra filmes como Depois de Horas (1985), de Martin Scorsese.

Temos ainda “FUBU” um perfeito coming of age que funciona para analisar as origens da relação de Pepper Boi e Earn, assim como da dinâmica complexa entre eles. Esse é também um episodio responsável por um dos retratos mais realistas e certeiros de bullying, suicídio e da adolescência (muito mais que a maioria das séries teens que tentam abordar isso por aí), sendo composto inteiramente de flashbacks. A versatilidade e criatividade em suas experimentações visuais, narrativas e de roteiro fazem as críticas e comentários sociais completamente relevantes que a série faz ainda mais fortes e inteligentes.

Atlanta não é uma série sobre os bastidores de rappers ou sobre dois primos tentando fazer sucesso na indústria do rap; ela não é uma Entourage, ela é sobre pessoas perseguidas por traumas e pelos seus próprios defeitos enquanto têm que lidar com uma sociedade historicamente injusta e… maluca. Tristemente maluca. E, em Atlanta, é muitas vezes dessa tristeza tão absurda que vem o humor. Por ser tão absurda. É uma mistura curiosa e que funciona muito bem.

A parceria de Earn e Pepper Boi é o fio condutor e a trama central numa série que usa o humor para falar da cultura negra, do racismo, de traumas e de pessoas cheias de defeitos, mas que tentam sempre melhorar e seguir em frente. É do cotidiano dessas pessoas e o que elas tem que enfrentar nele que Atlanta quer falar. Ela quer usar tudo isso pra poder criticar como as redes sociais refletem uma imagem falsa das nossas vidas e impulsiona atitudes mentirosas de nós mesmos, como Van vivencia em “Champagne Papi”, e vários outras temas de um jeito real, impecável, verdadeiro e com propriedade, mas também com inteligência. Ela quer te fazer rir por ter um humor tão criativo, ao mesmo tempo em que você chora por se envolver com aquelas personagens e saber que muito do que a série fala é real. Ela não tem vergonha nenhuma de deixar isso claro e explicitar pelo exagero, que domina tão bem, no seu humor e nos socos no estômago que dá muitas vezes.

Mais que a primeira temporada, essa é uma temporada extremamente sombria e que toca fundo na fragilidade humana, que está por trás de todos os personagens da série, mas que consegue fazer isso com um equilíbrio perfeito de drama e comédia. Ela usa tudo isso a favor do humor, e o humor a favor de disso tudo. E, por isso, Atlanta é tão excepcional. Se ela já te fizesse apenas rir, como ela faz, ela já seria uma grande série, mas ela quer mais. Ela quer provar que uma obra no audiovisual não precisa ter limites ou ter medo de experimentar e nem precisa aceitar os rótulos que as pessoas dão. Você pode ficar triste, chocado, assustado, emocionado, pensativo e perturbado com uma comédia, que pode ser ao mesmo incrivelmente surrealista e incrivelmente real, incrivelmente triste e engraçada.

Nós passamos por diversos estilos e gêneros na temporada, mas, ao final, vemos o fio condutor chegando a uma resolução na relação central da série, que é a de Earn e de Pepper Boi. É o equilíbrio perfeito que mostra como uma narrativa não tradicional pode ser poderosa. A experimentação em Atlanta não é apenas bem equilibrada com a narrativa contínua da série, mas o surrealismo dela serve para falar de maneira verdadeira da realidade e fazer comentários sociais tão relevantes e poderosos. Isso funciona porque ela é muito bem feita. Seja no roteiro, na direção ou em toda sua parte técnica. Tecnicamente e narrativamente. Isso é o que faz a série genial.

Se tem algum artista que podemos chamar de genial hoje em dia, esse alguém é Donald Glover. Um artista que, no mesmo momento, consegue ter uma série como Atlanta, fazer This Is America e estar no filme do Han Solo. É raro ver alguém tão talentoso – e tão talentoso em tantas áreas diferentes. E alguém que, além do talento, consegue ser tão consciente socialmente. É um feito. E Atlanta é um marco definitivo nesse grande feito. Que série.

Anúncios

Categorias:Críticas

Marcado como:, ,

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

w

Conectando a %s