Críticas

Crítica | Paraíso Perdido

O novo drama brasileiro conta com a presença de Seu Jorge, Erasmo Carlos e Jaloo, com direito a muita representatividade e música popular.

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A película é ambientada em um bar nomeado de “Paraíso Perdido”, onde as pessoas podem ser livres para se vestirem, cantarem, agirem e serem quem e como quiserem. Temos vários arcos amarrados em uma única trama que se constrói sobre essas personagens.

Tudo começa com a história de Imã (Jaloo), uma travesti cuja mãe, Eva (Hermila Guedes), está presa, e que trabalha como cantora transformista durante às noites no bar de seu tio para pagar suas contas. Imã é apaixonada por Pedro (Humberto Carrão), que constantemente se sente envergonhado pela relação com a performer, especialmente pelo fato de as características consideradas “femininas” serem apenas parte da performance. Imã, em seu cotidiano, se identifica como um homem, o que faz com que Pedro sinta certo embaraço em estar com ele, chegando a empurrá-lo no chão em um dos momentos em que se beijam publicamente.

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Ainda no mesmo ambiente, temos Angelo (Júlio Andrade), cantor frustrado com a vida pela separação de quem ele diz ser seu “amor verdadeiro”. Anos após trair a esposa, Angelo continua amargamente arrependido e demonstra-se ainda emocionalmente dependente de sua presença, ainda que não faça a menor ideia de onde esta se encontra. Sua filha, Celeste (Julia Konrad), está grávida de seu ex abusivo e presa em um dilema sobre dever ou não abortar a criança.

Devido a um crime de ódio que leva Imã a ser espancada atrás do bar, José (Erasmo Carlos), tio do garoto e dono do “Paraíso Perdido”, toma medidas de contratar um policial, Odair (Lee Taylor) que possa ajudá-lo a tornar o pub um lugar seguro novamente. O que José não esperava era que Odair fosse filho de Nádia (Malu Galli), a mulher que Angelo procura desesperadamente.

A história não faz suspense dentro de sua própria análise; o que poderiam ser plot twists são esclarecimentos óbvios que se costuram entre os bordados do roteiro. De pedacinho em pedacinho, fica cada vez mais claro para o espectador que todas as personagens estão unidas de alguma maneira, especialmente por laços familiares e genealógicos de traumas passados.

Jaloo carrega grande parte do filme nas costas, representando a comunidade LGBT+ e trazendo um vozeirão que combina perfeitamente com o estilo brega que define o filme. Há uma cultura popular muito forte por trás de toda a construção de sua personagem, ao mesmo tempo em que esta é uma quebra com o convencionalismo tradicional e representa um jogo de cintura moderno para tratar de assuntos atuais. Imã é forte, jovem e, com isso, até mesmo tolo. Tem uma mentalidade sonhadora que não a permite enxergar que faz parte de um relacionamento abusivo, e o próprio roteiro falha miseravelmente em conduzi-la a esta descoberta.

O fato é que Pedro ignorava Imã e o destratava, especialmente quando estava desmontado. Ainda passou à agressão física quando o empurrou por se sentir envergonhado de estar beijando uma travesti em público e foge logo depois. Apesar da personagem ir melhorando com o passar do filme, há uma romantização um tanto quanto desesperada para dar um final feliz a Imã, que merecia muito melhor do que alguém que a idealiza em certos momentos e a despreza quando se frustra com as próprias expectativas.

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Não apenas a questão de Imã é romantizada, como a de todas as outras personagens. Celeste e Nádia também são mulheres que passaram por relacionamentos abusivos e traições e que as linhas da história ainda encontram meios de encontrar um perdão tão fácil e moralista que chega a ser fajuto e inflamante.

Apesar da excelente amarradura nas tramas, essas pequenas falhas fazem com que a representatividade se torne quase inútil, propondo uma narrativa que torna o abuso concebível e aceitável como “justo” a partir do momento em que há “arrependimento”.

Teylor (Seu Jorge) é o alívio cômico definitivo do filme. Sua personagem é parte dessa cultura e carrega um molejo brasileiro como nenhuma outra. Apesar de ter sido elencado mais para a trama de comédia, Teylor é muito eficaz em diversas cenas como um homem livre e independente em suas relações pessoais, mas prestativo e atencioso com os seus amigos mais próximos.

Por fim, o trabalho técnico é excelente.

Em termos de trilha sonora, não há do que reclamar. Muito MPB e música brega é o que forma a atmosfera do filme. Há, ainda, a inclusão de músicas “bregas” atuais, como Amor Marginal, de Johnny Hooker. A escolha de cada música ambienta as cenas e cria uma estória por trás que tem total condizer com o arco, como se o roteiro tivesse sido escrito diante dessas melodias líricas.

A escolha de luzes e cores vibrantes faz parte da naturalização desse pub como um local popular, moderno, aconchegante e, ao mesmo tempo, cheio de vida.

Também é construído um poliamor, que é extremamente forçado e mal designado, beirando a canalhice por começar com uma traição. Isso tudo se mistura ao final borbulhante, que torna este relacionamento ainda mais problemático do que já havíamos percebido.

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Sendo assim, o filme Paraíso Perdido é uma explosão de cultura nacional e que possui um show em quesitos de ambientação e técnica, mas que falha com sua proposta de representatividade ao deixar que todos os relacionamentos abusivos – o que não deixa de ser realidade, mas não era necessário tornar essa circunstância de perdão tão geral quanto é demonstrada no filme – saiam impunes de suas agressões físicas e psicológicas.

O filme estreia amanhã (31/05) em todo o Brasil.

 

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