Colunas

Coluna | A falta de pesquisa sobre gênero em Alex Strangelove

Não é que os cineastas do século passado não saibam abordar novas discussões de gênero e sexualidade. Só é engraçado que…

Vamos ser sinceros aqui. Esse texto não abrange todos os cineastas, nem todas as pessoas do século passado. É mais uma crítica à falta de pesquisa e renovação sobre o assunto, só isso. Em todas as profissões, a renovação e reciclagem de estudos é necessária. Desde sempre, tudo que se acredita é contestado, recriado, reestruturado. Portanto, é preciso muito cuidado na hora de escolher temas como sexualidade em filmes para adolescentes no contexto de hoje, 2018.

ale.jpg

Antes de adentrar à discussão principal, vamos conversar um pouquinho sobre algumas definições, para não haver erro, tudo bem?

Sexualidade X Romanticidade

Pode parecer bem óbvio, mas nem todo mundo já parou pra pensar nisso. Orientação sexual é dissociada da orientação romântica. Um indivíduo pode sentir-se atraído por um, dois, vinte, ou nenhum gênero, e isso não diz respeito, necessariamente, ao ato sexual. Um indivíduo que se declara bi ou pan romântico, por exemplo, pode desejar estar num relacionamento com qualquer gênero, mas ter preferência no ato por um gênero em específico. E isso não invalida sua orientação. Da mesma maneira, um indivíduo pode ter qualquer uma das orientações sexuais, e não se apaixonar por ninguém, ou ter aversão a relacionamento fixo. As possibilidades são muito amplas.

Espectro A(sexual) X Padrão de Gênero

Outro equívoco muito comum é misturar orientação assexual e orientação arromântica. Mais do que isso: acreditar que tudo diz respeito à dicotomia sexo-não sexo, o que não é verdade. Dentro do espectro sexual e romântico, existem vários níveis, de acordo com a multiplicidade emocional dos seres humanos, as condições psicológicas, o histórico de vida, experiências passadas, ou, ainda, experiências que não ocorreram por falta de oportunidade.

Imagem relacionada

O maior problema com relação a esse espectro é a pressão social que envolve o comportamento dos gêneros. O que o homem deve fazer, o que a mulher deve fazer, como eles devem ser, se mostrar. É sempre esperado atitudes passivas para a mulher e atitudes rudes para o homem. Que seja sempre ele a tomar a iniciativa, a ter o pensamento sexual, e a mulher o emocional. Hoje, com o feminismo, as mulheres têm discutido essas questões. No entanto, a imagem do masculino ainda precisa ser discutida com mais afinco, principalmente diante de tantos casos de depressão, surtos e suicídio por conta das pressões de gênero.

O que tudo isso tem a ver com Alex Strangelove?

Pois então. Em Alex Strangelove,  todas essas definições são colocadas dentro de um liquidificador, e misturadas sem ordem nenhuma, atrapalhando ainda mais o entendimento do espectador, que, desde o começo, já não possua nenhum entendimento sobre o assunto. Isso é muito sério, pois um fato como o mencionado pode reforçar preconceitos e discriminações numa sociedade que já é, por si só, preconceituosa.

Resultado de imagem para alex strangelove

Em qualquer narrativa, seja ela literária, teatral ou cinematográfica, é preciso deixar claro o que é personagem e o que é discurso. Muitas vezes, os dois elementos se confundem. Quando essa interseção tem fundamento e um objetivo narrativo, o autor precisa explorar os elementos e extrair uma mensagem do próprio personagem que personifica o discurso. Mas quando a interseção ocorre “sem querer”, sem nem perceber, gera um problema tamanho monstro. Infelizmente, foi isso que aconteceu em Alex Strangelove. Ou pelo menos foi o que pareceu.

As primeiras imagens do filme nos trazem o discurso de Alex (Daniel Doheny), personagem protagonista. Naquele primeiro momento, entendemos que ele enxerga a sociedade de fora, como se não estivesse incluído em suas observações estilo Discovery Channel. Alex faz questão de insistir na associação sexual do reino animal com a perversão – aos olhos dele – de seus amigos da escola.

Depois, o filme sugere que Alex tenha sentido atração imediata por Claire (Madeline Weinstein). Sugere, inclusive, que ele seja um pouco tímido, certinho, que não saiba lidar com os sentimentos… mas termina criando coragem suficiente para fazer amizade com a garota.

Resultado de imagem para alex strangelove

O tempo passa, os dois aprofundam o nível de intimidade, até que Alex a convida para ir ao baile, como amigos. Apesar de tentar o tempo todo focar na amizade, o romance termina acontecendo e se convertendo em relacionamento amoroso oficial. É preciso reforçar que Alex tomou todas as iniciativas desde o princípio. Ele sentiu-se atraído por Claire, ele a chamou pra ser sua dupla na escola, ele a chamou para fazer sua websérie, ele a convidou para o baile. Sempre ele.

Em nenhum momento houve ambiguidade. Não houve espaço para que Claire entendesse errado. Alex sempre deixou bem evidente e óbvio que gostaria, voluntariamente, de estar com sua melhor amiga. Aliás, quem se declarou foi ele, também. Foi Alex quem disse que a amava primeiro.

De repente, o incidente incitante¹ acontece: os amigos “pervertidos” fazem perguntas obscenas ao casal, e Claire deixa escapar que os dois nunca haviam se relacionado sexualmente, porque Alex não queria. O protagonista, por alguma razão (talvez para manter a masculinidade esperada), sente-se ofendido. Transar com ela, de repente, vira uma obsessão. Em seu íntimo, Alex precisa provar à sociedade e à ele próprio que pertence àquela sociedade exposta no início e que ele corresponde ao ideal de “macho alfa” entre a espécie humana.

Imagem relacionada

Independente do que pudesse surgir nesse ponto narrativo, está bem óbvio que ele não seria bem sucedido. Não por ele ser gay, assexual, o que for. Mas por conta de toda a pressão envolvida naquele momento. Não faria diferença alguma o gênero na situação vivenciada por Alex, ele não esperou o contexto adequado – foi mais uma batalha interna, uma tarefa a ser cumprida.

O surgimento de Elliott (Antonio Marziale), no meio de toda essa confusão, não serviu para “tirá-lo do armário”, como o filme parece querer nos induzir a pensar. Na verdade, o surgimento de Elliott tinha tudo para se transformar em novas descobertas para Alex, no que diz respeito à – provável – bissexualidade que ele nunca teve oportunidade de experimentar.

Resultado de imagem para alex strangelove

A questão aqui não é entre sair ou não sair do armário. Mas em sugerir, através de pensamentos do próprio protagonista, uma bissexualidade invisibilizada, mais uma vez, ao afirmar no fim do filme que Alex “sempre foi gay”, negando toda a experiência amorosa (vamos lembrar a diferença entre orientação romântica e sexual, dita lá em cima?) que existiu entre ele e Claire.

Outro ponto problemático em Alex Strangelove é a permanência da figura feminina como obstáculo para a felicidade amorosa de seu parceiro gay. Esse plot já foi visto diversas vezes, e só repercute o machismo no cinema, reduzindo os papéis femininos a um simples elemento raso, sem explorar as verdadeiras emoções da personagem, ou reações mais firmes diante de toda a situação. E quando reagem, o filme manipula a trama para que o espectador acredite que a mulher é uma vilã, quando, na maioria das vezes, a personagem é enganada, usada, objetificada durante toda a trama.

Resultado de imagem para alex strangelove

A primeira vez de Alex e Claire é o clímax do filme. O desconforto do protagonista é quase palpável. Reconhecemos a tentativa de salvar o roteiro ao colocar a figura de Elliott no imaginário de Alex durante o ato sexual. Como se fosse um argumento válido para sustentar a ideia de que a personagem só conseguiria realizar o ato se fosse com outro garoto, trazendo-lhe então o rótulo oficial de homossexual.

No entanto, se voltarmos às definições iniciais, podemos buscar uma explicação mais plausível e provável. Como já dito anteriormente, a preferência por um ou outro gênero não invalida a orientação romântica/sexual de um indivíduo que tenha qualquer indício de atração por mais de dois gêneros. E muito menos na situação vivida por Alex: a de ter que provar a sua masculinidade. Naquele momento, Claire representava a pressão social pela qual ele passava nas últimas semanas.

Os 50% de probabilidade de falha com uma mulher, diante de toda essa questão, teria um significado muito maior do que se ocorresse com um homem. É interessante pensar sobre isso, principalmente considerando a obsessão de Alex pelo mundo animal, onde as relações entre machos – diferente das relações entre fêmeas – não somente é aceita, mas cultuada, como uma espécie de supremacia de gênero, uma “supramasculinidade” (se é que isso existe).

Resultado de imagem para alex strangelove

Se analisarmos toda atmosfera psicológica de Alex Strangelove, extrairemos discursos que, indiscutivelmente, confundiram-se com as personagens, trazendo questionamentos muito sérios para serem colocados erroneamente em filme de adolescente.

Se tentarmos traduzir os discursos literais, encontraremos o seguinte:

  1. Se um garoto não quiser transar com a namorada, é porque ele é homossexual;
  2. Se um garoto tiver atração romântica por uma garota e sexual por um garoto, ele é apenas homossexual;
  3. Se um garoto se aproxima de uma garota espontaneamente e a pede em namoro espontaneamente, foi por pressão social heteronormativa;
  4. Bissexualidade não existe;
  5. O espectro assexual não existe;
  6. O espectro romântico não existe;
  7. Se uma pessoa não tem desejo sexual, ela é (nas palavras de Alex) sexofóbica;
  8. Se um garoto trai a namorada beijando outro garoto pouco antes de ter a sua primeira vez com ela, e no momento de intimidade ele diz que “é estranho namorar uma amiga” e depois termina com a garota, ele ainda é a vítima;
  9. Utilizar a estratégia de deus ex machina², trazendo um flashback de Alex pré-adolescente sendo constrangido pelos colegas no vestuário por ter tido uma excitação involuntária, aparentemente invalida (mais uma vez) o romance vivido entre ele e Claire.
  10. Por último, mas não menos importante, o título do filme ser Strangelove (amor estranho) quando o sobrenome real de Alex é Truelove (amor verdadeiro) nos diz o quê, exatamente?

Diante desses discursos, há muito o que ser pensado e debatido. É claro que muitos adolescentes homossexuais se escondem em relacionamentos heteronormativos temendo a repercussão que poderiam causar na escola e na família. No entanto, sinto-lhes informar de que este não foi o caso de Alex Truelove.

¹Incidente Incitante: situação que irá gerar o conflito principal de uma trama.
²Deus ex machina: situação que surge, de repente, no final de uma história, para salvar os furos.

 

 

 

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

w

Conectando a %s