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História do Cinema #3 | O Cinema Narrativo

Com a montagem, o cineasta passa a ter o poder de sequenciar os fatos. Mas como será que o cinema narrativo surge através da técnica, e como ele opera nas emoções humanas?

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Anteriormente, em História do Cinema #2, foi discutida a mudança na perspectiva cinematográfica através das técnicas que foram testadas ao final do século XIX e começo do século XX. É correto dizer que o roteiro surge para dar um novo rumo às películas: o cinema narrativo.

Houve um momento em que assistir cenas aleatórias já não era mais tão empolgante quanto costumava ser assim que os Lumière exibiram A Chegada do Trem na Estação (1895). Com isso, o público passou a tornar-se mais desinteressado pelas cenas cotidianas, que já não lhes acrescentavam nenhum impulso psicológico ou visual.

Algumas outras técnicas foram testadas, mas falharam em termos de compreensão, sendo suspensas por um tempo até que novos cinemas – como western e filmes de ação num geral – tivessem a velocidade técnica que capacitaria a melhor compreensão dessas sequências com cortes mais secos e visualmente rápidos.

Dessa forma, começou a ser explorada a possibilidade de contar histórias através dos filmes, e não apenas registrar alguns segundos de pessoas andando ou a passagem de um trem, como era feito anteriormente.

Um dos primeiros e mais bem sucedidos filmes narrativos foi A Vida de um Bombeiro Americano (1903), um filme estadunidense feito pelo empreendedor Edwin Stanton Porter. Ele começou sua carreira cinematográfica organizando e financiando uma projeção pública na cidade de Nova York em 1869. Desde então, continuou a acompanhar o desenvolvimento da arte fotográfica, que posteriormente tornou-se o cinema.

Em A Vida de um Bombeiro AmericanoPorter utiliza recursos narrativos puramente visuais, tendo em mente que a câmera ainda não operava com áudio na época. Assim, sua obra retratava um resgate. A primeira cena era o exterior de uma casa em chamas; em seguida, um bombeiro adentrava pela janela e então o plano era cortado para o homem salvando uma mulher. Volta-se o quadro para o plano geral aberto, mostrando o cenário exterior novamente, mas dessa vez com a mulher resgatada ao lado de fora, e então o filme corta para o quarto, onde o bombeiro salva a filha da senhora que acabara de libertar.

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Isso se passava em poucos minutos, mas já era um registro muito maior do que os feitos anteriormente, ao menos quando falamos da trama. Diferentemente dos outros filmes até então conhecidos, esse contara uma história. Vemos uma cena rotineira, como de costume, mas é a história de um resgate. Isso comovia os espectadores, mexia com o psicológico individual e, certamente, impulsionou o poder que essa narrativa teria para o cinema como um todo.

Até 1903, nenhum filme havia sido de fato realizado nos grandes estúdios de Hollywood. Na verdade, nem sequer existia essa cidade cinematográfica, apenas o distrito que viria a se tornar uma grande referência de estrelato e filmes comerciais, o maior nome do cinema glamouroso, dos anos dourados entre as décadas de 40 e 60.

Quando falamos de fotografia em movimento, nos referimos ao começo do cinema técnico, mas o movimento veio a ganhar força e velocidade com a narrativa. Através das sequências de perseguição, a empolgação do público ficou cada vez maior, ainda mais quando sabiam de que se tratava toda a correria.

Essa foi a maneira que o cinema encontrou de dizer “enquanto isso…” ou “anos depois…”, criando uma noção de tempo para o público que tornava a cronologia cinematográfica possível, ainda que algumas obras viessem a mexer com a psique, quebrando a estrutura narrativa tradicional de três atos – assim como o teatro.

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Como citado na coluna anterior, Alice Guy-Blaché foi uma das primeiras cineastas e a fundadora de um dos primeiros estúdios conhecidos. Apesar de ter começado sua carreira na Europa, Guy-Blaché mudou-se para os Estados Unidos pouco depois, sendo uma das grandes responsáveis pela ascensão de um cinema onde o roteiro possuía grande papel. Ela dirigia e escrevia filmes épicos, bíblicos e dramalhões.

David Llewelyn Wark Griffith ou, como ficou conhecido, D.W. Griffith, foi um dos mais importantes cineastas de sua época, sendo considerado o criador da linguagem cinematográfica, não apenas pelas suas incríveis montagens, que possuíam uma edição de continuidade esplêndida, mas também pela qualidade narrativa que emergia na época.

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Ainda contando com a novidade narrativa visual, surgem as instalações de iluminação. É aqui que o cinema começa a ser pensado de maneira dinâmica e expressiva através do jogo de luz e sombras.

O Assassinato do Duque de Guise (1909) foi um dos filmes mais importantes no que se refere ao impacto teatral e à carga dramatúrgica que carregava. Para os olhares de cinéfilos pós-modernos, talvez esse seja apenas mais um filme, mas, contextualizando a época em que foi exibido, era uma película revolucionária tanto para o quesito técnico de iluminação e operação de câmera, como para a estrutura narrativa.

Cria-se, então, o que chamamos de Plano Médio (PM), ou seja, takes tirados da cintura para cima. Até então, a norma padrão eram Planos Gerais (PG), que focalizavam em todo o ambiente, e Primeiros Planos (PP), que davam uma atenção maior para o rosto das personagens em cena.

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Adquirindo um público mais novo, o cinema começa a se tornar um ambiente mais aconchegante do que exposições abertas. Criam-se sessões fechadas, com poltronas acolchoadas e que agradassem ao público mais jovem, em uma tentativa de aproximá-los do foco do filme através do conforto. Surge, então, o que conhecemos até hoje como cinema comercial, que viria a ser, na atualidade, os famosos blockbusters. 

Ainda assim, temos uma venda estadunidense em diversos gêneros cinematográficos, como os famosos dramas com síndrome do “herói-americano”, que ressaltam o patriotismo e o nacionalismo, assim como se apropriam de outras lutas sociais para comercializar a produção.

Isso tudo se inicia graças ao cinema épico e vai se tornando cada vez mais visível com a rentabilidade dos filmes, gerando uma onda comercial enorme – especialmente na América do Norte –, a qual iremos discutir na próxima quarta-feira.

 

Referências Bibliográficas:
COUSINS, Mark. História do Cinema. Edimburgo, 2004.

 

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