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The Crown e a política externa durante a Guerra Fria

A segunda temporada da série mais cara da Netflix é uma viagem à Guerra Fria.

Desde o início da Guerra Fria, em 1947, quando é estabelecida a Doutrina de Contenção, o Reino Unido mostrava uma liderança decadente. Apesar de ainda ser a principal potência da Europa, a política do país se tornou crescentemente voltada para os Estados Unidos, buscando o seu apoio para ser capaz prosseguir com questões como a crise na Grécia.

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A segunda temporada de The Crown começa no ano de 1956, precisamente quando estoura a crise do Canal de Suez. Para compreender um pouco melhor como isso se encaixa na visão de nossas personagens, é preciso entender que, com a morte de Stalin em 1953, as tensões começam a diminuir, de forma que, em 1955, acontece a primeira reunião entre Estados Unidos e União Soviética. Esse período ficará conhecido como Coexistência Pacífica.

Além disso, o chamado Terceiro Mundo surge em 1955, durante a Conferência de Bandung, que promove o não-alinhamento às tendências bipolares. Um dos líderes que lidera esse movimento é Nasser (Amir Boutrous), presidente do Egito, visto como um governante centralista – até demais – pelos americanos.

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A nacionalização do Canal serve a três propósitos para o presidente: um desafio à França, que o repreendera por apoiar a rebelião argelina; a Israel, cujos navios seriam impedidos de usar a passagem em Suez; e à antiga potência colonial, o Reino Unido, que não aceitara a perda do território.

Ao ordenar o ataque coordenado, os três países desafiados esperavam que os Estados Unidos oferecessem seu apoio, conforme era preconizado pela política externa britânica. Entretanto, o país não apenas se abstém – conforme mostrado durante um noticiário, na série -, como também condena a ação militar no Egito perante as Nações Unidas, o que configurou uma grande humilhação para as decadentes potências colonizadoras.

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Nesse cenário de crise, tanto a Rainha Elizabeth II (Claire Foy) quanto seu marido programam diversas viagens aos territórios do Commomwealth para garantir a estabilidade do seu alinhamento num cenário instável.

Desde o fim da Segunda Guerra, uma onda desconolizadora varria a Ásia e a África, o que configurou um duro golpe ao Império Britânico, no qual “o sol nunca se punha”, uma referência à vastidão de suas posses. Símbolo de seu poder, o Reino Unido perde a posse da Índia já em 1947.

Assim, era de suma importância demonstrar uma atitude renovada em relação aos territórios ainda afiliados, para que não fosse associado a uma imposição e sim a uma possível “irmandade” dentro da Commomwealth.

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Um grande símbolo, retratado na temporada, é a viagem a Gana – país que se torna independente em 1957 e começa a tender para o lado soviético -, feita pela própria Rainha para tentar controlar uma situação de afastamento.

O presidente Nkrumah, outro expoente do não-alinhamento, é impressionado por ela durante o baile, quando dançam juntos. O simbolismo desses passos é marcante, tanto historicamente quanto visualmente, quando vemos o episódio, e demonstra uma requintada habilidade política da soberana.

Aqui, podemos ver mais uma vez o preciosismo da série com detalhes, cujos paralelos com a realidade são impressionantes quando analisados lado a lado.

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The Crown tem uma tarefa árdua na sua segunda temporada, de balancear as questões históricas com as teorias desenvolvidas para explicar momentos cujas informações são escassas. Assim, ressalvas podem ser feitas, mas méritos devem ser reconhecidos.

O plano de fundo da produção é sempre rico e bem explorado, para expor ao espectador um momento de tantas transformações do sistema internacional. As perspectivas da terceira temporada são igualmente animadoras, cujos episódios ficarão disponíveis em 2019.

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