Séries

Crítica | Anne with an E – 2ª Temporada

Ainda mais brilhante que a temporada de estreia, Anne with an E dialoga com a contemporaneidade sendo sutil e natural.

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Anne with an E é uma adaptação da série de livros Anne de Greengables, escrito pela canadense Lucy Montgomery em 1908. Ao contrário da proposta inicial, em que a autora não chegou a ter o assunto como prioridade, a adaptação para a TV tem tomado uma linha progressista, e por que não dizer revolucionária? O principal foco da série produzida pela Netflix é desmistificar as crenças de um conformismo cultural no início do século 20, mesmo numa realidade tão conservadora como a zona rural do Canadá.

É bem difícil de acreditar que justo num período de tanta efervescência cultural não houvesse ninguém, uma pessoa sequer, a pensar na contramão, a querer questionar os valores e imposições, já que sempre existiram revolucionários desde o princípio do mundo. Dessa maneira, Anne with an E inicia sua primeira temporada trazendo Anne como apenas a primeira faísca da grande iluminação de saber pela qual Greengables estaria prestes a presenciar.

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Metaforicamente, a região ainda vivia na escuridão, pela falta de energia elétrica, presente ainda somente nas cidades urbanas. Depois de Anne, Greengables tornou-se um novo lugar; uma vez aceita naquela comunidade, tudo ao redor dela pareceu acompanhá-la, mesmo de maneira gradual. E é isso que vemos mais precisamente na segunda temporada.

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É interessante observar que essa temporada manteve-se no mesmo padrão estético de cores e planos, dando-nos a confortável impressão de ser a sequência da história anterior, como se houvéssemos simplesmente fechado o livro e aberto de novo um ano depois, reencontrando as personagens do jeitinho que os havíamos deixado. Isso é muito importante para a linearidade existente na história original, e não muito usual em séries de TV, principalmente se tratando de Netflix, onde, grande parte das vezes, encontramos diferenças significativas entre  uma temporada e outra.

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No entanto, apesar do padrão estético ter-se mantido quase o mesmo, há novidades visíveis no comportamento dos protagonistas e em suas relações com as demais personagens. A transformação moral é clara e na medida certa. Momentos de fraqueza assombram vez e outra nossos protagonistas, através de flashbacks, mas a postura diante desses medos já não os paralisam mais.

Nessa nova fase, Anne encontra aliados, e outros que enxergam o mundo com olhos curiosos iguais aos dela. De repente, é como se bastasse uma menina corajosa fazer-se percebida para todos os outros terem coragem de dizer o que realmente pensam, ser quem realmente são, e, principalmente, abandonar a zona de conforto instaurada em Avonlea através de valores tradicionalistas e sem uma explicação lógica o bastante para aqueles que encontraram no estudo uma oportunidade para o conhecimento racional e empírico.

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A quebra dos paradigmas é trazida aqui tão sutilmente que não é difícil acreditar que tudo aquilo tenha acontecido de verdade. Anne with an E é crível o bastante para ser um relato de verdade sobre uma sociedade de verdade que tentava seus primeiros passos para a libertação moral de mulheres, negros, profissionais progressistas, e, por mais surpreendente que seja, mesmo em 1908, liberdade para discussões sobre papeis de gênero e orientação sexual. Principalmente através dos clubes de arte, teatro e música nos centros urbanos.

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Honestamente, precisamos colocar Anne with an E em mais debates para evitar que seja cancelada, assim como tem ocorrido com as séries que apresentam pouca audiência. Esse é o argumento usado quando, na realidade, a audiência é diretamente proporcional à divulgação e propaganda que a própria Netflix faz de suas séries, escolhendo queridinhas e produzindo outras por obrigação.

Anne with an E é pouco divulgada nas redes sociais, mas deveria ter um espacinho colorido e florido no coração dos cinéfilos da nova geração não somente pela abordagem crítica e sociocultural, mas, acima de tudo, porque Anne consegue cativar até o mais bruto dos homens, através de sua doçura e entusiamo, sempre oferecendo o seu mundo cor-de-rosa a quem tenha olhos aptos a enxergá-lo desta maneira.

Abaixo, o trailer da temporada:

 

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