Séries

Crítica | Samantha! – 1ª Temporada

Com um bom texto, ótimos diálogos, sacadas excelentes e muitas referências certeiras, Samantha! é uma jornada leve, prazerosa, engraçada e divertida entre a nostalgia do Brasil pop dos anos 80 e o mundo da fama atual.

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Samantha! conta a história da personagem título interpretada por Emanuelle Araújo, uma estrela infantil dos anos 80 que enfrenta, nos dias de hoje, uma decadência profunda na sua carreira e tenta recuperar a sua fama novamente ao lado do ex–marido, Dodói (Douglas Silva), ex–presidiário e ex–jogador de futebol, e dos filhos Cindy (Sabrina Nonata), e Brandon (Cauã Golçalves).

Criada por Felipe Braga, Samantha! acompanha as hilárias aventuras da sua protagonista para alcançar a fama de novo no seu mundo dividido entre a nostalgia e o mundo artístico atual.

O contraste entre a nostalgia dos anos 80, culturalmente ricos e deliciosos, mas politicamente incorretos, loucos e sem qualquer restrição ou bom senso – em que tudo isso se refletia na TV – sendo visto com um olhar atual, de um tempo com uma TV aparentemente diferente, mas nem tão diferente assim, e as mídias sociais cada vez mais fortes são um dos maiores trunfos da série.

É como se o filme Bingo: O Rei das Manhãs (2017) fosse transportado e ficasse ao lado de um olhar mais atual, porém insano, ou como se o protagonista do filme tentasse recuperar aquela fama passada. Essa crítica dos anos 80, da TV e do mundo atual fica muito clara na relação de Samantha com Laila (Lorena Comparato, excelente), uma “digital influencer” de sucesso.

A série, de forma muito inspirada, consegue fazer críticas ao mundo do entretenimento e da fama que podem parecer exageradas, mas que, dentro do tom daquele universo e daquelas personagens, todos propositalmente exagerados e extremos, funcionam perfeitamente. Tudo é construído para ser amalucado e insano, o que reflete muito bem o universo que a série se passa e a crítica que ela fez, mesmo sendo bem leve.

Essa leveza, inclusive, se traduz no ótimo texto de Samantha!. Ele é cheio de referências à cultura pop brasileira; são inúmeras, além de muitas sacadas rápidas e certeiras de humor. Tudo é muito ágil, bem construído, com bons diálogos fazendo com que boa parte do humor consista na interação entre as personagens e na frase que elas trocam; assim, a série funciona como uma coleção de frases e diálogos engraçados.

A série encontra o tom certo do humor, sendo sempre muito engraçada, mas sem pesar a mão em nenhum dos lados para ser assim. Como muita gente já comentou, é um humor amalucado, mas leve, que lembra as produções de Tina Fey, mas que, ao tratar do retorno ao mundo da fama e das referências à cultura brasileira e ao imaginário do brasileiro, lembra bastante animações como BoJack Horseman e Irmão do Jorel.

Curta e sempre agradável, a série tem um ritmo excelente, sem enrolações, passando de forma bem agradável e rápida para contar tudo que precisa de forma prazerosa nos sete episódios. O elenco corresponde ao roteiro e ao ritmo. Emmanuele Araújo é o grande destaque da série, construindo de forma maravilhosa uma personagem hilária e ao mesmo tempo complexa, conseguindo se destacar ao abraçar a loucura da produção. Douglas Silva casa de forma competente com o papel de “malandro” e tem uma boa química com Araújo.

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O elenco coadjuvante é excelente, passando pela já citada e excelente Lorena Comparato, Ary França como o mascote de Samantha, o Cigarrinho (algo extremamente absurdo e politicamente incorreto, mas que seria totalmente viável nos anos 80), e um ótimo Daniel Furlan (do Choque de Cultura e da TV Quase) como Marcinho, o empresário sem nenhum escrúpulo de Samanta.

Os únicos pontos contra são as crianças, Sabrina Nonata e Cauã Golçalves, que não estão ruins e não comprometem, mas também não correspondem aos seus papéis, que foram construídos de forma muito inspirada, porém muitas vezes soam artificiais na sua interpretação; elas também não são ajudadas por algumas tramas paralelas bem fracas que a série as entrega, sendo sua parte mais fraca. Mas nada que comprometa a produção, que se beneficia por várias participações especiais excelentes, como Alice Braga (que também é produtora da série), Luciana Vendramini, Gretchen, Sabrina Sato, Paulo Tiefenthaler, Alessandra Negrini, entre outros.

Visualmente, Samantha! segue a linha padrão de uma sitcom de câmera única e de uma telenovela brasileira, com algumas exceções, como uma Plano-sequência no começo do primeiro episódio; tecnicamente e esteticamente a série segue essa linha sem problema nenhum e é competente nisso, muito bem feita. Talvez funcionasse melhor em uma tela de TV mais tradicional, mas nada que pareça desconfortável. A inventividade e o seu algo a mais está em como ela aborda o seu próprio universo, as suas personagens e a sua comédia.

Deliciosa de acompanhar, Samantha! é uma série excelente e extremamente divertida que, além de já valer por todos os elementos citados, já valeria pela sua trilha sonora com músicas feitas sob medida, que grudam na sua cabeça de imediato e por um bom tempo.

Bem feita, inteligente, divertida, leve, prazerosa e engraçada, Samantha!, sem nenhum exagero, mostra uma série brasileira de qualidade, uma comédia nacional de qualidade e é, até agora, a melhor produção brasileira da Netflix, muito acima das que vieram antes.

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