Colunas

História do Cinema #5 | A influência do cinema nas guerras do século XX

Independente de ser um blockbuster ou um filme independente, há sempre razões políticas por trás do cinema. É dessa forma que as películas impulsionaram a circulação de ideologias durante as guerras no século XX até os dias atuais.

charlie-chaplin-diktator-film-102__v-gseapremiumxl

Charlie Chaplin em uma das cenas de seu famoso filme O Grande Ditador (1940)

Na coluna passada, História do Cinema #4, estudamos Hollywood e o cinema comercial, e aprendemos sobre a Guerra das Patentes, que recebeu este nome por ter sido a primeira grande repercussão por obrigatoriedade de “direitos autorais” da mídia do entretenimento.

Os Estados Unidos começam a emergir no cinema a partir da Primeira Guerra Mundial; antes da formação das colinas de Hollywood, os filmes europeus possuíam reconhecimento e produção artística muito superiores aos americanos.

Em 1912, diversos lugares do mundo ainda estavam trabalhando para desenvolver sua assinatura cinematográfica em termos de nacionalidade, como a Índia e as películas escandinavas. É preciso ressaltar que, a partir do momento em que esse nacionalismo é reconhecido em um filme e obtém sucesso em sua reprodução, isso acaba por se tornar uma marca no cinema da respectiva região, além de usar as obras para promover o poder de uma nação.

Os filmes começaram a ser utilizados para retratar a própria guerra, em obras como La reeducação professionelle des mutileés de la guerre em France (1917), de Edmond Donsart, que capturava a imagem de soldados feridos sendo tratados em um hospital, dando ao público uma perspectiva de futuro e acendendo uma chama de esperança; de que, ao fim da guerra, poderiam voltar com suas vidas cotidianas.

filme-sem-novidade

Acima, Nada de Novo no Front (1930), um filme antibelicista que criticava a violência das guerras e tratava dos traumas dos soldados durante e após o campo de batalha.

Apesar dos diversos filmes feitos para criticar a postura dos países em relação à guerra, não houve um impedimento de que uma nova começasse e essa, por sua vez, viria a emergir de fato com grande ajuda do cinema.

Leni Riefenstahl, cineasta alemã do Partido Nazista, ficou conhecida por ser o grande gênio por trás das propagandas nazistas idealizadas por Adolf Hitler. Foi graças aos seus filmes exaltando a pátria e a ideologia da supremacia ariana que a Alemanha ganhou grande repercussão com as Olimpíadas de 1936.

Dirigindo filmes como Triunfo da Vontade (1935) e O Dia da Liberdade (1935), Riefenstahl deu poder à potência alemã para começar uma guerra que viria a assolar todo o mundo. Em seus filmes, ela capturava imagens grandiosas da marcha de soldados e do próprio ditador, utilizando recursos muito intrigantes de gravação para mostrar a hierarquia de poder e o respeito ao governante na época. A esses recursos damos o nome de plongeé e contra-plongeé. As cenas dos soldados eram filmadas de cima para baixo, enquanto cortava para Hitler, que era filmado de baixo para cima, dando uma noção de superioridade e autoridade maior ao ditador.

leni e hitler

Leni Riefenstahl e Adolf Hitler.

Dessa forma, o patriotismo alemão começou a se espalhar por toda a Europa rapidamente. A ideia central destes filmes era fazer com que o potencial bélico, artístico e esportivo da nação fosse mostrado para o mundo, tornando mais fácil a tomada de poder em diversos lugares.

Ao assistir Triunfo da Vontade, Frank Capra ficou tão horrorizado quanto fascinado. Ele reconheceu o filme como a vitória do Terceiro Reich e como uma possível grande derrota das demais potências. Capra afiliou-se a um grupo de cineastas que eram contra o nazifascismo para realizar produções que viessem a criticar o regime totalitário.

Hollywood emerge, então, mais uma vez, como voz ativa cinematográfica. A partir de narrações fictícias, os Estados Unidos conseguem criar os mais variados tipos de filmes, desde aqueles que criticavam a Alemanha Nazista, como até mesmo películas que sugeriam uma aliança anglo-americana. Tudo isso para que o país pudesse ter participação na guerra.

Frank-Capra-And-John-Ford

Frank Capra e John Ford, cineastas que participavam de grupos anti nazifascistas, se alistam ao exército em nome de seu país.

A Rússia, assim como a Alemanha, começou a buscar novas formas de emergir como potência, aderindo ao trabalho cinematográfico para exaltar a ideologia lenista em filmes como Lenin Em Outubro (1937) e Três Músicas Para Lenin (1934).

Foi citada na coluna da semana passada a briga entre Rússia e Estados Unidos na corrida espacial. Essa aconteceu, também, no cinema, através de uma disputa entre filmes sobre viagens pelo espaço, como 2001 – Uma Odisséia no Espaço (1968), dirigido por um dos mais renomados cineastas de Hollywood, Stanley Kubrick e Solaris (1973), dirigido por Andrei Tarkovski, que é celebrado até hoje por seu cinema filosófico e abstrato que ultrapassava as noções estéticas e entrava em um mundo subconsciente.

Houveram imensos boatos de que Solaris teria sido uma resposta direta à obra de Kubrick, mas Tarkovski afirmava só ter visto o filme anos depois, sem se impressionar com a película, a considerando puramente comercial e patriotista.

solaris

Solaris (1973), de Andrei Tarkovski

Já no período da Guerra Fria, o cinema hollywoodiano possuiu grande influência política e cultural. O movimento de Cinema Noir começa a seduzir cada vez mais o público pelas suas narrativas envolvidas de suspense e sua atmosfera erótica.

Em contrapartida, a União Soviética também tratava de produzir os seus próprios filmes, com admiração à ideologia comunista, alfinetando o cinema comercial e o capitalismo bélico dos Estados Unidos. Trata-se de uma disputa imperialista em um cinema de intenções doutrinadoras. Ambas as potências entraram em briga para discutir qual das duas ideologias estaria certa, consumando dois lados da moeda que provocariam perseguição nos dois países a quem fosse fiel ao pensamento opositor.

Os EUA seguem o modelo do herói americano, com produções como a trilogia de Rambo (durante a década de 1980), além de universalizar esse conceito como se a potência estadunidense fosse a grande salvadora dos discursos populares e da liberdade de expressão.

Em sua obra Anjo do Mal (1953), Samuel Fuller entrega ao público uma história sobre uma maleficência comunista, que busca doutrinar o mundo através da alienação das massas e da força bruta.

anjo do mal

Anjo do Mal (1953), de Samuel Fuller, filme anticomunista que buscava elevar o pensamento capitalista americano a um nível mundial.

Como Hollywood já havia se consolidado como a maior potência cinematográfica mundial nesta época, e as narrativas americanas possuíam um comodismo muito maior ao espectador, assim como um público muito maior e mais tangível, os Estados Unidos saem na frente da URSS mais uma vez.

Assim como, inicialmente, os filmes bélicos surgiram para ampliar o patriotismo e servir de base para películas de romance e ação, esses foram crescendo gradativamente até se tornarem proprietários de uma carga contra-atacante ideológica, e assim se mantém até a atualidade.

Referências Bibliográficas:
HENNEBELLE, Guy. Os Cinemas Nacionais Contra Hollywood. São Paulo, 1978.
MARIUZZO, Patrícia. A Primeira Guerra Mundial pelas lentes do Cinema. São Paulo, 2014.
Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s