Séries

Análise | As mulheres de Gilead

O regime santo de Gilead se mostra tão misógino quanto as piores interpretações religiosas podem ser.

A República instaurada pela revolução, na série The Handmaid’s Tale, tem bases religiosas incontestáveis em sua organização e hierarquia. Retrato límpido da literalidade, pune sem misericórdia quaisquer violações do que a estrutura considera ser o papel ou o comportamento “corretos” e molda a vida e as convicções de todos em seu território.

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Como visto na crítica da segunda temporada, tivemos aqui a oportunidade de entender um pouco melhor como o processo se deu; mas também pudemos ver a insurgente insatisfação com o que Gilead criou. Apesar de ser o retrato mais evidente, Serena (Yvonne Strahovski) não é a única personagem que se sentirá dessa forma. O chamado “Arquiteto” da economia de Gilead, o Comandante Joseph Lawrence (Bradley Whitford), também deu fortes indícios de desconforto na sua posição – cenário ainda subdesenvolvido, mas que esperamos para a próxima temporada.

A maior força da vontade de revolução aqui, não obstante, é June (Elisabeth Moss). Ela passa por uma montanha-russa emocional durante a trama e faz com que seja quase excruciante acompanhá-la, mas é impossível parar. Seja pela dor, pela esperança ou pela ira, a jornada entre Offred e June é marcante e é por causa dela que a série continua a crescer.

[ALERTA DE SPOILER]

A força do regime e da sua deturpação da realidade entram em cena no episódio quatro, “Other Women”, quando June é recapturada e Tia Lydia (Ann Dowd) consegue operar uma verdadeira lavagem cerebral na Aia. A maneira como ela transforma Offred e June em pessoas distintas e as vira uma contra a outra é uma expressão da habilidade do sistema de Gilead em subordinar até as mais fortes personalidades – até mesmo Serena, se pararmos para avaliar.

Gilead forma as expectativas sobre si mesmo e demoniza a individualidade como uma ofensa a Deus, que não é apenas passível de punição, mas também de desgosto e autodepreciação – sempre que for possível incutir na pessoa esse sentimento. É assim que ele consegue isolar completamente a mulher dentro de June: “We’ve been sent good weather”.

“Other Women” é um episódio feito para quebrar os telespectadores, também. Ele tira as esperanças e dá um duro golpe de realismo, aspecto crucial para a mensagem da série. Esse aspecto é construído não apenas com as fortes narrativas – como no segundo episódio, “Unwomen”, que nos mostra, de fato, o sofrimento do trabalho forçado nas colônias -, mas também com uma esplêndida cinematografia, de cores pungentes e escuras contrastando com momentos de súbita luz, que capta perfeitamente o clima da trama.

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A percepção de June quanto ao radicalismo e o sofrimento que ele traz é amplificada desde o primeiro episódio, quando ela se abriga em um antigo prédio comercial onde mulheres foram executadas (realmente não há outra palavra para o que se passou). Não obstante, fica muito mais próximo dela quando o regime cobra o alinhamento de Serena, com quem ela tem uma relação que, definitivamente, não está dentro do preto e branco.

A tensão entre a Esposa e o sistema chega a um ponto além da possibilidade de distensão a partir das consequências do atentado que as Aias executam à inauguração do novo centro de treinamento, quando Fred (Joseph Fiennes) é ferido gravemente e passa semanas no hospital. Numa tentativa – nem tão desesperada – de manter a estabilidade da posição do marido, ela decide cuidar de toda a papelada que ficava a cargo do Comandandante. Com a ajuda de Offred. A Aia.

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Mais uma vez, temos o contraste entre a Aia e a mulher por trás dela. O pedido de Serena não é exatamente para a Aia e sim para June, a antiga editora que pode ajudá-la a manter sua escrita impecável. Ambas conseguem se encontrar no meio termo que é o refúgio da vida passada, onde ambas possuíam o poder de escolha sobre seus destinos; o poder sobre algo tão despercebido como a escrita, ou a leitura. Quando a punição dos seus “delitos” chega, tudo que ela deixa é um gosto amargo de injustiça em personagens e telespectadores.

Efetivamente, a sensação é que estamos a um passo de nomear também as mulheres dos Comandantes. Elas não possuem individualidade, agem e se empenham em hobbies semelhantes, não podem ler; vivem, em essência, uma vida alienada, desprovida da individualidade que Gilead tanto reprime (nas suas mulheres). Depois da Marthas e das Aias Of-Nome-do-Comandante, possivelmente teremos múltiplas Esposas, ou Serenas, se decidirem se dar ao trabalho de lhes escolher um nome.

Assim, não importa se Serena se mostrou um pilar de Gilead durante a crise, ela é uma mulher e jamais deve deixar de se comportar como uma mulher.

Esse é o primeiro choque de realidade. Ela se sentira poderosa o suficiente para tomar decisões sozinha, até mesmo interferir no tratamento de um bebê, assunto mais que divino em Gilead. Ela errou. Nenhuma mulher pode ter poder num sistema que cerceia suas ações. Vai além disso: cerceia suas ideias. Por mais habilidosa e engenhosa que Serena seja, nada apaga a evidência biológica do seu crime. Essa é a condenação que ela não vai mais ser capaz de entender.

Quando “sua” filha finalmente nasce, Serena entende que ela só será capaz de entender a Palavra através dos filtros que a impuserem; ela nunca poderá lê-la. Nicole – nomeada, provavelmente, em homenagem ao próprio pai – não conseguirá entender a Bíblia da forma como Serena entende, porque a construção da mãe foi uma crítica, e a da filha será uma ignorante. Esse é o ponto final da Esposa bela, recatada e do lar. Serena está pronta para lembrar a todos aqueles homens que ela sabe ler – simbólico, mais uma vez.

O processo que já fragilizava suas crenças – não as religiosas, mas aquelas de que ela dispunha para Gilead – chega ao ápice no season finale, “The Word”.

No tocante à inocência das crianças, é certamente chocante ver a cerimônia de casamento dos chefes de segurança com um punhado de adolescentes, mas não é uma novidade. A série se mantém atual, mesmo dentro dos seus exageros, como sempre. Eden (Sydney Sweeney) é a fagulha que explode os últimos questionamentos em Serena, pois dentro da sua fé ela burlou todas as regras, tolamente tentando entender a que Deus ela servia, quando, na verdade, ela precisava servir a Gilead.

É impensável ver uma garota tão jovem jogada aos prazeres de um homem mais velho e, por fim, entregue à morte pelos próprios pais. Mas a vida da mulher não tem valor. Ela é moldada e controlada e, se não for possível fazer nenhum dos dois, de nada serve.

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Entre a inocência e a loucura, temos Janine (Madeline Brewer), sempre um retrato levemente insano das consequências do sofrimento. A emoção e a dor da mulher sempre foram subestimados, então está dentro do óbvio apresentá-la como uma louca – a história se encarregou de fazer o mesmo com muitas outras.

Nesse arco, Brewer tem momentos sutis e diálogos tão sensíveis à própria realidade que somos capazes de perceber, além da confusão, a sua sanidade. É uma personagem que enriquece e carrega a trama de muito maior sentimentalidade.

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Por fim, mas não menos importante, “The Word” escancara uma realidade que sequer imaginávamos e, por isso, é muito bem-vinda. A insubordinação das Marthas demonstra como o movimento está em toda parte, crescendo nas mulheres exploradas por esse regime misógino. Rita (Amanda Brugel) é uma presença que nunca passa da medida, com diálogos curtos e expressivos, complementados pela sua postura, que denuncia constantemente as suas impressões.

Todas as mulheres de The Handmaid’s Tale possuem nuances e tons diferentes. É um mundo rico que perpassa as relações do gênero com a sociedade se utilizando de todas as ferramentas, desde uma leve carícia no rosto até o som agonizante de giz num quadro negro. São sensações. Nenhum espectador sai dessa trama ileso.

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