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Bates Motel e o Transtorno Dissociativo de Imagem

O Transtorno Dissociativo de Imagem é a explicação ideal quando se quer entender o funcionamento psíquico de um dos mais importantes serial killers da história do audio-visual.

O Transtorno Dissociativo de Imagem (TDI) é o que antes era conhecido como Transtorno de Personalidade Múltipla e é caracterizado por uma ou mais personalidades, que são apresentadas de formas alternadas. A estas são dadas o nome de alter, autoestados ou identidades. Além das perturbações das funções da identidade, memória e consciência, o TDI sintomatiza a incapacidade de lembrar informações pessoais, principalmente as mais importantes: eventos diários, traumáticos ou estressantes, que não seriam esquecidos na normalidade.

De acordo com a psicanálise, estas outras personalidades aparecem quando o sujeito se encontra incapaz de lutar contra uma situação de estresse; se encontra em circunstâncias exigentes emocionalmente. Em outras palavras, o indivíduo “permite”, de forma inconsciente, que outra personalidade lide com a situação de ansiedade. A mudança da personalidade ocorre de forma brusca, dramática, e os sinais são caracterizados por um transe hipnótico, piscares de olhos e alterações na postura. No entanto, nem todos os casos são tão visíveis: em alguns indivíduos, a mudança só é percebida por quem a conhece bem.

O Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM – V) relaciona os processos dissociativos à falta de coordenação das funções integradas identidade e memória; ou seja, a dissociação é uma divisão da identidade feita através de falhas integrativas do indivíduo. O aparecimento do TDI pode estar relacionado a alguma vivência traumática. Essencialmente, não há o Transtorno Dissociativo de Imagem sem a presença de traumas reais. São esses que desencadeiam os processos dissociativos e têm, como consequência, o surgimento dos estados alterados da consciência. Porém, deve-se deixar claro que nem sempre eventos traumáticos estarão relacionados com o TDI.

A dissociação patológica é vista como um mecanismo que irá desencadear o surgimentos destas múltiplas personalidades. De uma forma severa, a supracitada é um mecanismo de sobrevivência psicológica, uma defesa ao sujeito desprotegido da dor e de outros traumas.

Se formos analisar psicologicamente a construção narrativa de Norman Bates (Freddie Highmore) em Bates Motel (2013-2017) percebe-se que ele se encaixa perfeitamente nos comportamentos apresentados no DMS-V a respeito do TDI. Uma das questões que mais chama atenção no prólogo contemporâneo do clássico dos anos 60 é como Highmore transita entre as personalidades do filho e da mãe. É exatamente nesse momento que a captação dos detalhes óbvios ficam cada vez mais claros.

Diferente do que geralmente pensam, Norman não finge ser a mãe; ele é a mãe, ao mesmo tempo em que ele é ele. A mãe, Norma (Vera Farmiga), aparece de duas forma diferentes: na sua forma física e na parte que vive dentro do filho. Bates não consegue se diferenciar da mãe, mostrando que, em situações ansiogênicas, o filho, inconscientemente, permite que a mãe lide com a situação – um fato que mostra o quanto ele depende emocionalmente da mãe.

De uma forma bem resumida, é a personalidade da mãe que vive dentro dele que mata e agride. É visível o ciúme doentio que Norma sente pelo filho adolescente e, no momento em que uma mulher aparece aos encantos do jovem, a identidade da mãe aparece e a mata.

Por depender física e emocionalmente da mãe, Norman não sabe lidar com mulheres. Então, como uma forma de pedir proteção, a personalidade da mãe, que vive dentro dele, aparece.

A chave para toda a questão está na dinâmica do relacionamento fraterno. Bates Motel é basicamente uma construção psicológica e psicanalítica do Transtorno Dissociativo de Imagem e da Psicose – mostrando, assim, a razão dessa trama ser considerada o maior clássico psicológico da história da TV.

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