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Coluna | Mulan e expectativas sociais

A Disney não acerta sempre, mas há tesouros nas suas narrativas.

Mulan foi lançado em 1998, na Era da Disney conhecida como Renascença, que começa em 1989 e se estende até 1999. Um aspecto que diferenciou essa época foi a exploração de cenários completamente novos, como em A Pequena Sereia (1989) e Tarzan (1999), e de culturas distantes da realidade americana do fim do século XX, à exemplo de Aladdin (1992), Pocahontas (1995) e o próprio Mulan.

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Mesmo que caibam críticas ao tipo de abordagem dada a essas personagens novas – cuja cultura é vista sob um olhar que não se isenta de expressar juízos de valor, como poderia e deveria -, esses filmes são encantadores e fontes ricas de debate. Isso mostra como a boa animação não se restringe ao seu público infantil. Pelo contrário, ela é capaz de atingir distintos espectadores de maneiras distintas e pertinentes.

No que se refere à trama que se passa na China Imperial, a questão mais claramente desenvolvida é a de gênero. Existem expectativas sociais de comportamento relacionadas às mulheres e Mulan mostra, desde o começo, que não consegue se identificar com elas. Essa é uma crítica feita evidentemente para o mundo ocidental, que não tem raízes culturais tão intensas quanto a sociedade milenar em questão. Não obstante, ela pode ser vista como uma realidade possível, dada a enorme diversidade que existe em toda cultura.

Assim, compreendemos que, apesar de não se enxergar enquanto a “Esposa Perfeita”, Mulan está profundamente preocupada com a honra da sua família, outro aspecto cultural chinês. É a partir desse sentimento que ela decide lutar no lugar do seu pai na guerra contra os Hunos, e parte para realizar seu treinamento.

A personagem é vista como um símbolo da luta por independência dos estereótipos de gênero, além de um exemplo de força e determinação que, com certeza, inspira meninas até hoje. A troca de papéis serve para demonstrar como o homem é mais respeitado dentro das sociedades. Ela não precisa apenas parecer com um homem, mas falar e agir como um, para ser aceita em seu grupo.

Uma manifestação evidente dessa tendência é que, toda vez que Mulan está em cena reconhecidamente como mulher, ela não tem espaço de fala. Ela não é ouvida e isso vai muito além do fato correspondente – uma realidade que envolve subestimação, mansplainig, invisibilização e marginalização -, gerando uma metáfora maior em relação a demandas femininas.

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Apesar de parecer que não foi intencional, visto que existe um esforço atual para apagar essa construção, a animação também enseja uma discussão sobre sexualidade, através da personagem Lee Shang. O Capitão não se se sente atraído por Mulan, a mulher tradicional, e sim pelo companheiro de regimento, Ping – algo parecido com o que será feito mais tarde em Ela é o Cara (2006). Claro que se torna perfeitamente conveniente para os padrões heteronormativos que, no fim das contas, seja uma mulher, mas isso não apaga o restante da narrativa.

A bissexualidade é um espectro altamente invisibilizado. Logo, ter uma personagem central de uma trama da Disney descobrindo naturalmente essa característica é extremamente importante, pois abre espaço para uma discussão que deixa de restringir as pessoas a papéis pré-determinados.

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Os filmes da Era da Renascença da Disney são grandes espaços de discussão, o que inclui a problematização de muitos aspectos. É importante estar atento aos erros e aos acertos; principalmente aos primeiros, que são imperceptíveis para as crianças e podem gerar pré-concepções de mundo que as acompanharão. A representação dos hunos em Mulan é um exemplo, mas é assunto para outra conversa.

Por enquanto, ficaremos com a importante quebra de expectativas que esse clássico dos anos 1990 traz – e com uma amostra de quais são elas.

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