Filmes

Crítica | Egon Schiele: Morte e Donzela

A história de Egon nos traz uma grande obra estética. O conteúdo, entretanto, é tão controverso quanto o próprio artista.

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Filmes biográficos nem sempre representam a verdadeira essência do autor homenageado. Não pela história em si, mas, diferente do que costuma acontecer, Egon Schiele pareceu ter sido escrito por ele mesmo,  tamanha semelhança que havia nas abordagens técnicas do filme, tornando-o imerso em cada detalhe.

A obra é uma adaptação da biografia de Egon, escrita por Hilde Berger, que, mais uma vez, captou-o com precisão, compreendendo-o psicologicamente, inclusive. A versão cinematográfica incubiu-se de demonstrar isso através de planos de filmagem dignos de um artista de renome. Quadros com qualidade estética,  cabendo ao conteúdo, a insignificância do segundo plano; o mais importante seria a experiência artística, os sentimentos decorrentes de cada quadro escolhido. A combinação de luzes e sombras, dentro e fora, inclinações, elementos simbólicos, como neve e fumaça. Tudo isso serviu de instrumento para caracterizá-lo não somente como indivíduo, mas em sua versão de Egon, o artista.

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Esta simbiose entre câmera-narrador e Egon-artista chega ao ponto de deixar o espectador inteiramente ao lado dele, acobertando todas as suas falhas e inconsequências, em decorrência de tanta empatia mesmo por um artista tão distante e pouco expressivo. Em certos momentos, é bem provável que nos perguntemos a razão de termos nos deixado levar por ele. A resposta certamente será a mais óbvia: Egon seduziu não somente musas, mas também nós, espectadores.

Embora seja um filme histórico e biográfico, a abordagem totalmente realista da época e do padrão de comportamento de Egon é um pouco desconsertante. Não pela nudez exagerada, e muito menos pelo padrão obsessivo do pintor. O que é realmente desconsertante é o tom machista e a abordagem despreocupada em relatar as relações entre Egon e suas modelos; sempre mulheres, independente da idade, sempre, aos olhos dele, bonitas.

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O protagonista foi colocado numa posição de poder ante as modelos quase abusiva, no que diz respeito às suas relações de dominância psicológica. A questão aqui não é trazer os casos, que de fato aconteceram, mas em retratar essas mulheres não apenas aceitando, mas desejando estar nesse lugar; tornar-se musa de Egon era quase um fetiche. A única de suas mulheres que pareceu lutar por uma dignidade foi colocada, do ponto de vista do narrador, como a única que estragou a liberdade artística de Egon, quando, na verdade, ela só quis abrir seus olhos.

[ALERTA DE SPOILER]

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Embora tenham reservado um bom tempo do filme para explorar as acusações de pedofilia de Egon, a abordagem terminou afundando em sua extremamente falha tentativa de provar para nós que nosso tão adorado e sedutor Egon não havia abusado nenhuma das crianças que lhe serviram de modelos. Na vida real, sabemos que o assédio possui um limite. Mesmo com o teste de virgindade da adolescente em questão ter dado positivo, o filme deixa no ar as suposições de que Egon pode ter passado dos limites de profissional-modelo, sem, contudo, cruzar a linha que divide assédio e abuso.

No final do julgamento, a sentença dada para crime de pornografia foi tão insignificante que pareceu quase irrelevante, ainda que a situação em si fosse absurda. Independente do que tenha ocorrido dentro de seu ateliê, pintar crianças nuas, que lhe serviram de modelos, merecia muito mais do que duas semanas de cárcere.

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O filme não só falhou em desqualificar o crime, como também colocou-o em posição de mártir, se considerarmos tamanho drama quando o juiz tocou fogo no desenho apreendido. Mais uma vez: o problema não é o fato, mas a romantização disso. A câmera-narrador nos seduziu, desde o princípio, para ficarmos ao lado de Egon , mesmo em situações tão controvérsias quanto essas. O cinema tem esse poder de conduzir o espectador para ver a mesma situação de diversas maneiras, dependendo, apenas, do olhar do narrador invisível, que nos sugestiona a odiar ou adorar as personagens.

Dessa maneira, fica clara a tentativa de justificar os erros de Egon, através de uma estratégia apelativa de apoio à liberdade de expressão desenfreada, pondo sempre em frente a bandeira do artista enquanto profissional injustiçado por precisar tomar cuidado com as barreiras da imoralidade.

 

 

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