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Um Sonho de Liberdade: A adaptação máxima de Stephen King

Com tantas adaptações de Stephen King em voga, é sempre bom relembrar a, talvez, maior delas.

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Um Sonho de Liberdade (The Shawshank Redemption) segue o cotidiano de Andy Dufresne (Tim Robbins) na Penitenciária Estadual de Shawshank, depois de ser condenado injustamente a duas prisões perpétuas consecutivas pelas mortes de sua esposa e seu amante, assim como acompanha a sua transformadora amizade com Red Redding (Morgan Freeman). A relação entre esses dois amigos, tais como as vivências duras e inspiradoras de Andy no presídio, vão transformar as suas vidas e as de todos ao seu redor em experiências transformadoras.

Com a recente estreia da série Castle Rock (que, inclusive, se passa no universo da própria Shawshank e em todo o universo de King ) e o sucesso do remake de It: A Coisa (2017), dá para se dizer que as adaptações de Stephen King, ou o uso do seu material original para as telas e telinhas, voltaram a ficar em voga. Não obstante, não é de hoje que elas são um sucesso. A obra do escritor já rendeu adaptações fantásticas, ótimas, boas, medianas, ruins e péssimas. Uma das melhores delas – e talvez a melhor – é Um Sonho de Liberdade, do diretor Frank Darabont, lançada em 1994.

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Darabont tinha uma carreira estabelecida apenas como roteirista e, no seu filme de estreia como diretor de longa–metragens para o cinema, ele já criou a sua obra–prima. O fascínio de Darabont por King é antigo. O primeiro trabalho do cineasta foi adaptando e dirigindo um conto do escritor em formato de curta–metragem, chamado The Woman in the Room (1983), e, após o seu primeiro trabalho como roteirista em A Hora do Pesadelo 3: Os Guerreiros dos Sonhos, comprou os direitos do Rita Hayworth and Shawshank Redemption, que deu origem ao filme em questão.

O diretor Rob Reiner até se interessou em dirigir o projeto quando viu o roteiro da adaptação de Darabont e também após ter comandando brilhantemente outras adaptações incríveis de King como Conta Comigo (1986) e Louca Obsessão (1990), mas Darabont achou melhor ele mesmo dirigir o seu próprio roteiro – e isso levou a Um Sonho de Liberdade. Essa decisão foi a mais acertada possível, porque, apesar de Reiner ter um entendimento impressionante de transpor a obra de King, o de Darabond é insuperável.

Um Sonho de Liberdade é um caso curioso porque mostra como alguns filmes só ganham o reconhecimento merecido um tempo depois de terem sido lançados e talvez seja o maior caso desses, já que ele foi um fracassado de bilheteria em 1994 e foi sendo redescoberto cada vez mais com o tempo. Sua estima foi crescendo e hoje é considerado o filme mais amado de todos os tempos por um site bem famoso de cinema por votação popular. É um caso claro de justiça histórica. E dá pra entender porque ele está no topo de várias pesquisas online, ou porque ele está no topo no IMDB. Esse filme tem tudo o que você espera de uma grande obra.

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A direção de arte e os figurinos são ambos irretocáveis. A construção de Shawshank e a reconstituição fazem um trabalho impecável em ajudar na imersão e criação daquele universo. Ele é tecnicamente sutil, mas acerta completamente em mostrar como é o ambiente dentro da prisão ao longo do filme. A trilha sonora acertadíssima de Thomas Newman e a fotografia do sempre genial Roger Deakins capturam brilhantemente ao mesmo tempo o sofrimento e a beleza da vida, que é a essência máxima do filme. Tudo que envolve esse filme é extremamente bem feito e de grande qualidade, tendo cada detalhe como algo bem pensando e que vai somar para a narrativa, sendo também rico tecnicamente.

Tim Robbins e Morgan Freeman estão ambos fantásticos como os protagonistas. Com colaboração do roteiro, eles constroem duas personagens que estão longe de serem tão simples quanto parecem; pelo contrário, são personagens extremamente ricas. A química dos dois é ótima e eles dosam muito os seus momentos mais poderosos e emocionais, enquanto cada personagem coadjuvante, por menor que seja, adiciona um pouco mais de personalidade e desenvolvimento para os dois prisioneiros centrais e para o enredo do filme. Destaque para um fantástico James Whitmore num papel extremamente comovente e os ótimos Bob Gunton e Clancy Brown, que fazem dois excelentes vilões, cada um do seu jeito, soando como muito bem colocados.

Mas como o filme costura tudo isso de um jeito tão perfeito? Talvez a resposta esteja no roteiro e no trabalho de adaptação que Darabont cria. É fascinante como o roteiro do filme constrói essa história de amizade sobre dois homens em uma prisão na década de 40 e como essa história, aparentemente, transcende todas as esferas das suas vidas em termos do que é esperado de como as suas vidas seriam. Darabont, como o bom diretor que é, dirige magistralmente e artesanalmente a história do filme numa emulação clara de um cinema clássico ao estilo bem Frank Capra de ser (a maior referência de Darabont como diretor e de toda a sua obra), criando sequências incríveis, como a fuga de Andy no final da história e a montagem que acompanha o desenrolar disso. Ainda assim, seu mérito como roteirista é ainda maior.

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Se tem um filme que dá uma aula de como construir uma trama bem simples e direita de uma maneira inteligente, profunda, com um bom texto e com uma estrutura invejável, esse filme é Um Sonho de Liberdade. O roteiro do filme é magnífico em tudo, desde o desenvolvimento das personagens até em dar profundidade a personagens que poderiam parecer apenas arquétipos à primeira vista. Mas ele é magnífico principalmente na questão de ligar as suas tramas e ir construindo elas até que vamos percebendo como todas estão muito bem amarradas entre si. É fantástico ver como tanto a trama da inocência de Andy e sua associação com o diretor corrupto da prisão acabam se conectando. Além de adicionar mais tensão para o filme e um conflito, é uma ameaça verdadeira e humana através de um vilão muito bem interpretado pelo já citado Bob Gunton.

Os personagens nunca são esquecidos pelo filme, pelo contrário, o filme reforça cada questão da essência deles. Você começa a sentir como se conhecesse verdadeiramente todos os prisioneiros, e isso é verdade até para personagens menores, como o velho prisioneiro Books, por exemplo, feito pelo também já citado James Whitmore. Quando o filme acaba, você se sente como se tivesse gastado um bom tempo com eles e nunca parece que são apenas personagens que saíram do papel.

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Agora, outra coisa impressionante: esse é um dos filmes mais inspiradores e emocionantes de todos os tempos, mas ele nunca dá a impressão de manipular o espectador, como muitos filmes desse tipo fazem. Por mais bonito e triste que ele seja, ele nunca se torna um dramalhão de mal gosto, forçado, abertamente manipulativo, meloso, raso e pobre como muitos por aí, que só emocionam por emocionar mesmo. Darabont consegue essa façanha encontrando equilíbrio perfeito no filme no seu uso do melodrama, adicionando ele com muita riqueza e substância, fazendo grandes momentos, um após o outro, que retratam de forma sincera e sensível as verdadeiras alegrias da vida e da liberdade. O filme também não evita ou tem medo de representar as duras realidades da vida na prisão. É um filme corajoso. É um filme que retrata a luta, mostra o desespero, mas permite ver tudo o que faz com que valha a pena, no final, seguir em frente.

Essa, com certeza, é uma das melhores adaptações de Stephen King pro cinema, se não for a melhor. E é terrível a reação das pessoas com o fato do filme ter recebido o status de “melhor filme de todos os tempos” pelo IMDB, já que você não é obrigado a aceitá–lo como o melhor para o seu gosto pessoal. Eu mesmo não acho esse seja o melhor filme de todos os tempos. E nem acho que ele precise ser isso. Ele é apenas um grande filme. E isso já basta.

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