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Análise | Agnus Dei e o abuso sexual como instrumento de dominação política

O filme é um relato de como os abusos eram uma maneira comum e violenta de se dominar uma nação, politicamente, através do uso da força bruta.

Baseado em fatos, em Agnus Dei, a enfermeira francesa Mathilde Beaulieu (Lou de Laâge), oferece ajuda a freiras polonesas que estão grávidas ou contraíram sífilis após uma série de estupros por soldados russos durante a Segunda Guerra Mundial.

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A abordagem da história é brutalmente realística. As diferentes reações de mulher para mulher tornam palpáveis questões como aborto, maternidade e castidade. Enquanto uma das freiras não quer se separar de sua criança, outra se recusa a ser examinada e a Madre Superior, por sua vez, se esforça para manter os filhos longe das mães – jogando-os até mesmo na natureza, declarando que os deixou “à mercê de Deus” para a sobrevivência.

Lou de Laâge é uma enfermeira ateia e comunista que, apesar de não possuir fé em uma força divina, “acredita no poder de mudança e em um amanhã mais feliz”, como um dos próprios trechos do filme cita. Em momento algum há deboche ou tirania de sua parte, apesar do local de onde Mathilde vem ser completamente diferente do que suas “pacientes” do convento estão acostumadas.

Há uma coerente força dicotômica que se desenvolve a partir da personagem de Mathilde. Ela é uma mulher liberta, ideologicamente e sexualmente, não está presa ao convencionalismo social e se impõe em seu trabalho de forma madura e precisa, como era raramente feito na década de 1940.

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Enquanto isso, existe uma estrutura cristã radical que predomina: a Igreja. As freiras se culpam pelos estupros, alegando terem quebrado o voto de castidade ainda que não tenham dado consentimento para os soldados. A Igreja, por sua vez, não absolve suas dores. O perdão é sempre uma falácia, visto que ainda que essas mulheres tenham sido estupradas contra a própria vontade, ainda há punições severas como solitárias e votos de silêncio. Além disso, é preciso esconder da administração o ocorrido, ou o convento será fechado por ser considerado um antro de promiscuidade aos olhos dos fiéis da época.

Até mesmo Mathilde chega a ser ataca pelos soldados quando está voltando do convento, sendo salva por um general que os impede de estuprá-la antes que conseguissem ir adiante. A cena é tão audaciosa que causa um pavor asfixiante ao seu público, tonalizando a dor e o trauma de tamanha agressão sem precisar apelar para o grafismo comercial.

Apesar de ser a personagem mais forte do filme, Mathilde é uma figura feminina sensível e que representa o viés feminista de sua diretora que tem uma atração pela criação dessa imagem empoderada de suas personas.

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A discussão acerca do abuso sexual é bem estabelecida, posicionando as mulheres no lugar de fala principal e como vítimas, não provocadoras. As figuras terem certo convênio com este pacto de castidade, reforça o fato de que a pureza ou a promiscuidade não regem o comportamento agressivo de um estuprador, muito pelo contrário: mostra esse estupro como uma forma de poder e dominação.

Na Segunda Guerra, em específico, essa violência foi utilizada para humilhar a sociedade inimiga e suas mulheres, independente de classe social, cor ou religião. O objetivo era exercer força e poder sobre seus rivais, ainda que por meio de pessoas inocentes.

Isso não se difere da atualidade. A película contextualiza-se durante um período de guerra, mas faz uma ponte com a dominação de gênero e a utilização do sexo como instrumento de poder em uma medida cronológica atemporal.

Sendo assim, o filme acerta firmemente em mostrar o comportamento machista embasado numa sociedade patriarcal que existe há eras e, em especial, ao abordar o comportamento feminino como imparcial em relação à escolha do agressor de sua vítima.

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A diretora escolhe uma paleta fria e invernosa para dar um ar de crueldade e falta de esperança, acrescendo em sua fotografia com a utilização de primeiros planos e planos gerais que envolvem o espectador na atmosfera crua de um ambiente desolado pelo caos.

Agnus Dei é uma obra franco-polonesa que se constitui em cima de suas origens mas se expande de forma inerente ao espaço físico, incluindo toda uma percepção social de diversas eras dentro de uma única estória.

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