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Análise | O Jogo da Linha em Escritores da Liberdade

Às vezes é preciso sair da zona de conforto e se entregar à realidade do outro, pra variar.

Escritores da Liberdade acompanha a professora Erin Gruwell (Hilary Swank), quando ela começa a dar aulas em uma escola de periferia dos Estados Unidos. A dificuldade em conseguir a atenção e o respeito dos jovens tem a ver não apenas com o fato dela ser jovem, mas por ser uma mulher de classe média e, principalmente, branca.

Eva Benitez durante sua poderosa declaração sobre odiar brancos, depois de ver policias matarem o seu amigo e levarem seu pai embora: “Eles fizeram isso porque podiam. E eles podiam porque eram brancos”.

A sociedade americana é conhecida pelas suas manifestações em relação a minorias, especialmente nos últimos anos. Nesse contexto, o filme mostra uma crescente relevância, pois dá visibilidade às vidas de jovens negros e negras, latinas, envolvidos com milícias, imigrantes e muitas outras nuances. Assim, o que Gruwell irá perceber é que ela precisa trabalhar com as vivências individuais não apenas para melhorar a relação da classe com ela, uma vez que ela estivesse mais próxima do seu dia-a-dia, mas também os relacionamentos entre os próprios estudantes.

É assim que Erin tem a ideia do “jogo da linha”, como ficou conhecido. A premissa é simples: ela fará algumas perguntas e, caso a resposta individual seja positiva, a pessoa se aproxima da linha, voltando depois à sua posição inicial para que outra pergunta possa ser feita.

Isso dá um aspecto sobretudo visual à interação entre eles, quando na verdade muitas coisas estão sendo “ditas”. Para isso, a cena – como outros momentos do filme – abusa dos Primeiros Planos quando se volta para os estudantes, de forma a destacar sua subjetividades em interação.

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Apesar das primeiras perguntas parecerem besteiras, como quem possui o novo álbum de Snoop Dog ou quem viu o filme da moda, Erin gradualmente passa para coisas mais pessoais. Ela escala suavemente: quantos moram em conjuntos? Quantos conhecem alguém que faz parte de uma gangue? E, quando ela chega ao ponto mais sério, ela se sente compelida a avisar, porque sabe que está num jogo de confiança com pessoas que já viram muito.

A cena leva não somente arrepios aos braços, como leva lágrimas aos olhos. É como se os alunos se enxergassem pela primeira vez, parados numa linha admitindo uns para os outros que perderam pessoas queridas para a violência das gangues. Eles estão sendo vistos dentro da escola. Dando um passo adiante, Erin fará com que eles sejam ouvidos. Ao fim da dinâmica, ela apresenta o projeto que mudará o rumo do filme: os diários individuais, o instrumento dos escritores da liberdade.

Esse arco convida algumas coisas novas para a narrativa, como a situação de vulnerabilidade dos jovens, a construção de uma intimidade entre eles e a professora, a identificação deles com a vida dos demais. Ao propor um momento de respeito para que todos falem em voz alta o nome daqueles que perdeu, Gruwell adiciona o elemento crucial da lembrança. Ela mostra, com esse gesto, que essas vidas importam e que eles serão lembrados.

O legado desse momento é enorme, pois o respeito e a paciência com que ela constrói a atividade, aliados aos resultados dela, humanizam os sujeitos centrais da produção. Sem esse arco, a trama não poderia ter se desenvolvido da mesma forma – ele traz a realidade para o palco, dando voz ao cotidiano que é costumeiramente apagado.

Dentro das tendências extremistas e discriminadoras atuais, a sensibilização própria aos sujeitos que são vítimas de diversas violências ao longo da sua vida – inclusive a violência institucional – é fulcral. Poucos filmes fazem isso como Escritores da Liberdade e, se da cena extraímos tanto, do todo extraímos muito mais.

 

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