Filmes

Crítica | O Banquete

Uma mosca desavisada passeia até ser devorada e digerida por uma planta carnívora. É nesse tom que Daniela Thomas apresenta seu filme O Banquete.

O ato de comer encarado como ato destrutivo no qual não vai restar pedra sobre pedra. É dessa maneira que o jantar que Nora (Drica Moraes) resolve fazer, em comemoração ao casamento dos amigos Mauro (Rodrigo Bolzan) e Bia (Mariana Lima), se desenrola. Seria só mais uma festa entre amigos se Mauro, editor-chefe de um jornal famoso, não estivesse em vias de ser preso, no dia seguinte, por expor as falcatruas do presidente de seu país.

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Surge aí o dado mais curioso de todos. O filme é baseado em fatos reais. O editor-chefe da Folha de São Paulo, Otavio Frias, em 1991, enviou uma carta aberta ao presidente Fernando Collor de Mello ao mesmo tempo em que vigorava a Lei de Imprensa, resquício da ditadura militar, que previa a prisão preventiva entre suas penas.

Collor viria a sofrer um processo de impeachment. Esse fato motivou, inclusive, que o filme fosse retirado da mostra competitiva, pela própria diretora, no Festival de Cinema de Gramado deste ano. Tudo devido ao luto da família de Frias, recém falecido. “O momento é inoportuno para o encontro de ficção e realidade e as possíveis interpretações equivocadas que a ficção pode suscitar” – disse Daniela Thomas em entrevista.

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Engajado em ser um “filme-cabeça”, cerebral, seu título já remete ao grande clássico homônimo da filosofia grega de Platão. Nele, se debate as várias formas do amor (eros). E, para falar disso, Daniela se utiliza de um terreno tão repisado que já se tornou um subgênero: filmes de uma só locação, onde tudo é filmado numa sala de jantar ou de estar.

A associação feita do ato de comer com os impulsos emocionais do homem como sexo ou cólera também não é nova. Muito menos as características utilizadas. Qual a solução para se destacar, então? Surpreender, inovar, é claro. A questão é que a diretora promete bastante, mas será que ela entrega o que promete?

O problema de escolher um terreno muito antes utilizado é que será exigido muito mais do filme para surpreender o público. Citando um exemplo, nós temos Roman Polansky, que em seu interessante Deus da Carnificina (2011), consegue acertar o timing com o mesmo subgênero de O Banquete.

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O primeiro problema é justamente o que torna o filme interessante e diferente dos demais, e que a diretora explora muito rasamente: a correlação com Collor. O principal ponto aprofundado por ela foi brincar com esse subgênero cult e a jogada ensaiada de sexo e traição. Mas Daniela não se arrisca. Toda a trama se concentra nas pulsões animais das personagens, no sexo, na lascívia, nas palavras picantes. Ao amor se soma o erótico, ao pornográfico. Traição e intriga. Trata-se de um jogo de máscaras e reflexos que vão sendo desfiados pela progressão dos diálogos. 

Todo esse jogo está subentendido por toda a trama e na direção de arte que abusa de taças e outros utensílios de vidro, além do imenso e literal espelho da sala como uma forma de apresentar todas as personagens e seus reflexos. E se ainda não estiver claro que as personagens usam mascaras sociais, surge uma personagem nova, a sedutora cat-woman (Bruna Linzmeyer), literalmente mascarada de mulher-gato.

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Para uma personagem referida apenas como “cat-woman” (mulher-gato) no roteiro, a atuação de Bruna é a primeira personagem feminina que convence, justamente por ser mais orgânica e menos teatral. Muito embora Bruna sempre esteja fazendo esse estereótipo de jovem sensual, não há como negar que ela sabe como fazê-lo. 

No entanto, a cat-woman poderia ter sido melhor explorada, assim como o responsável pelo buffet, Ted (Chay Sued), que é assediado por Lucky (Gustavo Machado) em alguns momentos. Ted, no início, parece atuar como alter-ego de Plínio, servindo para seu desabafo. Um potencial tristemente inexplorado, já que a personagem é, a partir daí, quase que ignorada.

Ted representa a camada baixa da sociedade, o tempo todo sendo tratado no limite da rispidez por gente esnobe. Na chegada de um colunista (Lucky), e uma crítica de jornal (Maria), um vinho caro dá o tom do poder aquisitivo dos anfitriões e das diferenças socioeconômicas entre todos. O vinho dá o pontapé inicial para todos soltarem seus bichos com muito erotismo e filosofia. Isso tudo se acelera mais ainda com a chegada da desinibida e descolada atriz, Bia (Mariana Lima).

Cenas como o vinho que escorre pela boca feito sangue, Nora que solta o cabelo ao levar uma investida de alguém que não é seu marido. Os closes do corpo. Os planos abertos com o uso do espelho e os planos fechados na hora dos diálogos à mesa. Tudo contribui para a tensão crescente tanto do ponto de vista sexual quanto do ponto de vista da situação policial de Mauro, prestes a ir em cana. Mas o tempo todo os presentes optam por ignorar a situação iminente. Ela surge apenas de forma indireta, e frustra o telespectador que via isso como o mais curioso do filme.

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As atuações de Mauro são convincentes, e Plínio, seu advogado e grande amigo, ensaia uma atuação brilhante, em dobradinha com Ted, que rende algumas risadas, mas essa atuação vai se perdendo na medida em que a a sua cara de bêbado, de quem não está prestando atenção em nada do que se diz, não convence tanto quanto pretende. 

Personagens como Helena (Georgette Fadel) parecem estar lá somente para cumprir tabela. A cat-woman também parece ter caído de paraquedas e antes de criar expectativa, já cria um desconforto só amenizado por sua atuação leve e orgânica.

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No decorrer dos diálogos, descobrimos as profissões das personagens e o ponto alto da trama: o uso da metalinguagem; a arte falando de si mesma. Daniela Thomas debate o papel do crítico de arte e cinema, como um dos assuntos mais marcantes. A personagem Maria (Fabiana Gugli), retratada como neurótica, se presta bem a esse papel. Seria O Banquete um filme mais para críticos do que para o público-geral? Seria este um recado, uma indireta?

O Banquete pode ser visto como um filme cult genérico. Utilizando-se de bons recursos na narrativa, mas sem explorar as suas melhores atuações, e menos ainda os fatos curiosos que poderiam se tornar o diferencial entre os filmes de mesmo gênero.
Abaixo, o trailer:

 

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