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A Virtualidade Real em Jogador Nº 1

Tem gente que ainda acha que Jogador Número 1 é um filme de ficção. Se você é um deles, talvez esse artigo te faça mudar de ideia.

O dispositivo pode até ser chamado de “realidade virtual”, mas quem nos garante que o virtual é lá e o real é cá? Interessante questionamento, não?

Platão já divagava sobre isso no século IV a.C., em seu seu livro intitulado A República. Nele, o filósofo abre um debate sobre virtualidade e materialismo, considerando a possibilidade de existir outra dimensão mais verdadeira do que a nossa, em que as barreiras parecem translúcidas, tanto para a matéria orgânica, quanto para nossos pensamentos comumente aquietados pelas leis morais e de convivência.

Nesse outro mundo – ou dimensão -, não há qualquer impedimento moral, pois não há morte ou destruição da matéria e, portanto, não há medo. Dessa maneira,  absolutamente tudo é permitido e a liberdade torna-se quase palpável.

Quando Platão fala desse mundo habitado por consciências fora de um corpo material, ele fala sobre o verdadeiro “eu”, isento de barreiras; o “eu” movido por impulsos verdadeiros, descontrolados, instintivos.

No OASIS, universo de gamers em Jogador Número 1, existe uma única e inquebrável regra: ninguém pode revelar sua identidade do mundo material. No OASIS, a maneira como o avatar se apresenta, tanto física quanto moralmente, pode ser alterada infinitas vezes, sem o menor problema – no mundo material, sabemos que é um pouco diferente.

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Pessoas precisam conviver com fantasmas emocionais, aceitá-los e confrontá-los. Mas grande parte dos jogadores do OASIS tem vergonha de mostrar esses fantasmas, ou talvez medo de serem julgados, disso interferir na maneira que são tratados. Esse é um jogo no qual você escolhe etnia, gênero, altura, personalidade…

A possibilidade de escolha atua como um “novo nascimento”. Trocando em miúdos, a criação de um avatar no OASIS traz certo alívio àqueles que não se identificam com o corpo material que receberam, ou com o grupo social cujo convívio lhes foi imposto.

Descobrir a identidade de alguém fora do OASIS é retornar ao papel que lhe deram para encenar no mundo material. Portanto, aquele que quebrar a regra é expulso do jogo friamente, pois a falta é tratada como crime de pena máxima. Todo o princípio do jogo é justamente o anonimato, a falsa segurança blindada através de um avatar. O problema surge quando nos damos conta de que essas plataformas digitais são geridas por seres humanos, dotados de individualidade e interesses pessoais.

Existe hoje, no nosso mundo, uma sociedade digital estruturada, com suas políticas de privacidade, sistemas financeiros (bitcoins, por exemplo), profissões e cargos de liderança. No OASIS, esse sistema inicia-se no digital e parte para o material, quando é aqui fora que os jogadores se endividam, são hipotecados, desalojados da própria casa,  ou mesmo se suicidam quando perdem tudo que conquistaram.

Ganhar dinheiro no OASIS é literalmente mais fácil do que no mundo material. É um sistema todo baseado em esforço e meritocracia, desconsiderando as fragilidades orgânicas de cada um. Se, no OASIS, é o jogador quem escolhe como se apresenta, o sucesso é inteiramente dele em condições quase justas.

O problema acontece nessa casadinha digital-material, quando o jogador não tem condições físicas, psicológicas ou emocionais para manter aquela vida digital alimentada por sua força de trabalho do mundo material. As compras são verdadeiras, as leis são verdadeiras. E é este o mote que conduz Jogador Número 1 em sua trama principal: todos os jogadores querem vencer o desafio para tornar-se o novo dono do OASIS, desfrutando de todas as riquezas e benefícios. É como ganhar a Presidência da República.

Se, por um lado, podemos encarar Jogador Número 1 como um filme sobre o universo contemporâneo dos games, por outro enxergaremos a verdadeira realidade que nós vivemos, o mundo das ideias, como Platão nomeou. E, se você ainda não se deu por vencido, tente participar de algum desses jogos interativos de RPG online com os óculos de realidade virtual; ou, como deveria melhor ser chamado, virtualidade real.

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