Filmes

Crítica | O Predador

O Predador honra seus predecessores e garante diversão fácil entre piadas metalinguísticas e o politicamente incorreto.

Em 1987,  John McTiernan dirigiu um dos mais importantes filmes de ficção científica da década, contando a história de um grupo de soldados que cumpriam uma missão imersos numa selva da América Central, e que acabam por dar de cara com um alienígena invasor que caça seres humanos com fins recreativos. O filme marca a aparição de um dos monstros mais emblemáticos do cinema e que voltaria para nos caçar em mais duas continuações e mais dois crossovers, que os terráqueos escolheram chamar  carinhosamente de O Predador.

Em 2018, um dos atores que atuou como soldado, combatendo o monstro alienígena no clássico oitentista – e, desta vez, promovido à cadeira de diretor -, nos traz um quarto confronto com os caçadores de outro planeta, contando a história de Rory Mckenna (Jacob Tremblay), criança autista e filho único do soldado Quinn Mckenna (Boyd Holbrook), que recebe de seu pai, pelo correio, um artefato alienígena e, com isso, usa sua excepcional inteligência para enviar uma mensagem ao espaço. A mensagem, contudo, acaba por fazer com que uma nova espécie de predador venha à Terra para uma nova temporada de caça.

O mais novo filme da franquia, O Predador (2018), chega aos cinemas sob a direção de Shane Black, que fez o papel do Sargento Hawkins no primeiro filme, ao lado de Arnold Schwarzenegger. No roteiro, além do próprio Shane, temos Fred Dekker, com quem o diretor já havia trabalhado em Deu a Louca Nos Monstros (1987), colocando palavras na boca de um elenco prático e funcional para um filme que dispensa enredos secundários aprofundados e faz bom uso da estereotipação.

Nebraska Williams (Trevante Rhodes), Coyle (Keegan-Michael Key), Baxley (Thomas Jane), Lynch (Alfie Allen), Nettles (Augusto Aguilera) são um grupo de soldados loucos que fogem com a ajuda da cientista Casey Bracket (Olivia Munn) e com a qual acabam por compor uma equipe de combate que sedimenta a pilhéria e a ironia como principal idioma nos momentos mais inoportunos.

O filme, contudo, supera com louvor qualquer má expectativa de uma continuação estéril, trazendo não apenas uma direção extremamente eficiente na reciclagem do clima da década de nascimento da franquia, mas um roteiro costurado com excelente aproveitamento de oportunidades para inserção de referências dos anos 80.  

Mesmo com o uso inveterado de clichês – como as piadas de militares durões, o garoto autista com inteligência reveladora ou um grupo com heróis com personalidades que se definem por suas manias – os mesmos não arranham em nada a condução do filme e o respeito às tensões necessárias, fazendo, inclusive, lembrar a harmonia eficaz entre humor, mistério e ação que o mesmo diretor alcançou como roteirista em Máquina Mortífera (1987). 

Apesar de ter sido a primeira ideia, no começo de sua produção, O Predador se afasta de qualquer possibilidade de reboot da franquia e aposta na reconexão com os filmes anteriores, desde a repetição da arte que ilustra o filme e sua tecnologia ultra avançada até ligações familiares entre personagens deste e de um dos filmes anteriores, passando por piadas de metalinguagem sobre a denominação do vilão e referências aos eventos mostrados nos filmes anteriores.

Além do diretor ter atuado no primeiro filme da quadrilogia, esta não é a única conexão com as histórias anteriores. O segundo filme da saga, O Predador 2 (1990), apresenta um tenente da polícia que acaba seguindo os rastros de morte deixados pelo alienígena, mas que precisa, ainda, lidar com a ostensiva vigilância de um tal Agente Federal chamado Peter Keys (Gary Busey), que reivindica para si todas as informações do caso, deixando escapar, assim, que o Governo Americano já tinha conhecimento da presença alienígena no nosso planeta (provavelmente por conta da ocorrência retratada no primeiro filme). No miolo dessa nova história, o filho do Agente Peter cresceu e se tornou o Dr. Keys, um dos responsáveis pelo setor de pesquisa do Exército… e que é interpretado por Jake Busey, filho do ator que interpretou o Agente Keys.

Esses cordões umbilicais e essa fidelidade ao estilo de linguagem da década de nascimento da saga não poderiam deixar de remeter a piadas e falas que, conforme o ambiente oitentista, flertam com o politicamente incorreto e mantém o gore (leia-se: corpos eviscerados e vestígios de amputação) que fez do primeiro filme uma experiência docemente aterradora para os jovens da época. 

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O destaque fica para o roteiro, ao mostrar com excelência como conferir humor a uma narrativa sem degenerar o clima denso necessário para sustentar o magnetismo de sua história e como reinventar velhos clichês sem parecer desgastado. O roteiro ainda cumpre a função de ajudar a tornar os pequenos tropeços da edição quase imperceptíveis.

Apesar de não figurar entre as grandes obras da sétima arte, a continuação do Predador se mostrou um belíssimo exemplo de coesão dentro de uma franquia com respeito aos detalhes e falas construídas com exímio rigor de aplicação, o que resultou numa experiência que vai aviventar sensações nostálgicas nos fãs mais velhos e que acompanham o extraterrestre de dreadlocks desde sua primeira aparição sem deixar de ser convidativo para que a plateia que o verá pela primeira vez.

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