Séries

Crítica | Las Chicas del Cable – 3ª temporada

Se você já se cansou de ver Lidia isolada, Lidia incompreendida e Lidia mentindo, eu tenho uma má notícia.

A terceira temporada da série espanhola foi muito esperada por conta do final arrebatador da anterior – que se repete agora, também -, mas as primeiras sequências passaram pelos problemas aos quais nos apegamos durante o intervalo com deliberada pressa, para que pudesse se iniciar o novo arco da estória.

[ALERTA DE SPOILER]

O primeiro episódio usa essa pressa como uma ferramenta para o mistério; assim, temos um salto temporal de 6 meses direto para o casamento entre Lidia (Blanca Suárez) e Carlos (Martiño Rivas). Quando a Igreja sofre um incêndio, os caminhos da trama mudarão completamente. A grande problemática é que a filha do casal, Eva, não será encontrada e, apesar de Carlos estar tentando lidar com a perda, Lidia se recusa a acreditar que ela tenha morrido. Como o espectador já sabe, ela não para até que tenha o que quer e, nesse momento, essa determinação está mais intensa que nunca. A personagem irá do topo ao fundo do poço, guiada por Suárez, que o faz de forma densa e sofrida.

Lidia está, mais uma vez, obstinada e voltada para seus próprios problemas, enquanto a vida das suas amigas também desmorona à sua volta; nada além da sua motivação é novo. Não obstante, Blanca consegue convencer mesmo assim, tendo, ao mesmo tempo, seu lado materno desenvolvido e sua consciência despertada para a necessidade da lealdade às telefonistas.

O triângulo amoroso entre Lidia, seu esposo e seu primeiro amor, Francisco (Yon González), deixa de ser prioridade, e isso se reflete no espaço narrativo dos dois homens. A construção é feita pela metade e, infelizmente, subaproveitada. Francisco, nesse sentido, sofreu menos cortes, pois foi capaz de trazer algo a mais com o seu bar White Lady e com a introdução de uma coadjuvante em sua vida, embora os fãs do “time Francisco” fiquem profundamente desapontados com esse final de temporada.

É importante compreender que a visibilidade de gênero é central em Las Chicas del Cable e, em parte, isso explica por que as figuras masculinas foram deixadas de lado; mas, definitivamente, não precisava tanto. O roteiro dá nova voz a Carlota (Ana Fernández García), que passa por um momento chave na sua luta política. De qualquer maneira, seria interessante ver a personagem se desgarrar da fórmula de “dinheiro resolve tudo”, só para variar. Ela também sofre um sério ataque, o que demostra a resistência da sociedade dos anos 30 às ideias de sufrágio e emancipação feminina. Outras vozes, no entanto, mereciam mais.

As continuidades foram usadas para manter a trama no espaço de conforto. É certamente decepcionante ver Ángeles à merce de homens mais uma vez, mas fica pior quando Óscar, que mal conseguia se olhar, desaparece dentro de Sara. Claro que os novos desafios da temporada precisam contar com um andamento firme, mas uma boa consistência é importante para manter a evolução das personagens.

A montagem das cenas nos primeiros episódios é muito mecânica e teatricalizada, quase engessada; elas começam e terminam praticamente sem que alguém se mexa, como se a única opção fosse o grande X embaixo dos seus pés. Essa rigidez pode estar associada à escolha por cenas curtas e ritmo acelerado, mas, de qualquer forma, isso não chega a prejudicar a série, pois, ao longo da trama, essa sensação é deixada para trás e os momentos se tornam mais naturais.

Uma engrenagem de bom funcionamento, como de costume, é o arco de Marga (Nadia de Santiago), que, inclusive, traz o único coadjuvante bem desenvolvido da terceira temporada. A chegada do irmão gêmeo de Pablo (Nico Romero), Julio (mesmo ator), é uma fonte de boas reviravoltas e confusões que deixam o espectador – talvez – levemente revoltado. Mas é de uma forma boa, porque, mesmo sendo o típico vida mansa, Julio possui claras qualidades e é uma pessoa cativante.

Santiago construiu uma personagem inesquecível, não apenas pelo jeito tímido do interior, que pode até mesmo ser um clichê, mas pela bondade e lealdade que expressa, sem deixar de lado um viés de comédia que acompanha o jeito nervoso de Marga. Outro sucesso foi a alfinetada das suas habilidades como contadora, para mostrar que, não importa o quão inteligente e qualificada, a mulher custa a ser reconhecida.

las chicas

A resultante do momento final dirá muito sobre o futuro da série. Francisco morrerá? É quase como perguntar: “A série vai continuar tomando os caminhos fáceis?”. Seria certamente mais conveniente poder afastar Lidia de alguém que está morto, ao invés de lidar com o fato de que ela superou seu amor de infância.

Mesmo com as falhas por conveniência, Las Chicas del Cable não deixa de ser um espaço importante de visibilidade, no qual as mulheres lideram a trama com maestria. Além disso, é uma produção que traz conteúdo histórico, dramático, político e de comédia, tudo dividido em boas doses. Ficamos no aguardo pela quarta temporada, e pelas respostas das perguntas que essa deixou no ar.

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