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Joan não teve medo em O Sorriso de Mona Lisa

Retirar a coragem da personagem por causa de uma escolha que pode parecer menos progressista é uma falha em compreender o que é o feminismo.

A narrativa de O Sorriso de Mona Lisa traz um embate entre o que era socialmente estabelecido para as mulheres nos anos 50 e o que estava sendo construído em termos de problematização dos papéis de gênero, movimento incorporado pela professora Katherine Watson (Julia Roberts).

Nesse ínterim, Joan Brandwyn (Julia Stiles) é uma brilhante aluna, prestes a ficar noiva e realizar o papel para o qual a Wellesley College a prepara: esposa e dona de casa. O arco dela se desenvolve quando Watson descobre seu desejo secreto se tornar advogada e a encoraja a se inscrever em Yale, faculdade da prestigiosa Ivy League, na qual ela consegue a pré-aprovação.

Ao fim da sua jornada, entretanto, Joan escolhe se dedicar ao seu casamento e ir com o seu esposo para a cidade onde ele fará faculdade. Esse momento pode ser revoltante para muitos espectadores. A Ivy League é o sonho de muitas pessoas e, naquela época, era frequentada majoritariamente por homens. Ela teve a oportunidade, mas passou. Por quê? É aqui que as colunas sobre o filme começam a falar uma ou duas sutilezas sobre algumas não terem coragem de romper com o sistema, principalmente em comparação com Betty Waren (Kirsten Dunst), que decide sair de casa e acabar com o seu casamento falido.

O primeiro erro nisso está em que as situações das duas são completamente diferentes, além de serem utilizadas com propósitos narrativos diferentes. As especificidades nas vidas das mulheres importam, por isso teremos o feminismo interseccional atuando para trazer as demandas das mulheres negras. Apesar de não atuar com essa diversidade mais séria, o filme também mostra as diversas mulheres de Wellesley com realidades completamente diferentes. Mas esse não é o único problema, nem o mais sério.

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É incorreto tentar transpor, de forma anacrônica, noções que as mulheres só passaram a ter com o desenvolvimento dos movimentos sociais. A socialização feminina aconteceu, durante muito tempo, envolta por esse senso de papéis pré-determinados e bem definidos. A linha não era nem um pouco tênue como é hoje; era perfeitamente identificável. Assim, Joan cresceu com um sonho que estava mais próximo do que nunca, o de formar uma família, e o senso de desestabilização que a jornada dupla estudos-casa traria não poderia ser bem recebido.

Esse foi um grande golpe para Katherine, pois ela não tinha cogitado a possibilidade de que notar, pela primeira vez, novas possibilidades para o seu futuro não fosse suficiente para derrubar essa construção social minuciosa. E, de fato, não poderia. A questão não é trazer uma “grande liberação”, mas sim fazer com que seja possível se libertar, caso todo o sistema tenha enterrado suas verdadeiras paixões. A informação permite que as perspectivas do futuro sejam renovadas e que as atuais sejam genuínas.

O ponto em comum nas histórias de Joan e Betty, portanto, é que Watson entregou os instrumentos para que elas pudessem fazer as suas escolhas de acordo com o que verdadeiramente queriam. Betty queria ser feliz e jamais conseguiria isso com um homem que não a amava, numa vida de decepções; Joan amava estudar, mas amava ainda mais a possibilidade de construir sua própria família, com a qual ela sonhou a vida toda.

Uma parte crucial do roteiro de O Sorriso de Mona Lisa é que ele faz isso através da arte, ressignificando essas duas esferas ao mesmo tempo. Como Joan disse, Watson desejava que ela escolhesse o que realmente queria; e foi o que ela fez.

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