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A desconstrução da masculinidade tóxica em Orgulho e Paixão

Orgulho e Paixão (2018) foi a primeira novela das seis a trazer a homossexualidade como um de seus focos narrativos, o que acabou proporcionando a desconstrução da masculinidade tóxica de uma de suas personagens.

As novelas das seis são conhecidas nacionalmente pelas suas narrativas de época. Grande parte das produções transmitidas neste horário abordam situações vivenciais do século XIX ou XX e com Orgulho e Paixão não foi diferente. A história se passa na década de 10 do século XX e foi claramente uma adaptação de algumas obras da autora inglesa Jane Austen.

Assim, a produção acaba trazendo a discussão de vários temas importantíssimos que as novelas de época insistiam em não falar a respeito. Obviamente que uma destas discussões ocorreu através das vias da personagem de Pedro Henrique Müller, principalmente pela maneira através da qual o autor Marcos Bernstein desenvolveu a construção de Müller na história.

A masculinidade toxica é um fenômeno social vigente até hoje e se caracteriza por uma ideia de que os homens não devem chorar e nem ao menos mostrar afeto; basicamente, suas atitudes devem estar sempre impregnadas por atos de violência. Este fenômeno repudia qualquer ato masculino que fuja do machismo, da misoginia e da sociedade patriarcal, e por isso, afeta tanto homens quanto as mulheres.  

Otávio Mastronelli (Pedro Henrique Müller) era a típica personificação da masculinidade tóxica, mas muitas de suas atitudes eram explicadas pelo medo que sentia de seus companheiros de quartel descobrirem os seus desejos mais profundos. No entanto, esses aspectos não eram para aparecer de forma clara na narrativa, pois o primeiro intuito de Bernstein foi de trazer a personagem com uma comicidade irritante. O foco narrativo de Otávio era puramente o da comédia, de seguir os padrões de uma masculinidade que, surpreendentemente, se rege até os dias de hoje.

O Capitão Otávio faz de tudo, inclusive flertar com Lidia Benedito (Bruna Griphão), para manter a sua pose de homem hétero. A personagem de Pedro foi, por grande parte da narrativa, um cretino, mesmo que algumas cenas se tornassem as mais engraçadas possíveis. Ele observava o comportamento de seus colegas no quartel e os repetia com maestria, principalmente pela sua insegurança e sua obsessão pela maneira como as pessoas o veem.

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Quando Otávio começa a se aproximar de Luccino Pricelli (Juliano Laham), primeiramente isso se dá pelo desejo dele de fugir de Lidia, a qual tinha se tornado sua noiva; porém, ele começa a se afeiçoar pelo mecânico e passa a visitá-lo mais vezes com a desculpa de querer algumas aulas de direção. Luccino, de uma certa maneira, acaba despertando os desejos inconscientes de Otávio, fazendo com que a personagem entre em um conflito, ou, como ele mesmo chama, uma revolução, a revolução da descoberta da sua sexualidade, pois ele passa a entender com mais clareza tudo o que ele deseja.

Como esperado, esse processo de descoberta foi duro e sofrido, pois a personagem de Pedro nega e tenta se afastar de Laham a qualquer custo, mesmo que, por causa de ciúmes de Pricelli, ele não consiga fazer isso. A brilhante atuação de Pedro Henrique Müller conseguiu passar todos estes sentimentos de confusão, de sofrimento e de descobertas inconscientes. Ele nos leva por caminhos dourados com a sua interpretação, mostrando brilhantemente o processo lento, porém magnífico de Otávio.

O Capitão Otávio passa de um cretino, um homem cheio de inseguranças, para um homem mais maduro e que não tem medo do que sente. O Otávio Mastronelli que nos é apresentado após a desconstrução da masculinidade tóxica que lhe era imposta é outra pessoa, uma que não sente vergonha de demonstrar o seu lado afetivo e sentimental e que faz de tudo para proteger os amigos.

Ele se apaixona por Luccino e, quanto mais os dois ficam próximos, mais ele se fortalece, até que, finalmente, passa a não ter vergonha de quem ele é, nem medo de ter se apaixonado. O processo de aceitação ainda caminha lado a lado com as inseguranças, mas elas não estão mais ligadas pela via do medo dos que os outros irão pensar, e sim pelo fato de nunca ter sentido algo tão forte por alguém e, por isso, não saber o que fazer em determinados momentos.

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Orgulho e Paixão trouxe um desenvolvimento magnífico da personagem e um processo de construção de excelência entre Otávio e Luccino; tão destacados que a novela, finalizada no último dia 25, ganhou uma proporção gigantesca internacionalmente.

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