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Doctor Who e o Protagonismo Feminino

Depois de muito esperar – precisamente 12 regenerações, todas elas vividas por homens -, Jodie Whittaker se torna a primeira mulher protagonista em Doctor Who.

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Sabemos que há décadas as mulheres vêm buscando igualdade entre os gêneros, buscando seu lugar na sociedade, e isso não difere quando falamos das produções televisivas. Ao longo dos anos, atrizes vieram ganhando espaço nas produções de TV e começaram a se tornar símbolos de representatividade para uma sociedade que ainda é machista e misógina. É nesse ponto que, após 50 anos de história, a escolha de Jodie Whittaker (Broadchurch, 2013-2017) como a primeira protagonista de Doctor Who se torna um dos marcos da televisão mundial.

Quando Peter Capaldi anunciou que a temporada 2017 de Doctor Who seria a sua última como protagonista, os fãs da série britânica viveram um misto de emoções: tristeza por terem que dar adeus a um dos Doctors mais queridos e ansiedade por não saber quem iria ser o escolhido para viver uma das personagens mais icônicas da televisão. Junto com a saída de Capaldi, tivemos também a troca do showrunner da série, com a saída de Steven Moffat – que comandava a série desde 2010 – o escolhido da vez foi o roteirista inglês Chris Chibnall. Essas mudanças da produção e elenco da série – além das transformações vividas pela nossa sociedade, principalmente nos últimos anos – foram cruciais para a escolha de Whittaker como a nova protagonista.

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Após o anúncio de Jodie como o novo Doctor, os fãs acabaram se dividindo em dois grupos: os que ficaram felizes com a escolha – a qual foi feita pelo próprio Chibnall – e os que não concordaram e até hoje não aceitam ver uma mulher como protagonista da série. O que muitos não lembram é que o próprio Doctor – um alienígena que, para escapar da morte, usa a regeneração, através da qual pode assumir um novo corpo e uma nova personalidade – já tinha deixado pistas de que, em algum momento da série, poderíamos vê-lo regenerando em um corpo feminino. Além disso, a série sempre deixou bem claro que o nosso querido Doutor não está enquadrado em um gênero específico e por isso ao regenerar ele pode se tornar qualquer pessoa, de qualquer gênero. Porém, a estranheza de alguns fãs ao ver uma mulher o interpretando, e isso vamos abordar mais a frente, se deve ao fato de ao longo de todos os anos que a série está no ar nunca vimos uma atriz sendo escalada para o papel.

[ALERTA DE SPOILER]

Uma das primeiras pistas que a série nos deu sobre vermos uma mulher como Senhor do Tempo – Time Lord como escrito originalmente – foi no episódio The End Of Time: Part Two, após o 10th Doctor (David Tennant) regenerar para a sua décima primeira encarnação,vivida pelo ator Matt Smith. Na cena, antes de ver sua nova forma, sua nova aparência, ele se questiona se teria regenerado em um corpo de mulher. Apesar de sabermos que um Time Lord – raça alienígena do Doctor – pode mudar para qualquer forma, é a primeira vez que a série atual evidenciou essa possibilidade e foi a partir desse ponto que alguns fãs começaram a se questionar quando veríamos uma mulher assumindo o protagonismo da série.

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Com isso, não demoraria muito para que a BBC e os produtores de Doctor Who começassem a pensar na possibilidade de mostrar um Time Lord regenerando em um corpo feminino. Na oitava temporada, no episódio Dark Water, somos apresentados a Missy (Michelle Gomez) – uma das vilãs mais queridas da série –, que, no decorrer da história, revela ser o Master, um Time Lord arqui-inimigo do Doctor, o qual regenerou em um corpo de mulher para fugir da morte ao ser derrotado pelo Doctor também no episódio The End Of Time: Part Two.

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Todas essas pistas deixadas ao longo das 10 temporadas da série e a mudança da direção foram cruciais para a escolha de Whittaker como o novo Doctor. Além disso, ter uma mulher como protagonista foi uma exigência do novo de Chris Chibnall. Em comunicado na época, ele disse:

“Eu sabia que queria a primeira Doctor mulher. Fico feliz que conseguimos nossa primeira opção. Jodie Whittaker nos impressionou muito em seu teste de elenco, ela é verdadeiramente fantástica.”

A escolha de Whittaker em uma série que, desde 1963, nunca tinha dado esse espaço a uma mulher é de extrema importância, não só pelo papel social mas também pela sua representatividade. Muitas meninas, adolescentes e mulheres que sempre assistiram Doctor Who e nunca se sentiram representadas pois sempre viam na televisão seu personagem principal sendo representado apenas por homens brancos vão poder, agora, se sentir mais próximas da produção e vão conseguir se enxergar na tela – o que, em uma sociedade que está longe de ser igualitária, é de extrema importância.

Além da representatividade, a entrada de Jodie fará com que a série se torne mais inclusiva e irá trazer um ar mais atual e diverso para uma produção que sempre passou a mensagem de que todos são iguais, independente de raça, gênero, religião ou opção sexual, mas nunca teve atores de etnias diferentes, negros ou mulheres como protagonistas . Mesmo que essa mudança não tenha sido vista como positiva para uma parcela dos fãs, Doctor Who precisa, por ser uma série com tanto destaque na TV e na mídia, mostrar o quão importante é a diversidade e que não é porque o Doctor regenerou em uma mulher que sua essência e princípios vão mudar.

Em entrevista à Variety, Jodie disse:

“Estamos em 2018. As mulheres não são um gênero. Somos a outra metade da população, então nos ver como protagonistas não deveria ser uma surpresa […] É um grande momento e ser parte dele me deixa orgulhosa. Mas mal posso esperar pelo tempo em que isso deixará de ser uma novidade, pelo tempo em que uma atriz aspirante irá à escola de teatro aos 18 anos sem precisar pensar que não existem papéis para ela”.

E é exatamente isso o esperado da sua chegada a Doctor Who: que sua escolha como protagonista de uma das séries mais influentes da televisão sirva como inspiração para que todas as mulheres, de todas as idades, se enxerguem e se sintam representadas, mostrando que elas podem ser o que quiserem.

Podemos enxergar esse passo dado pela BBC e por Chris Chibnall ao contratar Jodie como um reflexo não só das conquistas femininas na sociedade, mas também no entretenimento, trazendo novos caminhos a serem seguidos pela série e novas possibilidades, criadas pelo novo showrunner, que só irão acrescentar – e muito – ao mundo whovian. Essas mudanças, além de necessárias pelo momento social que vivemos, serão de extrema importância para a produção, já que elas, além de trazerem um novo ar para a série, também irão trazer novos fãs e espectadores para Doctor Who.

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A 11ª temporada de Doctor Who estreia mundialmente no dia 07 de outubro. No Brasil, a série será transmitida pelo serviço de streaming Crackle, da Sony, e o primeiro episódio, The Woman Who Fell to Earth, será transmitido em diversos cinemas do Brasil. Confira o trailer da temporada:

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