Duas Elizabeths: a representação das soberanas do Reino Unido

As diferenças refletidas na cinematografia podem gerar importantes interpretações desses reinados, bem como dos momentos históricos em que aconteceram.

Elizabeth (1998) e The Crown (2016-) lidam com reinados de mulheres fortes no Reino Unido, respectivamente Elizabeth I e Elizabeth II. Enquanto representações de soberanas cujos governos e representação vão além de sua nacionalidade e seu tempo, obras de caráter cinematográfico são interessantes fontes da interpretação histórica e de paralelos a serem apontados.

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Elizabeth, de 1998, abarca o período de transição do governo da Rainha Maria I para o governo de Elizabeth I (Cate Blacnhett), permeado por grande instabilidade e fortes ideais religiosos, presentes à época em toda a Europa devido à Reforma Protestante iniciada por Lutero. Nesse ínterim, contribui uma forte pressão e expectativa ocorre no sentido de casar a Rainha Elizabeth como forma de garantir a soberania e unidade britânicas.

A série The Crown, por outro lado, traz a recente perspectiva histórica da morte de George VI e a consequente ascensão ao trono de Elizabeth II (Claire Foy). Entre tramas de poder num Reino Unido cujo governo não obedece mais ao formato daquele no qual Elizabeth I reinou – a Revolução Gloriosa, que ocorre mais de 50 anos após sua morte, transforma a monarquia britânica no modelo parlamentarista –, há consideráveis discrepâncias entre as personalidades envolvidas.

Um importante paralelo é a questão da legitimidade dos governos analisados. Elizabeth I teve uma incansável oposição à sua chegada ao poder, inclusive por parte da Rainha Maria I, utilizada no viés de desmoralização pela origem “bastarda” e pela sua “heresia”, que foram significadas como sintomas de uma suposta incapacidade a governar. Notadamente, mesmo após se tornar Rainha tramas foram tecidas para depô-la de imediato. Outro aspecto importante foi o clima de fervorosa contestação religiosa, que assolava a Europa e produziu uma radical resposta católica. Essa, como de costume, buscou influenciar a esfera governamental e impedir que mais um domínio fosse perdido enquanto oficialmente sob a égide da Igreja e do Papa.

Em disparidade a esse cenário, a transição que levou ao governo de Elizabeth II foi, comparativamente, fluida. A legitimidade não foi contestada e ela foi procurada como figura de reafirmação do caráter sólido do Estado perante o povo, vista a representatividade que a Coroa possui até hoje no Reino Unido. A série, entretanto, vai tratar de um problema semelhante ao que foi visto no filme, ao minuciar as articulações que procuraram depor o Primeiro Ministro, Winston Churchill. Apesar de grande popularidade inicial e de ter liderado o país através de crises sem precedentes na história britânica, ele é visto como um “velho” que se atém ao poder através de quaisquer meios, mesmo que já não compreenda quais são as necessidades e prioridades do Estado.

Ao retratar o posicionamento pessoal em relação à chegada ao poder, é notável que o filme traz uma Elizabeth forte e certa de suas convicções, que não prometeria à irmã defender o catolicismo mesmo que isso a dissuadisse de ser sua inimiga; não há espaço para se curvar a algo que não irá, de fato, acrescentar ao seu reinado. O mesmo é feito em relação à política matrimonial.

Fortemente aconselhada a se casar, vistas a instabilidade interna e a quantidade de inimigos que faria se isolada, Elizabeth I consente em procurar um candidato que se mostrasse apto a proteger o seu Reino, ainda que já apaixonada por outro homem – vale salientar que a perspectiva da obra de um relacionamento romântico é, ainda hoje, apenas uma possibilidade, pois o que se sabe é que ela tinha um claro favoritismo pelo Conde Robert em sua corte, e nada mais. Não obstante, os homens de importantes títulos que aparecem em seu país para lhe pedir a mão são menos que adequados em sua visão e ela decide não se casar. Há, nesse momento, uma escolha pela independência e uma certeza de autossuficiência nítidas.

Por outro lado, Elizabeth II tem uma resposta diferente a tais questões. Há uma hesitação em tomar o poder, uma constante busca por aconselhamento e até mesmo um momento no qual ela admite desejar uma outra vida, mais “simples”, como mulher e mãe. Esse é um ponto absoluto na vida de Elizabeth antes de subir ao trono. Seu relacionamento com seu marido, Philip (Matt Smith), duque de Edimburgo, é sinal de como ela estava encaixada aos moldes de seu tempo. Os desejos dele eram automaticamente os seus e o duque tinha consciência da influência que tinha sobre ela, certamente desejando por um espaço político que não possuía e não teria sequer direito constitucional de exercer.

Ela procura sempre manter a relação em harmonia, até que sua cautela – que a leva sempre a pedir os conselhos daqueles que conviveram com o governo de seu pai – e seu senso de dever enquanto soberana começam a cobrar ações que não serão tão harmônicas assim. Essa cautela inicial em muito se contrasta com a representação do início do governo de Elizabeth I no filme – que, entretanto, foi obrigado pelas circunstâncias a ser mais urgente e enfático.

Tanto o filme quanto a série apresentam significações às personagens que são passíveis de interpretação em seus contextos e realidades históricas. As comparações e ressalvas a serem feitas devem sempre levá-los em consideração. A saber, a dúvida de Elizabeth II quanto aos seus limites como Chefe de Estado é única, pois Elizabeth I não viveu sob o parlamentarismo e, portanto, teve total controle do governo, sem ter de lidar com os mesmos dilemas.

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