Séries

Análise | As mulheres de Orgulho e Paixão

As mulheres de Orgulho e Paixão (2018) possuem uma carga narrativa eletrizante. Cada uma delas traz consigo uma força e uma determinação de lutar por aquilo que deseja, o que acabou atraindo a nossa atenção e admiração.

Orgulho e Paixão foi uma adaptação das literaturas clássicas da autora britânica Jane Austen, que sempre trouxe em suas obras uma leitura social do papel da mulher na sociedade: seja em Orgulho e Preconceito, onde ela faz uma crítica à forma como a sociedade enxergava a mulher no século XIX; seja em Emma, onde ela desenha um retrato social da mulher neste mesmo século. O autor Marcos Bernstein também trouxe como foco principal a mulher, e não apenas as mulheres que seguiam os padrões sociais impostos a elas, mas, principalmente, aquelas que lutavam em prol do que queriam.

As cinco irmãs Benedito, por exemplo, eram totalmente diferentes entre si, cada uma com seus sonhos, seus pensamentos. A mais velha das irmãs, Elisabeta (Nathalia Dill), não queria casar antes de descobrir o mundo; ela queria sair da casa dos pais e trabalhar, ou, como a mesma dizia, conquistar o mundo. E, mesmo que tenha encontrado o amor verdadeiro nos braços de Darcy (Thiago Lacerda), esses sonhos não morreram.

Elisabeta é uma representação fantástica da mulher que deseja trabalhar, que não quer de forma alguma depender de homem algum e, de uma certa maneira, ela acabou influenciando suas irmãs mais novas. Não foi à toa que a personagem foi inspirada na clássica personagem de Jane, Elizabeth Bennet; pois, assim como ela, Benedito também faz críticas à maneira como a sociedade enxerga a mulher no século XX, de forma que Elisabeta não tem medo de dizer o que pensa e nem abaixa a cabeça a ninguém.

Já em relação a Jane Benedito (Pâmela Tomé), ela é um pouco diferente da sua irmã mais velha, pois o seu sonho é se casar e ter filhos. Ela é apresentada como uma mulher doce, a qual nunca conseguiria fazer mal a ninguém e muito menos falar o que pensa, em muito por medo de magoar alguém. Jane é, assim, a representação perfeita das mulheres que desejam casar e viver para os seus filhos e marido.

Junto a isso, é mostrado que não existe problema nenhum em desejar essa vida, desde que esses desejos não sejam transformados em uma imposição. Mesmo que a jovem amadureça muito ao longo da trama, ela não deixa de seguir os seus sonhos do casamento e de ser mãe. Ao mesmo tempo, passa a perceber que não há problema nenhum em trabalhar; começa a entender, também, que o trabalho não a impedirá de ser mãe e esposa, e que é possível ter equilíbrio.

A linha narrativa da terceira irmã, Mariana Benedito (Chandelly Braz), é montada através da linha da aventura, do perigo: ela vive por uma boa adrenalina e não tem medo de trilhar estes caminhos eletrizantes. Ela aprende a andar de motocicleta, por exemplo, em um período no qual mulheres realizarem tais atos não poderia ser visto com bons olhos. No entanto, em nenhum momento ela abaixa a cabeça, fazendo de tudo para poder correr nas competições de motocicleta, inclusive vestir-se de homem – nessa parte da trama fica bem claro que o autor acabou adaptando, de uma forma bem singela, a linha narrativa de Mulan (1998).

[ALERTA DE SPOILER]

Mariana é uma mulher forte e decidida. A agressão física que ela sofre nos momentos finais da obra, tendo seus cabelos cortados à força por Xavier (Ricardo Tozzi), só aumenta a sua força. Os cabelos longos, principalmente naquela época, eram um sinal de feminilidade e tê-los cortados à força fez com que, por um momento, ela não se visse como mulher; no entanto, a mesma passa a entender que não são os cabelos longos que determinam se ela é ou deixa de ser uma figura feminina.

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A melhor amiga de Mariana é a sua irmã mais nova, Cecília (Anaju Dorigon), que se apresenta por meio de um retrato de uma moça curiosa, com a imaginação fértil e com um faro maravilhoso para a investigação. A detetive da família não sossega enquanto não conseguir desvendar cada detalhe de algo que chamou a sua atenção.

Cecília, assim como Jane, tem um desejo de ser mãe. Entretanto, ela não consegue engravidar, o que a deixou para baixo por muitos momentos dentro da trama das seis, pois pensava que o fato de não poder gerar filhos diminuía a sua capacidade como mulher. Aos poucos, ela vai compreender que, se não pode gerar as suas próprias crianças, poderia ser mãe por outras vias, como, por exemplo, a adoção. Orgulho e Paixão foi a primeira novela das seis, enquanto narrativa de época, a trazer o tema da adoção, principalmente através da visibilidade do quão significativo é dar amor a uma criança que necessita do seu carinho e proteção.

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A última irmã, Lídia Benedito (Bruna Griphao), é representada pelo papel social imposto às mulheres desde que o mundo é mundo. Ela inicia a novela como uma menina fútil, que segue, sem pensar duas vezes, as ideias malucas de Ofélia (Vera Holtz), sua mãe. Essa personagem foi inspirada na irmã mais nova de Elizabeth Bennet, Ligia, na citada obra de referência Orgulho e Preconceito.

No entanto, a caçulinha acaba engravidando antes do casamento, tornando-se uma mãe solteira, e é a partir deste momento que ela começa a perceber a misoginia e os machismos dos homens sobre as mulheres. Os moradores do Vale do Café passam a tratá-la mal por isso, o que a faz enxergar que ser mulher vai além dos padrões sociais que são impostos desde o nascimento: ser mulher é sinônimo de força e de luta.

Orgulho e Paixão foi a primeira novela de época a não abordar em sua linha narrativa, de forma complacente, o retrato social machista e misógino que é cobrado da mulher (até hoje). O roteiro acaba abordando, de forma fantástica, as várias formas do poder ser feminino, como demonstrado dentro dessa única família.

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