Filmes

Crítica | A Casa do Medo

Um bom exemplar de suspense com invasão domiciliar, choque de realidade e curvas narrativas que desembocam num resultado suficientemente satisfatório!

Uma mãe e duas filhas mudam-se para um casa onde serão vítimas de dois invasores misteriosos e terão que lutar não apenas para sobreviver a este ataque, mas para aprender a lidar com os fantasmas e feridas criados por aquele evento. A sinopse repete uma fórmula já relativamente desgastada, mas que pode ser sorvida a contento se o espectador se permitir ir descortinando a história sem precipitar os próximos minutos ou antecipar o desfecho.

GHOSTLAND-movie

O filme, além de ousar revisitar o argumento base do subgênero de invasão domiciliar, optou por deliberadamente cravejar a película com velhos e emblemáticos clichês, sejam jumpscares gratuitos, lábios leporinos, souvenirs feitos com restos humanos, uma van que vende sorvete, dois vilões que parecem recém-fugidos de um sanatório e uma decoração composta com objetos perdidos de algum trem fantasma. Essa festa de chavões imagéticos, contudo, não torna a viagem mais enfadonha, mas consegue fazer com que o espectador se veja deslocado em suas expectativas o suficiente para garantir o efeito surpresa em passagens pontuais.

Contudo, A Casa do Medo acaba cometendo um erro mortificante para o desempenho da trama, qual seja os personagens pouco aprofundados e sempre dispostos a ignorar os riscos óbvios de uma decisão estúpida, o que dificulta a identificação da platéia com os protagonistas. A dobradinha entre as atrizes Emilia Jones e Taylor Hickson, entretanto, parece conseguir, por fim, contornar as dificuldades de um roteiro raso em roteiros secundários. Enquanto a mãe das garotas, interpretada por Mylène Farmer, não se destaca tanto, as atuações dos invasores, Kevin Power e Rob Archer, são a grande cereja do bolo, pois conseguiram imprimir um forte identidade às personagens a ponto de serem suas figuras, por si só, responsáveis por expressivo quinhão de toda a ambiência do filme.

A estrutura fragmentada entre fantasia e realidade parece repetir a ideia de um pareamento entre diferentes dimensões coexistentes, tal qual se viu em Mártires (2008), trabalho do mesmo diretor e que o levou a ser conhecido e aplaudido entre os fãs do gênero. Desta vez, contudo, o sofrimento prescinde de qualquer especulação metafísica para se ver legitimado como instrumento de sublimação da realidade, mas a fim de provocar o mesmo incômodo de sua obra dez anos mais nova.

Apesar disso, a direção de Pascal Laugier acaba salvando o filme do psiquismo raso dos personagens por ornamentar as cenas com detalhes que compensam em bizarrices o mistério pouco explorado e por conferir a devida tensão aos momentos certos. Essa tensão, ademais, se conduz por um desnorteamento constante do expectador, mas com mirabolâncias ao longo do roteiro que se costuram num desfecho que faz, então, todo sentido.

Trata-se, portanto, ao final, de uma reedição bem-sucedida de uma velha ideia que, devidamente acompanhada com olhares despretensiosos e de velhos clichês oportunamente reorganizados, possibilita um excelente passatempo em forma de um saboroso suspense.

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